‘Maus’ ou uma história da Segunda Guerra apenas possível nos quadrinhos

Art Spielgman consegue através de sua obra Maus provar que as histórias em quadrinhos servem de veículo narrativo para os mais diversos tipos de histórias

Até pouco tempo atrás, eu era um dos que acreditava que quadrinhos serviam apenas para relatar histórias de super-heróis, em sua maioria, com enredos frágeis e finais prontos – obviamente, eu ainda não tinha lido Watchmen, V de Vingança, Sandman e, claro, Maus: a história de um sobrevivente. Já corrigi essa falha de caráter (acrescente-se aí algumas HQs do Batman que simplesmente devem ser motivo de culto).

Maus é a história de um quadrinista que pede ao pai judeu que relate os sofrimentos passados no decorrer da Segunda Guerra Mundial. E a partir disso passa a conjeturar a elaboração de uma revista em quadrinhos a respeito, ainda que o pai alegue que ninguém se interessaria por sua vida. A trama então parte do relato do pai no começo da guerra, quando ainda nem se considerava a ameaça nazista; e se alterna com o presente, quando o pai do jovem quadrinista enfrenta problemas para conviver com a atual esposa, posto que sua natureza enérgica de sobrevivente e econômico até o último centavo parecem não fazer sentido no mundo de hoje.

Guardei um dos pontos mais criativos da história para apresentar apenas depois de que se tivesse uma noção da trama, considerando que muitos poderiam torcer o nariz para tal decisão narrativa. Não temos seres humanos em Maus, todos são caracterizados como animais. Judeus como ratos, alemães como porcos, americanos como cachorros, franceses como sapos etc.

Não sei se propositalmente, mas é impossível não traçar um paralelo com o conto Josefina, a Cantora ou O Povo dos Camundongos, de Franz Kafka, no qual se percebe o escritor tcheco retratando os judeus a partir dos ratos.

A metaficção ou uma história dentro de outra história

Um dos aspectos que provavelmente levou Maus a receber o Prêmio Pulitzer é seu teor metaficcional. Há um conflito de batalhas, do filho se sentindo menor por estar numa guerra contra seu bloqueio criativo de quadrinista, enquanto o pai atravessou a Segunda Guerra como um sobrevivente – o que fadaria o filho a se sentir menor pelo resto da vida.

É um confronto brutal da arte contra a realidade, ainda que estas, em minha opinião, sejam lutas de categorias diferentes.

Na página 176, o personagem artista confessa à esposa que se questiona sobre se não estaria “dando um passo maior do que a perna” ao tentar retratar nos quadrinhos uma realidade que foi muito pior do que seus “sonhos mais pavorosos”. O arremete do diálogo cresce em brilhantismo quando o personagem pergunta ainda “está vendo?… Na vida real, você nunca ia me deixar falar isso tudo sem me interromper”. Para o leitor envolvido no drama da graphic novel este é um soco na boca do estômago, pois é como se Spielgman nos avisasse: “você está lendo um quadrinho, meu velho, ainda que esteja sentindo toda essa dor. E essa dor específica só pode ser transmitida em quadrinhos, simples assim.”

Maus é repleto de momentos assombrosos, pois não vemos uma mera peça ficcional, mas sim a própria face negra da humanidade. E dá medo.

 

Referência:

SPIELGMAN, Art. Maus: a história de um sobrevivente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Vilto Reis
Autor do livro "Um gato chamado Borges", professor de escrita criativa e apresentador do Podcast de Literatura 30:MIN.
Vilto Reis
Autor do livro "Um gato chamado Borges", professor de escrita criativa e apresentador do Podcast de Literatura 30:MIN.
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