Mil e Uma Noites com Ítalo Calvino e Jorge Luis Borges

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Como a obra O Deserto, de Jorge Luis Borges, pode se aproximar, tratando da inserção do leitor numa obra e o ato da leitura como algo infinito, do livro Se um viajante numa noite de Inverno, de Ítalo Calvino.

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Ítalo Calvino e Jorge Luis Borges

“A uns trezentos ou quatrocentos metros da Pirâmide me inclinei, peguei um punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais longe e disse em voz baixa: Estou modificando o Saara. O fato era mínimo, mas essas palavras pouco engenhosas eram exatas e pensei que havia sido necessária toda minha vida para que eu pudesse dizê-las. A memória daquele momento é uma das mais significativas de minha estada no Egito.”

                                                                                                 Jorge Luis Borges

A epígrafe acima é um fragmento de O Deserto, do aclamado escritor argentino Jorge Luis Borges. Em sua “parábola”, o literato retrata a inserção do sujeito no ato criativo, transformando o deserto, incorporando-o ao Livro de areia, sem começo nem fim. Ocorreu-me que tal alegoria sobre a escrita, sobre a inserção do leitor numa obra e, o ato da leitura como algo infinito, aproxima-se de outro escrito, de outro autor; falo da história Se um viajante numa noite de Inverno, de Ítalo Calvino.

O romance foi publicado, pela primeira vez, em 1979, e sua temática é sobre a prática da leitura e suas incontáveis perspectivas. O autor cria uma história na qual o desafio principal, de seus personagens, é ler romances. O livro é formado por doze capítulos que estão intercalados entre dez narrativas. Essas dez narrativas são as histórias lidas pelos protagonistas: Ludmilla e o leitor. Sim, essas são as personagens, sendo que o leitor personagem pode facilmente se confundir com o próprio leitor do romance. É importante destacar que Ítalo Calvino se ficcionaliza na narrativa, ou seja, também é uma personagem. No primeiro capítulo, há: “Você vai começar a ler o novo romance de Ítalo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno. Relaxe.Concentre-se.” (página 11) E prossegue: “Pois então você leu num jornal que foi lançado Se um viajante numa noite de inverno, o novo livro de Ítalo Calvino, que não publicava nada havia vários anos. Passou por uma livraria e comprou o volume. Fez bem.” (página 13) Sobre essa peculiar história, lemos a observação da professora Rejane Oliveira  no ensaio Se um viajante numa noite de inverno: a escrita do leitor:

O romance é um passeio pelo mundo da leitura. Ao percorrer suas páginas, o leitor logo se depara com uma ação em suspenso, conforme sugere o título, embarcando numa viagem sem roteiro definido, uma viagem que inclui somente a trajetória, não havendo ponto de parada. O leitor-viajante experimenta a sensação de pisar em solo sempre estrangeiro, pois o romance abre um universo de leituras renovadas e em constante devir. (páginas 175-176)

Ludmilla e o leitor, vorazes por percorrerem as páginas da obra, seguem o conselho de Calvino e compram seu lançamento. Ambos se conhecem numa livraria e iniciam sua relação através de leituras. A partir desse encontro, ocorre uma sucessão de fatos que envolvem os dois. Os jovens adquirem exemplares de um lote em que ocorreu um erro de encadernação; as folhas do romance estão misturadas a outras, de outro autor, um escritor polonês. Ambos se interessam por essa nova história e iniciam a leitura de Distanciando-se de Malbork, de Bazakbal. Tal edição também apresenta um problema, pois a narrativa não se assemelha a mesma do escritor polonês, descobrem que agora há trechos de outro romance: Debruçado na borda da costa escarpada. Partem, então, para tal texto. E assim ocorre sucessivamente. Entre as leituras inacabadas, Ludmilla e o leitor vão se reencontrando e estabelecendo trocas de informações sobre as publicações. As apreciações da dupla são forçosamente interrompidas, pois sempre há contratempos editoriais. Inevitavelmente, o casal se encontra mais e mais, para discutir as versões e, até mesmo, para resolver enigmas que envolvem trabalhos de editoração e as traduções dos volumes.

