Miniguia das peças de Shakespeare pelos colaboradores do Homo Literatus

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Preparamos um miniguia das obras de Shakespeare

Já escolheu qual peça minha vai ler, nobre visitante?

Em ano de comemoração aos quatrocentos anos de morte de William Shakespeare, os colaboradores do Homo Literatus trazem um miniguia de suas peças, as principais delas. Amor, política, fantasmas e intrigas. Um pouco em cada uma e o maior dramaturgo de língua inglesa fez as histórias que até hoje ganham palcos, telas de cinema e televisão; fora as traduções e adaptações. É tão contemporâneo que até precisamos relembrar de fato a data em que foram ao público.

Esse miniguia vem pra te ajudar a escolher sua preferida e se ainda não leu alguma, instigar sua vontade.

Otelo – por Walter Bach

Otelo, mouro de Veneza! Otelo é o cara que resolve o assunto, se for o dos outros. É tido como forte, quase um líder, mas cai feito idiota nas tramas de Iago, cuja persona fica transparente para nós – sujeito amoral que quer incendiar o mundo por interesses próprios. Otelo é tão forte e fraco ao mesmo tempo que não se toca: ele e sua amada Desdêmona são jogados um contra o outro, onde não existia nada nasce algo pior que o ciúme mais ridículo possível. Talvez o protagonista dessa peça nem seja o ‘mouro de Veneza’ e sim seu antagonista, o desprezível Iago, conspirador para quem as pessoas são mais descartáveis que lenços.

Em termos técnicos é uma das narrativas mais simples do velho William, por seus ‘palcos’ objetivos e com personagens menos ambíguos do que a média Shakesperiana; nada deve às demais e pode até ser lida antes como um ponto de partida à obra do nosso dramaturgo.

Hamlet – por Dayane Manfrere

Hamlet é o príncipe da Dinamarca. Sua vida muda quando seu pai é morto e o tio, Cláudio, assume sua sucessão e se casa, às pressas, com sua mãe. É uma das peças Shakespereanas mais emblemáticas, carrega em si uma visão política, trágico-familiar e questionamentos da moral, obsessão e maldade humana (diria que uma das mais ricas do Bardo).

É a peça mais longa de Shakespeare, talvez tenha sido a mais trabalhosa. No decorrer dos anos se consagrou como uma das peças mais poderosas e influentes em língua inglesa –talvez até mais que isso. Em sua época de lançamento, se tornou uma das mais populares de William. Há também um detalhe bem importante da vida do bardo que pode refletir diretamente na peça, seu único filho homem se chamava Hamnet e morreu aos 11 anos (por motivo desconhecido) no ano de 1596. A data da peça ainda não é precisa, mas considera-se como publicação em 1603, sete anos após a morte do filho. Além dos detalhes mencionados, hoje acredita-se que Shakespeare escreveu Hamlet inspirado na lenda de Amleto (figura da mitologia escandinava), do cronista Saxo Grammacticus.

O que não se pode deixar de lado é que Hamlet foi um personagem filosófico. Disposto de ideias relativistas, existencialistas e céticas trouxe à tona o maior exemplo da dúvida existencialista: Ser ou não ser?

Sonhos de uma noite de verão – por Maik Barbara

O homem revelador das palavras perfeitamente ordenadas na sequência correta. Sim, ele, William Shakespeare, o pai inglês da palavra, por assim dizer. A sumidade! Conseguiu mais uma vez.

Sonho de Uma Noite de Verão não fica atrás de obra alguma do mestre escritor.

Uma comédia, assim classificada por ele próprio, que deve ser lida com olhos e mentes daqueles que viviam na época de seu lançamento. Não se sabe ao certo quando a concepção aconteceu – algo em torno de meados de 1590.

Por que ler com outros olhos? Como diria o Lobo Mau: “para ver melhor”.

A Disputa de Obeorn e Titania, tela de Joseph Noel Paton para Sonhos de uma noite de Verão
A Disputa de Oberon e Titania, tela de Joseph Noel Paton para Sonhos de uma noite de Verão/ wikipedia

Há nuanças por todo o texto, lido uma, duas ou três vezes e ainda assim a peça carrega o leitor para caminhos, humores e pensamentos diferentes a cada vez. Veja por exemplo do próprio título em inglês: A Midsummer Night’s Dream, uma referência ao momento do ano que a noite mágica acontece. Na época que Shakespeare criou a obra, as separações entre Primavera e Verão, Outono ou Inverso não eram tidas dessa forma. Sendo assim, se tinha como meia-estação ou Solstício de Verão – no caso da peça. Que por sua vez era o momento do ano tido como da fertilidade. Rituais e festivais eram feitos nessa época, o que se  acredita ter influenciado a obra. Ou seja, uma coisa que você poderá perceber apenas tempos ou vezes lidas depois do primeiro contato com a obra.

A comédia trata do amor em suas facetas desordenadas e travessas. Pode não ficar claro se lido no texto original, mas durante as traduções e o tempo foi sendo inserido informações mais detalhadas, tal como que na época antiga em que se passa a história – Atenas – uma mulher deveria acatar a união com o marido do qual os pais decidissem fosse o certo para ela, ou escolher entre duas outras situações: o celibato e serviços religiosos, ou a pena de morte. Simples, não?

