Memórias e reconstruções – A Casa dos Espelhos de Kokis

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Em A Casa de Espelhos, Sérgio Kokis mistura fatos biográficos com ficção.  O autor, assim como seu personagem principal, também deixou o Brasil fugindo da ditadura militar.

Sergio Kokis
Sergio Kokis, autor de “A casa dos espelhos”

O romance A Casa dos Espelhos, de Sergio Kokis, traz a história de um homem que viveu sua infância e juventude no Brasil, depois deixou o país como exilado político. Partiu para o hemisfério norte para estudar e nunca mais voltou. Neste mundo distante do seu país de origem, isolado, estrangeiro, ele conta sua história. Ele é o filho do meio de uma família com graves problemas de relacionamento. O pai que outrora, na mais tenra infância, era seu melhor amigo, passa a se isolar, após, entre tantos problemas profissionais, ver a mulher montar na sua própria casa um prostíbulo para pagar as contas que ele mesmo não consegue pagar.

O narrador não diz exatamente de onde conta sua história. Sabe-se que se trata de um lugar onde a língua é a francesa, mas não se trata da Europa, pois ele se refere algumas vezes a correntes de pintura norte-americanas (no sentido da parte norte do continente, e não dos Estados Unidos), dando a impressão de que a história se passa no Canadá. Desse seu exílio, tanto político e territorial quando sentimental, o inominado narrador vive de suas rememorações de infância nos trópicos, utilizando-se da pintura como forma de expurgação das imagens que traz do país natal. Sendo pintor, as imagens de outrora se tornam uma obsessão para ele. Uma das imagens mais nítidas que ele traz é a do carnaval brasileiro, o calor e a sensualidade dos trópicos. Com o auxílio da pintura, essas imagens vão sendo retratadas em formas de quadros. Quanto mais pintava, mais imagens viam-lhe à tona, boas ou más, mas todas de uma época em que seu olhar captou todas elas e armazenou como lembranças.

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“A casa dos espelhos” (Editora Record)

Em capítulos mais longos, o narrador descreve cenas de sua infância, das brincadeiras com os amigos, do carnaval, dos tempos de internato em um colégio religioso. Já nos capítulos mais curtos, entremeando as suas memórias, ele descreve sua vida no país que adotou como nova casa. Naqueles capítulos há uma predominância, na descrição das cenas, de calor, de sensualidade, de exotismo e religiosidade. Já quando descreve o seu dia-a-dia no hemisfério norte, o narrador opta pela frieza, em um tom de saudosismo em comparação ao Brasil.

A Casa dos Espelhos não tem um tom somente saudosista. A personagem revisita sua vida no hemisfério sul tentando resgatar uma parte de sua identidade para se auto-reconstruir. A imagem, por intermédio da arte, passa a ser elemento fundamental na tentativa de construção/reencontro dessa identidade, caracterizando assim seu entrelugar. No caminho adotado por muitos escritores contemporâneos – como Cristovão Tezza recentemente – Sérgio Kokis mistura fatos biográficos com ficção. Ele, assim como seu personagem principal, também deixou o Brasil fugindo da ditadura militar, é escritor e pintor e vive no Canadá e nunca mais voltou ao Brasil. Uma pena não ter em nossas terras um escritor do talento de Sérgio Kokis. Uma pena saber que ele tem guardado tanta mágoa do Brasil. Sérgio Kokis escreve em francês e tem somente o romance A Casa dos Espelhos, seu primeiro romance, lançado em 1994, traduzido para o português. Ele continua escrevendo e já ganhou uma dezena de prêmios nacionais e internacionais.