A condição da mulher nas narrativas clariceanas

Apontamentos sobre a representação da mulher nas narrativas inquietantes da escritora Clarice Lispector

Ucraniana, de origem judia, Clarice Lispector foi consagrada em terras brasileiras como uma das mais importantes escritoras da literatura nacional. Esteve presente ao lado de uma dupla de literatas, eles; João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e João Guimarães Rosa (1908-1967), representando a terceira geração modernista. Também conhecida como geração de 45, os autores desta época buscavam uma nova estética para a literatura, trazendo novidades na escrita, como fez Guimarães Rosa e na forma, a exemplo de João Cabral de Melo Neto.

Ao mesmo tempo em que o regionalismo literário do Doutor Rosa conquistava espaço na literatura, e a preocupação de João Cabral em construir a partir do exercício literário obras de formas rígidas e organizadas racionalmente, utilizando como matéria-prima as palavras. Clarice Lispector explorava via linguagem temas essencialmente humanos, rompia com o pacto da mediocridade da vida, revelando e questionando as diversas dimensões do cotidiano.

 

Epifania e condição da mulher nas narrativas clariceanas 

Com a publicação do conto “Uma galinha”, no livro Laços de família em 1960, a escritora presenteou suas leitoras dando voz a uma condição feminina até então, silenciada e reprimida pela imposição de uma sociedade extremamente machista. Narrado em terceira pessoa o conto retrata a rotina normal de uma família no almoço de domingo, mas, no decorrer da narrativa os acontecimentos ocorrem à medida que, a imprevisibilidade toma conta dos personagens e faz com que surja um fato inusitado no final.

Ao longo da leitura o leitor é capaz de identificar os personagens: a galinha e a família. E de relacionar a figura da personagem principal, com a situação da mulher no século passado. Como se pode ler no trecho:

Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio

Nessa passagem convém entendimento contextualizado de que os sentimentos da galinha, assim como, as emoções das mulheres não eram considerados algo importante. Logo, percebe-se que a condição da mulher representada na escrita feminina de Clarice Lispector, além de privilegiar a existência do cotidiano e a profundidade do infinitivo, faz o leitor refletir sobre as tensões familiares e comparar a existência chacoalhada dos personagens.

A galinha com a figura da mulher. A imagem do pai vestido de calção de banho com o instinto masculino do homem caçador. A mãe a uma cozinheira cansada das atividades do dia a dia do lar. E os sentimentos de espanto e compaixão da filha com o afeto natural de uma criança pelos animais.

Já a conduta masculina permite entender as atitudes do personagem como a representação de uma realidade onde o sujeito-homem ocupa uma posição ideológica de ser machista e opressor. Responsável por manter a ordem e a divisão das tarefas familiares. Nessa posição, o pai, enquanto chefe de família durante a perseguição a galinha é surpreendido quando “a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço”.

O espanto da família corresponde ao fato de que jamais a mulher iria se revoltar contra o sistema porque no século passado ser mulher era aceitar a opressão machista do grupo dominante masculino. Segundo Beauvoir: “Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado, que qualificam de feminino”.

Assim como a galinha, a mulher, na luta pela liberdade de expressão e direitos sempre esteve sozinha, ninguém nunca a ajudará. Nesse sentido, a escritora coloca o papel da mulher em pauta na busca de uma identidade própria.

Para Affonso Romano de Sant’Anna, em sua obra Análise estrutural dos romances brasileiros, a literatura de Clarice é marcada por momentos de Epifania. Esse vocábulo do ponto de vista religioso significa aparição ou a manifestação de algo divino. No sentido literário, a epifania é a crise de certezas na profunda realização de algo.  A epifania aparece na história quando ao por um ovo a galinha passa a ser vista como a mulher mãe.

Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:

— Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!
— Eu também! jurou a menina com ardor. A mãe, cansada, deu de ombros

Como se pode notar a maternidade tanto na ficção, quanto na realidade faz com que a maioria das mulheres aceite seu sexo. Além disso, colabora para que boa parte torne-se ainda mais submissa e devota do lar.

