Manoel de Barros e os filhos de Clarice: a desconstrução das essências das coisas

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Do pouco que li e aprendi com o velho Manoel (ou o eterno Menino do Mato), pude perceber que uma de suas prioridades está voltada para a desconstrução do comum ou em simplesmente “desver o mundo”, como o próprio escreve repetidas vezes em seus poemas.

Manoel privilegia o estranho, o absurdo, o ver nu e cru sem teorizações ou preocupações com a boa sintaxe.

Dessa forma, bem como crianças, e através de um olhar plenamente puro, por Manoel somos apresentados e convidados a mergulhar em uma configuração inigualável das coisas e do mundo.

Nos versos do poeta sul-mato-grossense é possível, por exemplo:

Ver formigas que se ajoelham em pedras,
sem sequer terem joelhos ajoelháveis.
Sapos que têm olhar de árvore.
Pássaros que mastigam pedaços de vento
e moram nas palavras.
Tocar na bunda do vento
e no corpo da manhã.

Para Manoel o prazer está em perturbar o sentido normal das coisas com a riqueza do absurdo. Significar é o que ele expressa menos desejar, pois atribuir sentido (de explicação) às coisas é o mesmo que criar limites à imaginação, o que elimina por completo as possibilidades de, igualmente a uma criança:

Ser parte de uma árvore,
como os pássaros o são.
Achar uma voz sem boca,
ou mesmo encontrar
uma boca que fale azul.

Ao quebrar barreiras semânticas, Manoel de Barros estabelece uma aproximação mágica com o mundo curioso da cabeça das crianças. E essa desconstrução da essência das coisas permite não apenas uma volta ao tempo em que se foi pequeno, mas, sobretudo, um retorno a um passado no qual (des)ver o mundo era conduzido espontaneamente pela intuição, como numa brincadeira.

Manoel chega a ser tão primoroso em suas desconstruções que as linhas de seus poemas (algumas delas acima reconstruídas) podem ser facilmente confundidas com falas autênticas de crianças.

E, como prova de tamanha semelhança, cito Pedro e Paulo, filhos da escritora Clarice Lispector, que em muitos registros, feitos por ela mesma, se mostraram mestres natos na arte de desver o mundo.

No conto Come, meu filho Paulo pode, por exemplo:

Saborear as cores dos sorvetes.
E tem o pepino como “inreal”,
já que ele permite
ver do outro lado,
é cheio de desenho igual,
frio na boca,
e faz barulho de vidro
quando mastigado.

Em Minhas Queridas, livro de correspondências, Pedro, seu filho mais velho, tinha hábitos como:

Chamar a mãe de minha alma.
Não querer crescer,
(ser homem grande).
E não sabia como andaria,
se tivesse mãos
nos pés e pés nas mãos.

Em Outros escritos, na seção de diálogos (também registrados pela própria Clarice), Pedro, mais uma vez, mostrou ser dono de uma mente bastante fértil ao imaginar que:

Podia ver coisas
que não existiam.
Que a voz era feita de nada.
O coração da mãe era doce.
O céu era igual ao mar.
E que porão era lugar para sonhar.

O “desver o mundo”, tomado por Manoel como exercício de criação poética, parece então ser o mesmo vivenciado por Pedro, Paulo e por todas as outras crianças que, com alegria, vão aos poucos e curiosamente descobrindo o universo que as cerca.

Se da boca das crianças sai espontaneamente poesia, nada mais justo do que se permitir imaginar como elas para poder ver e apreender as coisas com um pouco mais de graça e cor, sem objetivá-las.

Isso foi o que o velho Manoel fez. Ele (foi) deu às coisas um espectador incomum, digno.

E, embora seu corpo tenha envelhecido e morrido, ele não deixou de ter o fôlego e verve pueris. É certo que o menino Manoel ainda vive no olhar curioso de muitas crianças mundo afora, sejam elas grandes ou pequenas.