Narrando quebra-cabeças

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0-LGIYW110B73sGtE0(Grand Canal, por Menna Barreto)

As primeiras páginas do Alice no País dos Espelhos apresentam um exercício de xadrez onde se deve salvar Alice (um peão branco) em 11 movimentos. A divisão em 12 capítulos do livro propõe uma relação entre eles e a solução do desafio da introdução. Conseguimos imaginar que o quebra-cabeças inspirou Carroll e supor que dele veio a estrutura do livro, e, generalizando, podemos supor que a partir da resposta para um problema lógico possa-se construir uma narrativa.

É possível contar uma história para a solução de um problema da lógica? De que forma o jogo se relaciona com a obra? Para responder a essas perguntas, sonhemos. Sonhemos então um autor que se senta para escrever um conto ou romance que resolve um problema clássico (teria surgido como Nº 18 na compilação Propositiones ad Acuendo Juvenes, do século IX): o enigma da raposa, do ganso e do saco de feijão. De acordo com Edward Wakeling, da Lewis Carroll Society, este puzzle foi um dos favoritos de Carroll, que era matemático. De que maneira sua conhecida resposta pode produzir uma narrativa?

Sobre a repetição

Deixemos que nosso autor comece então sua escrita. Ele mostrará a direção, se houver. Sente que algo velho e verdadeiro empurra sua caneta para frente.

Mas logo ele bate numa parede.

Quebra-cabeças são cansativos de narrar, não? Podem ser interessantes, mas suas soluções têm passos sempre repetitivos. Talvez sejam empecilhos para as histórias, o autor cogita, e não sua fórmula. O que acrescentam? Vamos ao gabarito para o problema da raposa, do ganso e dos feijões, por exemplo:

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1) Primeiro atravessamos o rio com o ganso;
2) Então voltamos;
3) Então atravessamos o rio com a raposa (ou o feijão;)
4) Então voltamos com o ganso;
5) Então atravessamos o rio novamente com quem ficou para trás no passo 3;
6) Voltamos mais uma vez; e
7) Levamos o ganso pela última vez.

São sete viagens.

Nosso autor pode precisar abreviar algumas delas, é verdade, caso queira prosseguir. Mas pensando um pouco mais, conclui que essa repetição pode se tornar sua aliada. Não perde a fé no método assim tão cedo. Pois lembremos: os comentaristas esportivos passam pela mesma dificuldade. E são treinados em usar os momentos em que nada emocionante ou novo está acontecendo para analisar a partida, conversar entre si, testar opiniões, relembrar o passado, escapar em digressões, fluxos de consciência e flashbacks, como escritores mantendo o leitor do outro lado do livro quando não há nada acontecendo e ainda falta algo para que o enredo possa seguir seu caminho. E não é desses desvios que, muitas vezes, chega a frase inesperada, que a ideia fulminante aparece, que um objeto sem realce ganha vida e todas as outras páginas tornam-se menores, tornam-se apenas o que sobrou a ser dito?

Mais partes boas

Aristóteles nos diz na Poética que a história poderosa é lida como o desenrolar de algo inevitável. Seus acontecimentos seguem um fluxo tão intenso que não seria possível qualquer outro. Para os leitores, tudo apenas aterrissa em seu lugar, cada cena se torna sua própria arma de Tchekhov, mostrando-se através de uma fresta da gaveta da escrivaninha. A cena está ali por uma dúzia de razões: e se chegar a hora em que, eventualmente, for disparada nas mãos do escritor em uma reviravolta estonteante, parecerá certa, e parecerá necessária.

Quando se narra um quebra-cabeça, cada passo da solução é necessário, mesmo que pareça supérfluo. No passo 4 acima, voltar com o ganso pode parecer estranho e arbitrário à primeira leitura. Desejamos levá-los à outra margem: por que estamos voltando com um deles? Se entendermos o motivo, no entanto, fica claro que é a única forma, evidente que não há saída outra. Existe uma força sobre a sequência de eventos que a obriga a ser como é, e também os leitores são puxados por essa atração gravitacional.

Existe outra parte boa deste método amiga da inevitabilidade: a economia, como no princípio da navalha de Occam. “As entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade,” prega a Lex Parcimoniae. “É inútil fazer com mais coisas que o que pode ser feito com menos.” Sim. Escrevi contos no passado, pensa o autor, ajustando a lâmpada da mesa, povoei de personagens supérfluos, encontros e diálogos que pareciam fora de lugar, sem sentido, não sabiam exatamente o motivo de estarem ali. Pareciam desconfortáveis. Talvez aplicando contra esses contos um mapa lógico, um atlas político que governe seu enredo, essas personagens e cenas encontrem-se fora das fronteiras da história, extraditadas por definição.

