A sabedoria dos mitos gregos ou viver para depois?

mitos gregos

Aos quase 40 anos, você já deve ter idade suficiente para saber fazer bem alguma coisa. Profissionalmente, digo. Já passou da fase de planilhar, já adquiriu aquela cancha para conseguir conduzir seu trabalho com uma certa autonomia. Ter um chefe-tutor já deixou de fazer sentido.

Mas, a não ser que você seja um prodígio musical, esportista ou modelo, ainda é novo para ser uma sumidade em qualquer assunto. E ainda tem energia para chegar lá. E tempo. Essa década que vem pela frente parece crucial. Se não a aproveitar, vai ser possível recuperar o tempo perdido? Melhor manter o pé no acelerador. Será que chego aos 50 com essa motivação? Aos 60? Espero que sim. Mas não sei. Se motivação fosse, não me perguntaria. Arrisco?

Enquanto não decido, sigo me empenhando. Na dúvida do que fazer com o meu tempo, o aplico. Assim, poupo o que ganhar para no futuro ver o que fazer. Trabalho muito para um dia ter tempo. Pé no acelerador para um dia poder brecar. Talvez vivenciar o apogeu desse sentimento de “não fazer para agora” seja precisar contrabalançá-lo com a esperança de deixar um possível legado. Não sei bem o que quero para mim. Então dedico uma vida ao trabalho para que o futuro seja um lugar melhor. Nobre?

 

O que os mitos gregos nos ensinam

Quase divino. Mas o que aprendi com A sabedoria dos mitos gregos, de Luc Ferry, é que boa parte das antigas histórias helênicas tem como mensagem essencial justamente a lembrança de que somos humanos, e não deuses. E o mortal que tentar diferente cometerá hybris. Um “pecado” que vai além do orgulho condenado pelo cristianismo: inclui ainda um atentado ao equilíbrio cósmico, no qual vida e morte se alternam, evitando o tédio contínuo do eterno ou o caos total do efêmero.

Midas quis um poder que aos seus olhos o deixaria infinitamente rico. Mas a capacidade que adquiriu gerou um problema muito além de sua prosaica impossibilidade de se alimentar ou se relacionar. Potencialmente, o rei poderia acabar com a vida, quanto mais tivesse tempo para transformar no inanimado ouro o que antes respirava. Analogamente, quem tenta ser eterno como um deus quer acabar com a morte – e novamente com o equilíbrio cósmico. Deve então ser castigado exemplarmente, para que ninguém se esqueça da importância de se manter em seu devido lugar. Depois de morrer, Sísifo sequestrou Tanatos, a morte, enganou Hades para voltar a viver e virou arquétipo da vida eternamente sem sentido.

 

As complicações dos mitos gregos

É claro, só se idealizam punições às atitudes que seriam tentadoras na ausência de repreensão. Querer realizar e obter reconhecimento é humano. Mas buscar a imortalidade pelo trabalho seria divino? Depende. Se a vida humana for sacrificada por isso, sim. Seria desumano. Abrir mão de encontrar o seu lugar, em que se vive, nas palavras do próprio Ferry, momentos espessos, em nome de uma herança futura? A penalidade nem precisa dos deuses, do além ou da metafísica. Vem durante a vida: a ansiedade, aquele desconforto que cresce proporcionalmente à distância que se toma de si próprio.

Mas o que dizer dos heróis tão presentes na mitologia grega? Não são eles mortais que adquirem a eternidade ao se tornarem um mito? Sim. No entanto, o herói não viveu para ser imortal; é imortal porque viveu. É o caso de Ulisses: como enfatiza Ferry, o heroísmo decorreu não tanto da performance na guerra de Tróia, mas principalmente da resistência às tentações que o impediriam de voltar a sua Ítaca natal. Tentações que incluíram a vida eterna, pura e simples: é o que lhe ofereceria Calipso caso o herói tivesse aceitado com ela viver. Ulisses virou imortal por ter resistido à tentação de virar imortal, voltar ao seu lugar e se reuniu com os seus. É o oposto de tentar conquistar a imortalidade por não saber bem o que fazer com essa vida de agora. De viver para depois.

E por que mesmo querer ser imortal?

Denis Blum Autor

Exilado do mercado financeiro, vendo o que mais a vida tem a oferecer. Aos 40 anos de idade, refletindo sobre todas aquelas questões que nunca havia tido tempo para pensar. Quero escrever a minha história!