Mercado Literário: do drama ao teledrama

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O que você tem a dizer sobre essa novela literária?

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Em meu primeiro artigo para o Homo Literatus, O escritor na época da reprodutibilidade técnica, concentrei minhas críticas ao mercado livreiro. Embora tivesse terminado o ensaio em tom de beco sem saída, há saídas. Antes disso, quero citar uma fala que veio a corroborar com meu argumento crítico ao mercado. Na última Feira do Livro de Frankfurt, ocorrida em outubro deste ano, o editor Tomás Pereira, dono da editora Sextante, disse, segundo noticiou o jornal Folha de São Paulo (25/10/16), que “Os melhores autores brasileiros estão escrevendo novela”. Tal frase de efeito deixa a seguinte pergunta no ar: é ignorância ou má fé? Um dono de editora sai do Brasil, pega um avião em direção a Alemanha para participar da maior feira literária do mundo e dizer tamanha estupidez? A própria matéria do jornal dá as pistas do que podemos classificar aqui de ignorância editorial. O editor citou os novelistas Walcyr Carrasco, Janete Clair e Dias Gomes. A considerar que dos três autores mencionados, apenas um está vivo, chegamos à conclusão de que o editor tupiniquim não conhece pouco apenas o atual cenário literário, mas inclusive ignora o cenário da teledramaturgia contemporânea.

Não foi sem surpresa que um amigo que estudava na USP me trouxe da Escola de Comunicações e Artes um capítulo da última versão da novela Irmãos Coragem, redigido por Ferreira Gullar na época em que Dias Gomes era vivo e assinava o remake da novela de sua falecida esposa. Fiquei intrigado: por que tão famoso poeta estava como colaborador a escrever capítulos de telenovela? Claro que não demorei a chegar a uma resposta satisfatória. Poesia não paga as contas. Todos os poetas sabem disso. Apenas muito recentemente Leminski, por conta de uma demanda reprimida por anos e anos de obras não publicadas, do mito em torno de seu nome e biografia, dos méritos de sua obra, se tornou campeão de vendas. Fenômeno único e circunscrito. Tal sorte não teve Ana Cristina César, que citei no artigo anterior. Mas voltando aos autores de telenovela. Desconheço algum grande escritor que tenha abandonado o ofício literário para ser funcionário da rede Globo ou Record. Conheço casos de bons escritores que mesclam a atividade literária com a de roteirista cinematográfico, sem que isso os conduza a priorizar apenas o cinema. Comentário desta natureza feita por um grande editor mais revela do que esconde. O grande mercado conhece apenas o que está estabelecido, o establishment, o mainstream. Quem está fora deste circuito, um outsider, tem de descobrir mecanismos alternativos.

Quais os mecanismos?

Escritores em geral, não sei se por vício de origem ou vício do ofício, tendem a ser solitários. Provavelmente, na atualidade, o escritor e o artista plástico sejam as atividades artísticas mais isoladas na figura do próprio artista. Nem sempre foi assim. Na Renascença, os pintores e escultores faziam parte de um coletivo, de uma escola, de uma corporação de ofício, tanto que os grandes mestres, quando pintavam uma grande tela ou afrescos, trabalhavam apenas nas principais partes da imagem, geralmente os rostos ao centro, e todo o restante da obra era desenvolvida pelos aprendizes. Os trovadores e os aedos viviam como os músicos hoje vivem. A figura do artista recluso, individual, subjetivo, genial, são todas construções do romantismo e da modernidade. Embora esse paradigma tenha permitido a eclosão dos chamados “grandes gênios” da humanidade, que saíram dos domínios das artes e chegaram até as ciências, ainda hoje padecemos deste legado para sempre perdido. É fato que o individualismo burguês permitiu conhecermos o interior de grandes subjetividades, de Goethe a Proust. Porém, nesta atualidade que converge a massificação de uma inexorável publicidade forçada da vida privada e da implacável perda da intimidade e privacidade, ser escritor fechado em seu mundo interior é olhar para trás e ver a queda de Sodoma e Gomorra. Ser um escritor recluso como Salinger, Dalton Trevisan, Handke ou Rubem Fonseca, dedicado apenas à sua arte, longe dos holofotes e câmeras digitais, hoje é quase uma utopia. A atividade do escritor, sendo muitas vezes individual e individualista, impossibilitou-se historicamente de se desenvolver como classe social ou, caso queiram, como ramo profissional. Os profissionais do teatro, da música e do cinema têm muito mais senso coletivo e consciência de classe que o escritor e o artista plástico. Por isso, se organizam e se articulam melhor. Inclusive eles são muito menos críticos e mais colaborativos com seus pares do que os escritores. Certa vez, Chico Buarque, com a visão de músico que se tornara escritor, utilizou uma metáfora futebolística para tratar do problema ao dizer que os escritores deveriam bater mais bola entre si.

A chave

Diante do fenômeno da massificação, estratégias individuais ou individualistas tendem a ser diluídas e atomizadas pelas próprias estruturas sociais e os filtros mercadológicos. Claro que há o recente fenômeno dos youtubers publicando livros, porém estes virão a ser exceção e não a regra. Como, por exemplo, quando o blog era a novidade e gerou o fenômeno Clara Averbuck. Fazer vídeos falando qualquer besteira ou futilidade ou escrever um post em um blog hoje são atividades comuns e triviais que agregam a habilidade de comunicação que cada um possui ou não. O que estamos tratando aqui é de outra coisa: tratamos de literatura, algo mais profundo e complexo.

Pois bem, a chave que se apresenta, a alternativa que consigo vislumbrar no atual contexto, se orienta na direção de atividades e ações afirmativas organizadas enquanto coletivo e classe. Muito antes de cursar Filosofia, ouvi de um amigo músico uma singular exemplificação de ética. Dizia ele: “ética é quando você vai a um dentista depois de ter sido tratado por outro. O novo dentista percebe que o dentista anterior fodeu com seus dentes, mas não te fala nada”. Claro que na época eu não tinha formação o suficiente para contestá-lo e dizer que aquele exemplo não era de ética, mas corporativismo. O mesmo corporativismo que leva os médicos, poucos dispostos a clinicar nos interiores e rincões do Brasil, a protestar contra a importação de médicos cubanos. Mas tratemos aqui mais de escritores e menos de médicos e dentistas. O argumento que se coloca neste artigo é que escritores não precisam ser corporativistas, elogiarem livros e autores que detestam, mas se faz fundamental e imprescindível, diante das engrenagens da indústria cultural, se organizarem coletivamente em torno de temas, pautas e demandas comuns a toda a classe literária.

A que temas, pautas e demandas comuns me refiro? Tratarei disso no próximo artigo.