Se um viajante numa noite de inverno não narra apenas a história de um casal que se conhece na livraria. O romance tem pretensões mais profundas e as alcança. O  mérito deste livro é valorizar, amiúde, a importância do ato de ler. Ludmilla e o leitor personagem são recursos, que o escritor utiliza, para levantar questões relevantes sobre a leitura. Muito além das compreensões do leitor-personagem e Ludmilla, Calvino consegue fazer com que o seu leitor questione suas próprias interpretações literárias, artifício que é facilitado pela maneira de narração da obra. Não é só através das duas personagens principais que somos levados a indagar todo o universo que envolve uma produção escrita: fatos, circunstâncias comuns na vida, de qualquer pessoa que lê, estão explicitados no texto, através de personagens que contribuem com algumas interpelações comuns que passam, constantemente, alheias por nós.

Quantas vezes questionamos a diferença entre se escutar uma história lida por alguém e as diferenças de efeitos que essa mesma história pode causar-nos lidas por nós mesmos? O ritmo de leitura, a postura vocal, a questão da atenção no que se escuta, esses fatos simples são citados no livro:

O texto, quando somos nós mesmos que o lemos, constitui algo que está ali, com o qual somos obrigados a defrontar-nos; quando alguém o traduz em voz alta, ele é alguma coisa que existe e não existe, que não é palpável. (página 74)

Todos nós necessitamos de um contato mais individualizado com uma obra. Obviamente, não se nega que toda forma de apreciação é válida, porém, nem sempre, o efeito será o mesmo. Corremos o risco da distração. Temos a necessidade de nossa interpretação e leitura singular. O ato de leitura, só para relembrar aquele velho chavão, é uma ação solitária. Saliento, porém, que compartilhar um texto, isto é, comentá-lo, é de suma importância para que ele se transfira para o âmbito da vida; é exatamente isto que os protagonistas fazem.

No quarto capítulo do livro, há uma passagem interessante onde um professor universitário tenta definir o ato de ler. Ele diz:

Ler é sempre isto: existe uma coisa que está ali, uma coisa feita de escrita, um objeto sólido, material, que não pode ser mudado; e por meio dele nos defrontamos com algo que não está presente, algo que faz parte do mundo imaterial, invisível, porque é apenas inconcebível, imaginável, ou porque existiu e não existe mais, porque é passado, perdido, inalcançável, na terra dos mortos… (página 78)

A personagem Ludmilla rebate o pensamento do professor com o seguinte argumento:

Ou talvez algo que não está presente porque não existe ainda, algo de desejado, temido, possível ou impossível… Ler é ir de encontro com algo que está para ser e ninguém sabe ainda o que será… (página 78)

Ludmilla demonstra, com sua complementação, que ler sempre será um momento de descoberta. Representando a expectativa de muitos leitores sobre as obras, a personagem mantém uma postura positiva a respeito da escrita. Ela tem conhecimento sobre a linguagem, sabe que o significado de uma obra não é apenas alguma coisa expressa ou refletida na linguagem, é na realidade produzida por ela. A leitora assume a posição de espectadora e participante da história, que se abre passivamente a um texto, submetendo-se ao seu ser misterioso inesgotável, deixando-se interrogar por ele (Heidegger).

Se um viajante numa noite de inverno proporciona ao leitor esse “ser misterioso e inesgotável”; reporta-nos à ideia da leitura como uma trajetória infinita; remete-nos a Borges com seu Livro de Areia, a obra que abarca todos os livros. Tanto para Calvino quanto para o escritor portenho, a Literatura assume o papel de fonte inesgotável e infinita de conhecimento. Lembra-nos muito  As Mil e Uma Noites, tão citada por Borges, que dizia: “ […] a história prossegue e talvez nunca cheguemos ao fim. Talvez nunca tenhamos percorrido todas as mil e uma noites, mas o fato de estarem lá empresta amplitude à coisa toda.” (Esse Ofício do Verso, página 107)

Calvino, nesse romance, faz alusão a Borges, faz alusão As Mil e Uma Noites. Assim, como uma alegoria do tempo narrativo, a junção dos 10 dos títulos das leituras interrompidas, de Ludmilla e o leitor, formam um novo texto, uma história a qual nunca saberemos o fim.

Se um viajante numa noite de inverno, fora do povoado de Malbork, debruçando-se na borda da costa escarpada, sem temer o vento e a vertigem, olha para baixo onde a sombra se adensa, numa rede de linhas que se entrelaçam, numa rede de linhas que se entrecruzam, no tapete de folhas iluminadas pela lua,ao redor de uma cova vazia. Que história espera seu fim lá embaixo?