Pois bem… Sonho de Uma Noite de Verão desenrola um triângulo amoroso que se funde a outros dois núcleos narrativos, resultando numa tragédia cômica acompanhada de seres mitológicos greco-romanos e travessuras mágicas. Mostra o domínio masculino/ patriarcal da época e critica as atitudes gerais voltadas ao amor.

Em ênfase o que o texto destaca são as transformações, tanto semântica quanto metamórfica. Gerando reflexões em meio a um humor satírico. Shakespeare utiliza-se da floresta noturna como um caldeirão de mistura para sentimentos, com ênfase nos amores, todavia a característica predominante é: o sentimento elevado ao extremo. Magia e poções fazem com que o amor verdadeiro se perca enfeitiçado e seja trapaceado. O que nasceu no coração e desejo íntimo é ludibriado, enganado para tomar rumos diferentes. O humor fica por conta de algum detalhes, mas que ainda envolver o amor perdidamente enaltecido indo em rumos que não poderia existir, voltado para seres que nem mesmo poderiam ser amado, tal como a paixão da rainha das fadas, Titânia, por um burro. Sim, o animal!

A crítica no geral gira em torno do amor genuíno e na indagação de se aquilo realmente existia mediante tais costumes e leis (pais escolhendo o futuro matrimonial das filhas e filhos), que com o tempo, mesmo o que não foi destinado poderia passar a ser entendido como amor, ou talvez apenas sentimento mútuo de bem-querer, mas não amor.

As falas extrapoladas em efeito também características de outros textos que tratam do amor exaltado são marca registradas nessa peça. Para quem já conhece, a comédia tem afinidade com a técnica aplicada em outros trabalhos, tal como Romeu e Julieta, conduzida à elevação máxima do amor, a fim de conseguir empatia extrema do público e levá-lo junto com o texto, causas e, principalmente, efeitos que a trama reserva para o destino das personagens e gran finale.

Shakespeare, enfim, constrói e expõe a manipulação das emoções desfazendo o real em multifacetas. Cria a fantasia mágica e ao mesmo tempo critica a magia por trás do amor e os aspectos que ele pode ter. A peça termina com um felizes para sempre em forma de catarse, não com os casais que você inicialmente achou que o amor verdadeiro uniria, mas com os sentimentos manipulados e desviados.

Romeu e Julieta – por Nara Vidal

Tenho um livro que me ronda pela casa. Não importa o que eu esteja lendo, esse livro está sempre fora da estante, em alguma mesa, canto. The complete works of William Shakespeare senta na cabeceira feito uma oração. Com esse livro na mão, perguntei pra minha filha se ela conhecia a história de Romeu e Julieta. Ela disse que sim, que falaram sobre a peça na escola e que ela acha que é uma tristeza de um belo de um mal entendido. “Faltou comunicação, mãe!” Eu concordei que uma das belezas da tragédia da menina Capuleto e do jovem Montéquio é mesmo a falta de um sistema de correios que funcione, um email aberto na hora certa, um whatsapp lido em tempo real. Eu já superei o trauma que vivi quando soube que a história toda que Shakespeare conta teve origem nos versos de Arthur Brooke, numa poesia feita quarenta anos antes de o Bardo nascer. Cheguei a ter pesadelos por um tempo imaginando que Shakespeare não passava de uma farsa, um plágio descarado.

Mas, vá lá, sabe-se bem que todo o material dele foi trazido de outros, mais antigos, mais clássicos no seu tempo. Afinal, a história da humanidade se repete porque não aprendemos nunca, distraídos com as nossas incapacidades, vaidades e tormentos. Penso na trivialidade do tema. Ora, dois jovens se apaixonam pelas ruas de pedrinhas de Verona, Londres e Guarani que eu sei! E o quão inútil é refletir, lamentar-se em frente à tumba daquela moça tão jovem que morreu em Verona. Ela é, de fato, uma louca dentro de nós que deixou um legado, uma responsabilidade. É uma das peças de Shakespeare com mais falas femininas, e é essa moça cheia de iniciativa que desafia os planos de um casamento forçado, a autoridade do nome. É essa moça que decide dar o corpo para quem acha merecer. (Ela é jovem, não façamos julgamentos!) É Julieta uma ideia a ser honrada porque vive ainda em nós. Até hoje. Pra um certo sempre.

A Tempestade – por Bruna Othero

Escrita em 1611, sendo a última peça de Shakespeare, A Tempestade foi contemporânea ao reinado de Jaime I (Jaime IV na Escócia).

É uma das peças mais políticas de Shakespeare, na qual presenciamos seis usurpações, com personagens que são, ao mesmo tempo, usurpadores e usurpados. Ao utilizar-se de elementos fantásticos (espíritos do ar, monstros etc), A Tempestade não se aliena, pelo contrário: essas alegorias alimentam uma grande metáfora sobre o poder e seus efeitos no ser humano.