‘My Beautiful Broken Brain’ e o papel da linguagem na construção do indivíduo

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My Beautiful Broken Brain, documentário da Netflix, destaca a importância geral das palavras nas relações sociais dos indivíduos

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“Mesmo a forma mais simples de consciência merece ser vista, ouvida, contemplada e percebida” (David Lynch)

A Netflix estreou no dia 18 de março o documentário My Beautiful Broken Brain que, de forma surpreendente, mergulha na mente humana e em suas possíveis variações. O filme pode ser visto por outros parâmetros, mas a ideia central com que quero trabalhar diz respeito ao papel da linguagem na construção do indivíduo, como se dá sua participação no cerne de nossas relações sociais e a importância geral das palavras.

Produzido por David Lynch (criador de Twin Peaks), Sophie Robinson e Lotje Sodderland, o documentário nos remete à nova condição de Lotje ao sofrer um derrame hemorrágico, aos 34 anos. Acompanhamos suas mudanças cognitivas e consequentemente, as mudanças que definiam sua personalidade. A nova Lotje parecia ter perdido sua individualidade, até que, sua nova condição, transforme-a em alguém ainda mais especial. O filme consegue apresentar a beleza de um cérebro “quebrado/partido” e como este continua sendo misterioso e extremamente complexo. Mesmo em situações em que se encontra frágil e fragmentado, a consciência parece agir, de maneiras cada vez mais distintas e pouco exploradas.

Lotje Sodderland, personagem central, conduz a filmagem pela sua nova visão de mundo, suas novas perspectivas de cores e sons; suas mudanças internas. Usando cores distorcidas e o tipo de filmagem (que une gravações feitas pela própria Lotje) o documentário transmite de forma mais intensa suas modificações e anseios; temos, portanto, uma percepção diferente da situação. Em nenhum momento somos levados ao ideal de sofrimento/pena; torcemos pela sua recuperação ao mesmo tempo em que mergulhamos nas peculiaridades de sua nova condição. Apesar do acontecido, Lotje consegue nos transmitir rastros da energia que anteriormente contagiava seus familiares e amigos. O cérebro após o derrame é completamente novo e Sodderland precisa conhecê-lo para portanto, conhecê-la.

Não é preciso demonstrar o quanto estamos mais comunicativos, as redes sociais podem provar. Essa comunicação nos é tão familiar que não nos damos conta do que seria nosso próprio sentido de existência se perdêssemos, de rompante, nossas capacidades comunicativas da linguagem. Ao sofrer o derrame, Lotje precisou ‘começar a (re)aprender’ todo o processo de comunicação da língua(visual, escrito e até, falado). É possível perceber como isso afetou seu relacionamento direto com outras pessoas; caracterizando uma mudança brusca em sua personalidade, já que alguns de seus traços principais eram os de ser comunicativa, independente e inteligente.

A leitura era algo rotineiro na vida da protagonista, que lia verdadeiros calhamaços. Ela também gostava de escrever, mas tudo foi perdido devido aos danos causados em seu cérebro. Em algumas partes do filme percebemos com mais precisão sua vontade de recuperar estas habilidades; além das reflexões propostas pela própria Lotje, é inevitável não nos questionarmos sobre nossa fragilidade. Mudanças bruscas transformam o indivíduo; Lotje mudou tanto de vida que tornou-se “outra pessoa”. Como resultado, o filme explora a importância da afetividade e o significado de ser humano. É possível delimitar uma barreira já que esta pode ser tão frágil e vulnerável?

Para transmitir parte de nossas mentes agitadas para o mundo exterior o cérebro utiliza diversas funcionalidades presentes em estruturas que o compõem. A construção linguística implica sinapses e estruturas neuronais que permanecem em constante trabalho. Desse modo, entendemos melhor a importância das palavras tanto na forma falada como na escrita. Torna-se perceptível, de fato, a complexidade envolvida na leitura deste texto. Mas, o processo de produção da linguagem estrutura um significado maior: o que antes era era considerado essencialmente biológico, passa a ter um papel social. Nesse ponto, torna-se transparente a distância desenvolvida pelos seres humanos de sua matriz inicial básica através da criação de símbolos comunicativos. A nossa configuração social é, sem dúvidas, um enigmático produtor de indivíduos que participa e altera questões sócio-econômicas, históricas e culturais.Baseamos, então, nossa existência em ações e capacidades cognitivas; somos o que fazemos. (?) Retomamos novamente a questão: o que é ser humano? É possível delimitar uma barreira?

Todas as mentes são vastas e complexas; com pedacinhos que escondem grandes observações do mundo. Deixo, portanto, um convite: explore a mente humana em todas as suas formas. Visto que, nem todos os pensamentos podem ser ouvidos.

Assista o trailer!