Murakami: “você vai ser um dos homens sem mulheres”

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Em Homens sem mulheres, Haruki Murakami apresenta sete contos que mesclam elementos oníricos e profundidade sentimental dos personagens

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Confesso que, apesar de fã do escritor japonês Haruki Murakami, o último conto dele publicado aqui no Brasil me deixou com um pé atrás. Sono (Alfaguara, 2015) é um livro que vale mais pelas ilustrações do que pelo texto ficcional em si. Parece que Murakami estava cansado, repetindo enredos, se é que aquela história tem algum, ou que não se mostrava tão bom em textos mais curtos, como nos longos.

Li tudo que foi publicado dele em português, mas demorei um pouco a pegar Homens sem mulheres, temendo que o volume de contos reafirmasse a impressão que tive de Murakami na forma curta.

Para minha surpresa, me enganei.

Homens sem mulheres (Alfaguara, 2015)
Homens sem mulheres (Alfaguara, 2015)

Homens sem mulheres apresenta sete contos que mesclam elementos oníricos e profundidade sentimental dos personagens. Em Drive my car, temos um ator de teatro que contrata uma mulher como motorista, pessoas que vivem em universos tão diferentes. O choque comedido produz o efeito catártico que se espera de um conto de Murakami. Yesterday é mais uma história de juventude, no estilo de Norwegian Wood, em que um rapaz tem um amigo excêntrico cujo relacionamento com a namorada-estilo-perfeito está em ruínas. Este amigo, Kitaru, pede ao narrador que saia com sua namorada, embora sejam pessoas tão distintas. O conto seguinte, Órgão independente, é um relato em primeira pessoa de um personagem que conheceu Tokai, um médico-cirurgião com quem bebia no bar. Tokai tinha cinquenta e dois anos e só se relacionava com mulheres por sexo casual, nunca em um relacionamento sério. Até que, bem, você deve imaginar o que acaba acontecendo. Na sequência, temos Sherazade, uma história que faz referência às Mil e uma noites, evidentemente, mas trazendo um enredo clássico e jogando-o em um cotidiano banal, uma narrativa de tons fantasiosos.

Melhor conto do livro e também o mais longo, Kino tem uma pegada que lembra os melhores livros de Murakami – Kafka à beira-mar, Caçando Carneiros e a trilogia 1Q84. Kino encontra sua mulher dormindo com seu melhor amigo e, a partir deste evento, resolve abandonar seu emprego e abrir um bar. No entanto, os estranhos clientes com quem trava amizade o lançarão em apuros, fazendo com que acabe solitário transgredindo as regras em uma viagem que deveria apenas fugir, esconder-se.

Gregor Samsa, penúltimo conto do livro, oferece ao leitor uma subversão da clássica história kafkaniana, apresentando um personagem que acorda metamorfoseado em… Gregor Samsa, claro, o humano, e a narração dá conta do estranho que é para ele se ver desta forma. Mesmo assim, até a metade do conto, quando aparece uma personagem corcunda, a história não progride muito.

Homens sem mulheres, o conto que dá título ao livro, inicia-se com uma ligação de madrugada, onde o protagonista ouve um homem dizendo do outro lado da linha que a mulher dele se suicidou, e que achava que devia avisá-lo. A mulher em questão foi amante do narrador. A partir deste ponto, relata a história de como a conheceu, trazendo o lirismo sobre a vida típico do Murakami.

Um dia, de repente, você vai ser um dos homens sem mulheres. Esse dia chegará subitamente, sem nenhum aviso prévio nem sinal, sem premonição nem pressentimento, sem uma tosse que seja ou uma batida na porta. Ao virar a esquina, você vai descobrir que já está ali. Mas não poderá voltar atrás. Uma vez que virar a esquina, será o único mundo para você. Nesse mundo você estará entre os ‘homens sem mulheres’. Em um plural infinitamente indiferente. (pg. 231).

***

Há uma sensação de solidão que permeia todas as histórias. São homens sem mulheres, mas a metáfora também funciona de forma inversa. Envolvidos pela tempestade de informações diárias, parece que cada vez mais nos tornamos máquinas, cada vez mais somos peças na grande engrenagem do mundo, girando sem um objetivo. Perceber isso é mergulhar num buraco escuro – efeito de desorientação semelhante aos filmes Medianeras (2011) e Her (2013).

Homens sem mulheres é um livro que parece condensar o melhor do “estilo Murakami de narrar”, também uma ótima pedida para quem quer se iniciar no universo do escritor japonês. Uma seleta de contos harmônica como o gosto que o autor tem por música clássica. E uma ótima indicação de leitura, se você não tem medo de se confrontar com seus sentimentos.