As mulheres de Jane Austen – um guia para o amadurecimento

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Jane Austen era uma mulher que, no finalzinho do século 19, começou a escrever histórias “de amor”. É claro que depois de observar que os casais mal se tocam em suas histórias, fica claro que o foco não é o amor, mas sim a mulher. No Dia Internacional da Mulher, então, vale relembrar a saga e o aprendizado de cada uma das heroínas (até por que não é só de Lizzy Bennet que se faz a obra da autora).

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Elinor e Marianne Dashwood – Razão e Sensibilidade

Elinor e Marianne Dashwood na adaptação cinematográfica de “Razão e Sensibilidade”

A primeira com 19 e a segunda com 17 anos, a mãe e uma irmã ainda mais nova se encontram no pior cenário possível: destituídas de casa e fortuna, sem contatos ou conexões. Trata-se de uma espiral negativa: sem contatos, ficariam ainda mais afastadas, sem possibilidade de se casarem e melhorarem sua situação. Como que conformadas com isso, elas acabam optando por se manterem autênticas: não mudam suas personalidades nem se esforçam ou se desesperam. Como Austen privilegia aqueles que não cedem aos interesses sociais, elas acabam se casando com excelentes partidos: Marianne, após sofrer um bocado com sua paixão desmesurada por Willoughby, fica com o querido Coronel Brandon e Elinor, depois de sofrer em silêncio e afogar seus sentimentos, consegue ser feliz ao lado do igualmente humilde e reservado Edward Ferrars.

Lizzy Bennet – Orgulho e Preconceito

Lizzy Bennet na adaptação cinematográfica de “Orgulho e Preconceito”

Lizzy é uma heroína que amadurece a partir de um processo interno: depois de ser incrivelmente injusta com Darcy, por ter tido seu orgulho ferido, ela reconhece seu erro e parte para um processo de reconhecimento. A grandeza de Lizzy vem do fato de que não é o ambiente que determina sua mudança, mas ela própria, a partir da própria racionalidade. Mesmo com uma mãe insuportável e um pai omisso, que lhe ensinaram pouco, Lizzy é um vislumbre do que a mulher poderia ser: alguém que pensa por si, capaz de assumir os equívocos e honrar as próprias decisões.

Fanny Price – Mansfield Park

Fanny Price na adaptação cinematográfica de “Mansfield Park”

Fanny já foi descrita como a mais sem sal das heroínas de Austen. Particularmente, eu penso a mesma coisa, ela é de fato morna, sem reação e sofre muito com a baixa estima, é muito diferente das outras heroínas de Jane e, por isso, o livro carece de brilho e cor, ficando mais pesado e cinzento. Dito isso, ela é a prova de que resistir às tentações que uma sociedade de aparências impõe é um trunfo admirável para a autora. Quando os charmosos irmãos Crawford chegam a Mansfield Park, todos se deixam seduzir pelos ardis de ambos. Menos Fanny. E é essa firmeza de caráter que se mostra valiosa quando tudo vem à tona. Assim, ela, que fora morar com os tios, pois a mãe não podia sustentá-la casa-se com o amado primo, por quem era apaixonada desde criança.

Emma Woodhouse – Emma

Emma Woodhouse na adaptação cinematográfica “Emma”

Mimada, manipuladora e egoísta. Paradoxalmente, cheia de boas intenções. Emma é a personagem que toda jovem gostaria de ser: linda, popular, rica e amada por todos. No entanto, o aprendizado de Emma é exatamente o fato de que não adianta ser amada se não devolver esse carinho e esta compaixão. Emma, para amadurecer, precisa abrir mão de sua superioridade. Além disso, o grande amor dela é um de meus favoritos, como já disse em outro post aqui no Homo Literatus. O Sr. Knightley tem papel crucial na mudança pela qual Emma passa, sendo o único a apontar pra ela que “ser superior” não é o suficiente.

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Catherine Morland – A abadia de Northanger

A adorável e desajeitada Catherine precisa superar o fato de que não nasceu para ser heroína e, assim, suas aventuras são uma paródia de tudo que uma mulher deveria ser ou sentir. Quando chega a Bath, em sua primeira viagem, acredita na inocência de todos e é com o “mentor” e interasse romântico Henry Tilney que ela aprende formas de não se enganada e ludibriada, sem se tornar uma interesseira volúvel como Isabella Thorpe.

Anne Elliot – Persuasão

Para mim, é a personagem que mais amadurece e de forma muito dolorosa. Depois de ser persuadida a desistir de Wentworth na juventude, ela vê o jovem pobre enriquecer e sua família perder quase tudo. E pior: nota que não consegue esquecer o amor que sente pelo agora Capitão. Após dolorosos reencontros e novas propostas, Anne transforma a própria dor em uma firmeza de caráter que impede que ela seja manipulada por Lady Russel ou qualquer outra pessoa, ainda que bem-intencionada.

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E aí, com qual heroína de Jane Austen você se identifica mais?