Mário de Andrade, sua morte precoce em versos

A morte precoce de Mário de Andrade deixou saudades em seus amigos escritores. Alguns deles expressaram esse sentimento em poemas.

Mário de Andrade: foto reprodução

Os “mortos precoces”

Nestes últimos dois anos, fomos forçados a encarar a finitude da vida com mais intensidade, a própria e a dos demais. Não há quem não enfrentou algum luto durante o período. Além das mortes decorrentes da pandemia (e de sua propagação institucional), as de tantas outras causas não se aplacaram.

Quando houve pouco tempo, seja lógico ou cronológico, restou com mais força um ar de interrupção. Rainer Rilke chama os suspensos de mortos precoces; os que se vão de repente, sem a oportunidade de envelhecer ou preparar sua partida.

A morte precoce de Mário de Andrade

A vida e a história, alheias à nossa concepção de justiça, são repletas dessas “ingentilezas”. Ainda que ciente de ter duas mãos e o sentimento do mundo, é temerosa a ideia de fazer algum destaque. Mas ensaio agora um transporte a uma que envolve poesia, tanto do lado de quem foi, quanto de quem ficou:

Em 1945, aos 52 anos, em sua casa, Mário de Andrade deixou obras inacabadas. Morreu por conta de um ataque cardíaco.

Sem a veloz internet, resta especular o meio pelo qual os amigos receberam a notícia; terceiros, jornais, cartas? Como reagiram em um primeiro momento, sozinhos ou não?

No segundo, sabe-se que escreveram poemas. São documentos de um marco histórico, mas também de seus processos elaborativos – ato que se repetiu em uma data emblemática.

Deixo-os a seguir. Memento mori.

A Mário de Andrade Ausente

– Manuel Bandeira

Anunciaram que você morreu.
Meus olhos, meus ouvidos testemunharam:
A alma profunda, não.
Por isso não sinto agora a sua falta.
Sei bem que ela virá
(Pela força persuasiva do tempo).
Virá súbito um dia,
Inadvertida para os demais.
Por exemplo, assim:
À mesa conversarão de uma coisa e outra,
Uma palavra lançada à toa
Baterá na franja dos lutos de sangue.
Alguém perguntará em que estou pensando,
Sorrirei sem dizer que em você
Profundamente
Mas agora não sinto a sua falta.
(É sempre assim quando o ausente
Partiu sem se despedir:
Você não se despediu.)
Você não morreu: ausentou-se.
Direi: Faz já tempo que ele não escreve.
Irei a São Paulo: você não virá ao meu hotel.
Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.
Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua continua.
Na vida que você viveu.
Por isso não sinto agora a sua falta.

