Martha Medeiros e a vida com uma pitada de sexo

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Foi o maior striptease da minha vida. Não tirei luvas, meias, sutiãs. Tirei minha alma pra fora.

Faz exatamente um ano que ganhei de uma amiga muito querida o romance Noite em claro. É aquele tipo de livro que você pega e devora em poucos minutos – não pelo fato de ele ter apenas sessenta e quatro páginas, mas por causa da linguagem envolvente de Martha Medeiros. Essa gaúcha tem o dom de esboçar os traços mais simples e mais complexos da essência de ser humano; é raro quem não simpatize com ela. Voltando à obra, trata-se da história de uma jornalista que, em pleno dia dos namorados, estava em seu apartamento “sozinha, tentando ficar bêbada, prestes a ser gorda, infernizada por recordações do passado e impaciente para inventar um futuro.” Chovia. Foi então que decidiu começar a escrever um livro.

Escrever. Escrever para lembrar e para esquecer. Para voltar e para avançar. O simples ato de permitir que os pensamentos e sentimentos tomem forma, de permitir que se materializem em pequenos grafemas – legíveis ou ilegíveis à percepção humana.

Aquela mulher só pararia de escrever quando a última gota de chuva caísse lá fora.

Não é a toa que gostei dela.

Eder entrou em sua vida através de uma inocente troca de emails. Um momento, eu já mencionei que era dia dos namorados? Ah, já. Vinte e um anos haviam se passado desde que ela se entregara ao amor pela primeira vez – de uma maneira tão desinibida que o pobre coitado duvidou de sua virgindade. Que se dane. Ela a-do-ra-va sexo.

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Embalada por Crazy, de Alanis Morissette, e acompanhada de uma canequinha de vinho tinto (sim, uma canequinha!), olhei para o céu e abracei a lua. Suponhamos que fosse minha última noite no mundo. E então? Será que eu estaria pronta para despir minha alma em algumas folhas de papel? Será que o que eu escrevesse seria interessante, ao menos para uma pessoa?

A vida só se torna interessante a partir do momento em que deixamos nossos preconceitos e pré conceitos de lado. A partir do momento em que mandamos o medo para aquele lugar e decidimos saborear cada sensação que o fato de ser humano nos proporciona.

Oito anos antes daquela noite chuvosa, ela conheceu o homem dos seus sonhos. Pouco depois, porém, ela conheceu a mártir que poderia ser. Roger era paraplégico. Ela diz que nos apaixonamos pelo que é impossível e nós. Quem sabe o oposto seja verdadeiro. Quem sabe não nos apaixonamos pelo que é possível, o que não significa que esse possível não possa ser belo. Isso explica muita coisa.

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Já mencionei que a mulher adorava sexo? Sim, desculpe. O psicótico dos emails, como é mesmo o nome dele?, Eder, surge em sua porta – de onde viera e para que fim viera, fique a vontade para ler Noite em claro. Encontros, despedidas, perdas e ganhos… ninguém tem uma vida perfeita, mas é possível encontrar a perfeição a cada vez que o sol surge para anunciar um novo dia.

A chuva estava parando.

Seu tempo havia terminado.

Uma última gota e por fim, um ponto final.

Noite em claro
Martha Medeiros
L&PM Pocket
64 páginas