Nabokov, o criador de Lolita, foi pedófilo?

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Trinta e seis anos depois de sua morte, as controvérsias sobre o legado de Nabokov vieram, novamente, à tona.

Seu museu, em St. Petersburgo, foi atacado, no início do ano, por um grupo de conservadores. Escreveram a palavra “pedophile” (pedófilo) em uma das paredes da antiga casa do autor, que abriga o acervo, além de atirarem uma garrafa pela janela. Também foram agredidos e difamados alguns dos envolvidos na produção da peça baseada no romance homônimo do autor russo, Lolita (1955).

Hoje, o livro, é considerado um clássico indiscutível, mas foi, certamente, o mais escandaloso do século 20. Por diversos motivos e, especialmente, por abordar o interesse de um homem já adulto por uma menina de 12 anos, Nabokov teve sua obra recusada por várias editoras, até que conseguisse, enfim, ser publicado pela Olympia Press, que já havia publicado James Joyce e Henry Miller, mas que vinha investindo em pequenos romances fetichistas e pornográficos.

Inicialmente, tinha a intenção de publicar sua obra sob o pseudônimo de Vivian Darkbloom, mas acabou sendo lançada em seu próprio nome. Lolita virou uma espécie de sucesso-escândalo, aclamado por uns como um dos melhores livros daquele ano,  e como um dos livros mais perversos e pervertidos já escritos. Foi censurado em muitos países, até alcançar os Estados Unidos, onde nunca foi proibido e pôde demarcar seu lugar como referência na literatura mundial.

O livro narra a vida de Humbert Humbert. A peça-chave é sua definição de “ninfeta” (termo que surge, pela primeira vez, na obra), quando adolescente. Fundamental para alcançar o epicentro de seus desejos sexuais, em que se estabelece a maior parte, e polêmica, da narrativa: o encanto – ou seria anseio? –, de um H.H. adulto por Lolita, uma menina de 12 anos.

imagesNabokov se firmou como escritor através dessa obra. Considerada, pela crítica, a mais relevante de sua carreira e pela qual é lembrado até hoje. Posicionada entre a estética e a ética, o uso da linguagem como instrumento de construção e reconstrução semântica marcou a literatura, mas o que realmente ficou da obra desde que foi lançada foram as questões sobre a origem do enredo: em que momento ele concebeu Lolita? Teria sido ela reflexo de uma paixão?

Do obscurantismo de Nabokov pouco se alcança. Casado com uma mulher por toda sua vida, nada em sua história parece apontar para além da ficção – e reflexão? É certo que o autor e H.H. compartilham algumas características, ambos professores, escritores. Mas isso parece pouco perto da grandiosidade deixada por ele. A pergunta que deve ser feita é: qual a real questão tratada pelo romance? Seria uma tentativa de, através de uma abordagem extrema, a “pedofilia”, levar os leitores a uma reflexão sobre a natureza e legitimidade dos sentimentos humanos?

Desde o princípio da história da literatura, as grandes histórias de amor foram histórias de transgressões. No século 20, quando quase passa a ser permitido, os únicos tabus são o incesto e a pedofilia. Em Lolita, Nabokov consegue escrever um dos mais importantes romances de amor usando esses dois tabus.

Lila Azam Zanganeh, autora de “O Encantador”, uma mistura entre ensaio, biografia e ficção em torno de Vladimir Nabokov.