Mário de Andrade Desce aos Infernos

Carlos Drummond de Andrade

I
Daqui a vinte anos farei teu poema
e te cantarei com tal suspiro
que as flores pasmarão, e as abelhas, confundidas, esvairão seu mel.
Daqui a vinte anos: poderei
tanto esperar o preço da poesia?
É preciso tirar da boca urgente
o canto rápido, ziguezagueante, rouco,
feito da impureza do minuto
e de vozes em febre, que golpeiam
esta viola desatinada
no chão, no chão.
II
No chão me deito à maneira dos desesperados.
Estou escuro, estou rigorosamente noturno, estou vazio,
esqueço que sou um poeta, que não estou sozinho,
preciso aceitar e compor, minhas medidas partiram-se,
mas preciso, preciso, preciso.
Rastejando, entre cacos, me aproximo.
Não quero, mas preciso tocar pele de homem,
avaliar o frio, ver a cor, ver o silêncio,
conhecer um novo amigo e nele me derramar.
Porque é outro amigo. A explosiva descoberta
ainda me atordoa. Estou cego e vejo. Arranco os olhos e vejo.
Furo as paredes e vejo. Através do mar sangüíneo vejo.
Minucioso, implacável, sereno, pulverizado,
é outro amigo. São outros dentes. Outro sorriso.
Outra palavra, que goteja.
III
O meu amigo era tão
de tal modo extraordinário,
cabia numa só carta,
esperava-me na esquina,
e já um poste depois ia descendo o Amazonas,
tinha coletes de música,
entre cantares de amigo
pairava na renda fina dos Sete Saltos,
na serrania mineira, no mangue, no seringal, nos mais diversos brasis,
e para além dos brasis,
nas regiões inventadas,
países a que aspiramos,
fantásticos,
mas certos, inelutáveis,
terra de João invencível,
a rosa do povo aberta…
IV
A rosa do povo despetala-se,
ou ainda conserva o pudor da alva?
É um anúncio, um chamado, uma esperança embora frágil, pranto infantil no berço?
Talvez apenas um ai de seresta, quem sabe.
Mas há um ouvido mais fino que escuta, um peito de artista que incha,
e uma rosa se abre, um segredo comunica-se, o poeta anunciou,
o poeta, nas trevas, anunciou.
Mais perto, e uma lâmpada. Mais perto, e quadros,
quadros. Portinari aqui esteve, deixou
sua garra. Aqui Cézanne e Picasso,
os primitivos, os cantadores, a gente de pé-no-chão,
a voz que vem do Nordeste, os fetiches, as religiões,
os bichos… Aqui tudo se acumulou,
esta é a Rua Lopes Chaves, 546,
outrora 108. Para aqui muitas vezes voou
meu pensamento. Daqui vinha a palavra
esperada na dúvida e no cacto.
Aqui nunca pisei. Mas como o chão
sabe a forma dos pés e é liso e beija!
Todas as brisas da saudade balançam a casa,
empurram a casa,
navio de São Paulo no céu nacional,
vai colhendo amigos de Minas e Rio Grande do Sul,
gente de Pernambuco e Pará, todos os apertos de mão,
todas as confidências a casa recolhe,
embala, pastoreia.
Os que entram e os que saem se cruzam na imensidão dos corredores,
paz nas escadas,
calma nos vidros,
e ela viaja como um lento pássaro, uma notícia postal, uma nuvem pejada.
Casas ancoradas saúdam-na fraternas:
Vai, amiga!
Não te vás, amiga…
(Um homem se dá no Brasil mas conserva-se intato,
preso a uma casa e dócil a seus companheiros
esparsos.)
Súbito a barba deixou de crescer. Telegramas
irrompem. Telefones
retinem. Silêncio
em Lopes Chaves.
Agora percebo que estamos amputados e frios.
Não tenho voz de queixa pessoal, não sou
um homem destroçado vagueando na praia.
Muitos procuram São Paulo no ar e se concentram,
aura secreta na respiração da cidade.
É um retrato, somente um retrato,
algo nos jornais, na lembrança,
o dia estragado como uma fruta,
um véu baixando,
um rictus o desejo de não conversar. É sobretudo uma pausa oca
e além de todo vinagre.
Mas tua sombra robusta desprende-se e avança.
Desce o rio, penetra os túneis seculares onde o amigo marcou seus traços funerários, desliza na água salobra, e ficam tuas palavras (superamos a morte, e a palma triunfa) tuas palavras carbúnculo e carinhosos diamantes.

Aniversário

– Carlos Drummond de Andrade

Os cinco anos de tua morte
esculpiram já uma criança.
Moldada em éter, de tal sorte,
ela é fulva e no dia avança.
Este menino malasártico,
Macunaíma de novo porte,
escreve cartas no ar fantástico
para compensar tua morte.
Com todos os dentes, feliz,
lá de um mundo sem sul nem norte, de teu inesgotável país,
ris. Alegria ou puro esporte?
Ris, irmão, assim cristalino
(Mozart aberto em pianoforte)
o redondo, claro, apolíneo
riso de quem conhece a morte.
Não adianta, vê, te prantearmos…
Tudo sabes, sem que isso importe
em cinismo, pena, sarcasmo.
E, deserto, ficas mais forte.
Giras na Ursa Maior, acaso,
solitário, em meio à coorte,
sem, nas pupilas, flor ou vaso.
Mas o jardim é teu, da morte.
Se de nosso nada possuímos
salvo o apaixonado transporte
— vida é paixão —, contigo rimos,
expectantes, em frente à Porta!

Créditos HL

O texto acima é de autoria de Paula Akkari. A revisão é de Fernando Araújo. A edição é de Nicole Ayres, Editora Assistente do Homo Literatus.



Paula Akkari
Graduanda de Psicologia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Paula Akkari
Graduanda de Psicologia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Revisão por
Fernando Araujo Neto
Recifense, graduando em ciências sociais pela UFPE, apaixonado por cultura popular
Editoria por
Nicole Ayres
http://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
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