Nabokov, o caçador de borboletas

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A vida de Nabokov está intimamente ligada à sua paixão pelos lepidópteros: nascido na cidade de São Petersburgo, desde pequeno já mostrava interesse pela vida dessas criaturas encantadoras, participando de expedições de caça a borboletas e descrevendo minuciosamente as espécies que conseguia capturar.

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“Minhas aversões são simples: estupidez, opressão, crime, crueldade, música suave. Meus prazeres são os mais intensos que o homem conhece: a escrita e a caça à borboleta.”

É fato que a escrita literária exige paciência e minuciosidade, revisões quase infinitas e eventuais reformulações. A vida científica não está longe disso (ou devo dizer que o fazer literário não está longe do fazer científico?), já que seu modus operandi requer também as qualidades acima citadas. É comum escritores flertarem com a ciência e cientistas com a literatura, o que muitas vezes dá resultados interessantíssimos (Isaac Asimov e mais recentemente Marcelo Gleiser são bons exemplos disso), invertendo as lógicas internas de funcionamento das duas áreas e criando por vezes uma zona intermediária.

Durante muito tempo Vladimir Nabokov desenvolveu uma teoria envolvendo a evolução de um tipo de borboletas conhecido por Polyommatus azuis. Publicada em 1945, essa teoria foi desacreditada na época, mas retomada seriamente na década de 90 e comprovada cientificamente em 2011. Segundo o autor dos clássicos Lolita e Fogo Pálido, a vinda delas aconteceu há milhões de anos em uma série de cinco vagas migratórias saindo da Ásia e passando pelo Estreito de Bering até chegar ao Chile.

A vida de Nabokov está intimamente ligada à sua paixão pelos lepidópteros: nascido na cidade de São Petersburgo, desde pequeno já mostrava interesse pela vida dessas criaturas encantadoras, participando de expedições de caça a borboletas e descrevendo minuciosamente as espécies que conseguia capturar. Em 1941, parte para os Estados Unidos, exilado devido à ascensão do nazismo e lá, além de ganhar notoriedade como escritor, aprofunda-se no universo das borboletas e dedica-se à pesquisa sobre a evolução das já citadas Polyommatus azuis. Ainda na década de 40 tornou-se curador de lepidópteros no Museu de Zoologia Comparada de Harvard, sem atingir grande prestígio como cientista.

No entanto, esse lado de pesquisador ficou resguardado até que o sucesso de Lolita fizesse com que os jornalistas se interessassem pela vida íntima do autor, o que inevitavelmente levou à descoberta do seu lado especialista em borboletas. Os lepidopterologistas da época deviam ver naquele homem um intruso, alguém que sabia muito bem descrever cientificamente as características das espécies, mas que não conseguiria contribuir seriamente com a área. Um engano gigantesco, como mostra a comprovação da sua agora famosa teoria.

Amor incondicional

sachoook_jpg_1306948385No livro Strong Opinions, uma coletânea de entrevistas e ensaios, Nabokov deixa claro quais eram suas expectativas em termos de realização profissional e pessoal:

Francamente, eu nunca pensei em letras como uma carreira. Escrever sempre foi para mim uma mistura de desânimo e alto astral, uma tortura e um passatempo – mas eu nunca esperava que fosse uma fonte de renda. Por outro lado, muitas vezes tenho sonhado com uma carreira longa e emocionante como um curador obscuro de lepidópteros em um grande museu.

Houvesse na época os meios e o empenho suficientes para provar que o famoso escritor estava certo sobre a evolução desse grupo, o destino da literatura ocidental poderia ter sido diferente. Não digo isso como diz: “ufa, ainda bem que não aconteceu”. Comento tendo em mente como esse fictício acontecimento soaria na vida de um homem dedicado e apaixonado pelo que fazia, em como isso poderia fazer o seu íntimo sonho tornar-se realidade.

Seria como ter um amor correspondido? Não ouso afirmar que sim ou que não. Amor, para mim, só mesmo a paixão romântica medieval, com todo aquele sofrimento, tragédia e vidas destruídas impiedosamente por uma força cega. O resto é brincadeira de criança.

Eu poderia tentar tecer as mais diversas ligações de sua obra literária com as etapas da vida das borboletas, dizendo que tal livro está mais para uma crisálida, enquanto outro é, sem sombra de dúvida, uma lagarta e por aí vai. Mas seria apenas pretensão e no momento não me apetece. Ou talvez seja por preguiça mesmo, por que não?

De qualquer jeito, a beleza da relação de Vladimir Nabokov com esses insetos (ou eu deveria novamente usar o termo lepidópteros, para não desapontar a bancada poética que sempre espera um final de artigo cheio de açúcar e luz?) está na incondicional dedicação que ele lhes deu, exercitando não apenas os seus olhos e a sua mente, mas também o seu espírito.