Mishima, Thoreau e esta droga toda do capitalismo

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Yukio Mishima

Na manhã do dia de seu suicídio, o escritor Yukio Mishima escreveu: “A vida humana é finita, mas eu gostaria de viver para sempre”. Horas depois, Mishima invadiu o quartel general das Forças de Autodefesa japonesas em Tóquio, rendendo o comandante do órgão, com ajuda do Tatenokai (Sociedade da Armadura). Num discurso inflamado, buscou persuadir os soldados de que o poder político deveria ser devolvido ao imperador. Suas palavras, porém, não quebraram as quase quatro décadas de colonização ocidental, com todos os males dum capitalismo selvagem, a que o povo japonês se submetia. Sem resultados, ou reação alguma dos soldados, Yukio Mishima cometeu o sepukku, forma de suicídio que significa, literalmente, “cortar a barriga” ou “cortar o estômago”, tradicionalmente, muito cultivada entre os samurais como forma de manter sua honra. Melhor tirar a vida com as próprias mãos do que morrer desonrado. Desta forma, Mishima se matou, em 25 de novembro de 1970.

O norte-americano Henry David Thoreau decidiu se “defrontar apenas com os fatos essenciais da existência, em vez de descobrir, à hora da morte, que não tinha vivido”. Então em 1845, aos 27 anos, abandonou o convívio social e foi morar em meio à floresta, construindo uma casinha à beira do lago Walden, além de cultivar seu próprio alimento, embora nunca tinha tido, até então, experiência alguma com agricultura. Esta passagem está narrada em seu livro autobiográfico Walden, também conhecido como Walden ou A Vida nos Bosques.

A partir de agora se faz uma relação não-ficção/ficção/vida real – se é que existe alguma diferença entre estas três perspectivas.

Em Walden, Thoreau deixou registrado, logo na primeira parte do livro:

Na verdade, quem trabalha não tem tempo livre para uma autêntica integridade do dia a dia; não se pode permitir manter as relações mais viris com os homens; seu trabalho seria depreciado no mercado. Não tem tempo de ser nada além de uma máquina. Como lembrará sua ignorância – o que é indispensável para crescer – quem precisa usar seu conhecimento com tanta frequência? (Pg. 20)

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Lago Walden atualmente

Já Mishima, entre sua vasta produção ficcional – que mais parece um grito de socorro contra a ocidentalização do Japão –, escreveu um conto que se chama  Três milhões de ienes, publicado em 1966 no livro Morte em pleno verão. Nesta história, o leitor se depara com um casal logo ao começo do conto, no qual a pergunta: “Vamos nos encontrar com ela às nove?”, do marido, Kenzo, prenuncia que este será o final, o ponto para onde a história se dirige. O casal resolve matar um tempo, passeando por uma loja e chegando à seção de brinquedos. A mulher, Kiyoko, envergonha-se da postura do marido, que sempre indaga os vendedores sobre o funcionamentos dos brinquedos, o que revela seu desejo de ser pai. Diante do anseio de Kenzo em ter um filho, a mulher lhe diz: “Mais dois anos, só isso”, pois eles precisam esperar até que “o Plano A, ou B, ou C tivesse saldo suficiente para comprar à vista uma máquina de lavar, uma geladeira ou uma televisão”.

No entanto, um um “incidente” acontece. Kenzo aciona um brinquedo que salta, impulsionado por uma mola, e cai bem em cima dos biscoitos de um milhão de ienes. “Os biscoitos retangulares tinham o formato de notas de dinheiro e, como nas notas verdadeiras, traziam escrito ‘Um Milhão de Ienes’”. Kenzo compra o pacote, com três unidades. Ainda está longe das nove horas, por isso têm tempo. O marido convida Kiyoko a irem a um parque de diversão, mas ela resiste: “É desperdício de dinheiro. Tudo parece tão barato, mas está organizado de modo que a gente acaba gastando mais dinheiro do que pretendia gastar”. Acabam indo. Vão em dois brinquedos. Kiyoko diz a Kenzo que o “biscoito havia lhe subido à cabeça”, para gastarem tanto dinheiro. Depois, eles descem à lanchonete, onde uma mulher espera pelo casal. Ela informa a eles que irão a Nakano. Farão um serviço, cujo preço já está combinado. Diz que as freguesas são senhoras ricas. Que talvez façam eles darem voltas por ruas escuras e entrarem pela porta dos fundos, para que não vejam os nomes nos portões e saibam quem são as mulheres.

No conto, há um corte temporal que pula o momento do serviço. Kenzo e Kiyoko estão de volta a Asakusa, exaustos. Trocam algumas palavras, comentando sobre as mulheres serem nojentas, “Brincando com o dinheiro que arrancam dos maridos”. Mas pagam bem. Nunca receberam tanto. Mesmo assim, Kenzo exclama: “Tenho vontade de rasgar esse dinheiro, era isso que eu queria. Ia ser uma beleza!”. Kiyoko mete a mão dentro da bolsa e pede ao marido que quebre o biscoito. Ele tenta, mas não consegue quebrá-lo.

Yukio Mishima
Yukio Mishima

Ao leitor atento, informado do contexto da produção do conto e do momento em que vivemos, salta aos olhos o texto de Mishima. Talvez nos levando a outro trecho de Thoreau em Walden:

Não só a maioria dos luxos e muitos dos ditos confortos da vida não são indispensáveis, como são francos obstáculos à elevação da humanidade. Quanto a luxos e confortos, os mais sábios levaram uma vida mais simples e frugal do que os pobres. (Pg. 27)

Embora Mishima não explique qual foi o serviço realizado pelo casal, até por não haver necessidade, é evidente uma espécie de prostituição. Não importa o quê, mas o casal fez algo que não gostaria de ter feito em troca de dinheiro. E quando o escritor pinta esta cena de horror, torna-se evidente o que o capitalismo, ou melhor, esta droga toda do capitalismo, faz com as pessoas.

Será mesmo que precisamos consumir tanto? Procurar realizar sonhos que nunca serão realizados, pois a conquista de um objetivo apenas levará ao desejo de outro objetivo? Não seria esta uma pior forma de suicídio? Ou uma pior forma de solidão, não numa cabana à beira de um lago, mas em meio a uma multidão?

É para se pensar.

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Rebele-se também:

MISHIMA, Yukio. Morte em pleno verão; tradução Aulyde Soares Rodrigues. – Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

THOREAU, Henry David. Walden; tradução Denise Bottmann. – Porto Alegre, RS: L&PM, 2012.

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