 

Construção da identidade da mulher na pós-modernidade 

Antes, na sociedade antiga não existia espaço para os valores das mulheres, bem como, na sociedade contemporânea em alguns lugares do mundo como, Afeganistão, Nepal, Paquistão e Somália, as mulheres ainda vivem silenciadas, são violentadas sexualmente e obrigadas a se casarem. Por outro lado, em países a exemplo do Brasil, França e Argentina, o sexo feminino conquistou direitos civis, políticos e sociais.

As conquistas ainda são poucas se comparadas aos privilégios sociais que o homem tem no mercado corporativo, na família, nas esferas religiosas e em outras instancias sociais. Mas, esses pequenos avanços já são o suficiente para assumirem outras atitudes e outras posturas que constitui personalidade livre, determinada e questionadora. Entretanto, a vivência da mulher construída dentro de um universo puramente masculino ainda é marcada pela existência de um contexto patriarcal incomodado pela independência e conquistas alcançadas.

Na literatura, por exemplo, as mulheres brancas representam apenas 29% das protagonistas. As mulheres negras são menos de 3% desse número. Na mídia o corpo feminino negro quando não está configurando símbolo de objeto sexual, está coberto por uniforme doméstico. Dessa maneira, retratando a condição imposta à mulher de construtora do espaço familiar. Assim, os meios de difusão da informação atuam como agentes fragmentadores do identitário da mulher.

Em contrapartida, as transformações ocorridas ao longo do tempo na sexualidade, no trabalho e nas práticas sociais, constroem um sujeito feminino na pós-modernidade a partir da ruptura com o comportamento tradicional, considerando fatores afetivos, de cognição e comunicativos na formação de uma identidade pessoal e social de gênero.

 

Investigação do eu, do ser e do mundo 

As marcas textuais de uma escrita sensível abre espaço na mente do leitor para um mergulho profundo na psique. Além disso, cria uma aproximação com personagens como, G.H, protagonista de uma narrativa profunda de inquietação existencial, cujo nome já citado acompanha o nome da obra  A paixão segundo GH (1964). Tomando como exemplo outra obra da autora, em  A maçã no escuro (1961), as vivências interiores de Martin, Vitória e Ermelinda procuram encontrar através de um fluxo de consciência sentidos para suas ações.

Nessa concepção Abdala afirma: as personagens de Clarice Lispector são construídas através de traços que caracterizam atitudes filosóficas- existenciais (1986). Deste modo conclui-se que há na gênese dos seus contos e romances tal exacerbação do momento interior que, a certa altura do itinerário, a própria subjetividade em entra em crise. (BOSI, 1994)

 

Considerações finais

Digna de uma marginalidade autoral, a escrita de Clarice Lispector corresponde não apenas a uma literatura pensante e inquieta, mas também, a expressões de si própria, que desde 45 até os dias atuais refletem valores universais, válidos para todas as pessoas de qualquer época e lugar.

 

Obras consultadas

ABDALA JUNIOR, B.; CAMPEDELLI, S. Y. Tempos da Literatura Brasileira. São Paulo: Ática, 1986.

BEAUVOIR, S.O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

BOSI, A. História concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994.

CRUZ, Ma. Loucas e sedutoras – um convite à leitura de Clarice Lispector. Revista do Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural. A produção de autoria feminina, v. 2, n. 1, jan./jun., 2012.

LISPECTOR, C. A legião estrangeira. São Paulo: Siciliano, 1992.

LISPECTOR, C. Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

SANT’ANNA, A. R. Análise estrutural de romances brasileiros. Petrópolis: Editoras Vozes, 1973.

 

José Domingos Author

Acadêmico do curso de Letras-Português e Francês da UFS, è bolsista do PIBID (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Cientifica). No universo corporativo atuou em vendas e em relações administrativas. Hoje, prefere ver o mundo através das páginas. À frente do projeto Cine Qua Non, desenvolve trabalhos voluntários nas áreas de literatura , artes e comunicação .É corretor de redação do portal Imaginie e também colunista no Portal Sucesso Jovem