Sobre emoções

O autor em que estamos pensando pensa muito e escreve pouco, tem esse defeito. Deixemos que se levante da sua cadeira para pegar uma xícara de café. Longe, ele não ouve nossa breve digressão e não se distrai mais uma vez.

Usemos esse intervalo para esclarecer (pois para alguns de nós talvez ainda não esteja claro) que esses quebra-cabeças não se restringem a ações do reino da matéria. Poderíamos com alguma facilidade substituir gansos e sacos de grãos por emoções, o que nos proíbe? Sentimentos que um personagem não pode conciliar, que devem ser carregados por um momento da vida, muito pesados para serem levados todos na mesma travessia, sentimentos que se rasgam uns aos outros em pedaços se deixados sem supervisão do mesmo lado do rio…

E então ele volta. Vamos ver se consegue voltar ao trabalho, agora, em vez de rabiscar cada pensamento malcriados que lhe aparece.

Sobre os gêneros

E se sem muitas considerações nosso autor usa as peças do quebra-cabeça em sua forma original (dois animais e um saco de feijão), talvez escreva o que pertença ao grupo dos contos de fadas ou fábulas (pelo menos uma sátira nesses gêneros?) E se assim foi suficiente para Carroll, pode não ser para o nosso autor imaginário, perturbado à sua mesa, sonhando com toda a potencialidade de sua literatura. Quer estabelecer um método, mas os bons métodos são abrangentes.

Posso eu mudar esses personagens? O autor se pergunta. Sabe-se que as diferentes culturas vestem as peças do tabuleiro de acordo com o seu folclore: se perguntado ao país certo, o saco de feijão se transforma em uma alface, o ganso pode se tornar um bode. Então, talvez o autor possa trocar, sim, os personagens, talvez os símbolos originais não guardem identidade suficiente. Talvez possam ser alterados sem cuidado (embora o rio e o barco sejam elementos fortes o suficiente para estar em todas as versões.) Sim. Os sonhos de nosso autor enchem-se daí. Um argumento chega mais rápido do que qualquer outro: uma ideia para um romance. Anota rápido em uma folha solta da escrivaninha, como se, do contrário, esquecesse em segundos:

Romance de espionagem.
Protagonista, depois de ter capturado três agentes inimigos (que, entre si, têm a mesma inimizade triangular das raposas e dos gansos e dos feijões) precisa levá-los, em turnos, através da fronteira proibida de seu país.
Palco: Guerra Fria?

Fica orgulhoso. Outros gêneros chegam depois, lutando por sua atenção. O que é verdadeiramente impossível de se fazer?

Sobre paradoxos

Problemas lógicos, já que tocamos no assunto, podem ser paradoxais: indecidíveis quanto a sua resposta. Em que resultaria tentar criar uma história cuja estrutura espelha-se no paradoxo de Russell? Ou no paradoxo do corvo de Hempel?

(O autor levanta a mão e nos lembra de que, em Catch-22, Joseph Heller fez uso pesado de estruturas paradoxais para a construção da trama e seus diálogos. Sim, autor, é verdade.)

O famoso paradoxo de Russell, filósofo e matemático britânico, por exemplo. Oferece-nos a pergunta:

O conjunto dos conjuntos que contém todos os conjuntos que não contêm a si mesmo está contido em si mesmo?

Não é à toa que esta definição trava-línguas é ilustrada àqueles não familiarizados com a matemática da Teoria dos Conjuntos com uma narrativa. Vamos ao cenário criado a partir desse enunciado:

Em certa aldeia onde existe apenas um barbeiro, todo homem deve manter-se de barba feita. Eles só podem fazê-lo de uma de duas formas (não ambas): ou fazem a própria barba, ou vão ao barbeiro da cidade.

Levanta-se a seguinte questão: quem faz a barba do barbeiro da aldeia? O autor coloca as mãos no queixo, está áspero e desleixado. Se o barbeiro faz a própria barba, ele ao mesmo tempo se barbeia e vai ao barbeiro, e isso é contra a lei. Por outro lado, se o barbeiro não faz a própria barba, então ele deve ir ao barbeiro da vila (de acordo com as leis), que é ele próprio, onde fará a própria barba e acabará por também infringir a lei, pois está indo ao barbeiro e se barbeando. Essas regras dão um nó em nossa cabeça. O objetivo de Russell era esse, questionar quais regras podemos estabelecer sem que causemos curtos-circuitos na língua. E a vida é carregada dessas contradições; até onde enxergamos, é feita delas.

Para concluir com um exemplo, pensemos em um último romance. Trata-se de uma mulher. Lemos que as paixões dessa personagem principal respeitam um padrão curioso: ela só consegue amar aqueles que não amam a si mesmos (talvez seja atraída pela vulnerabilidade daqueles sem amor próprio?) Nosso livro, então, vamos imaginar, em certo capítulo pergunta à personagem: ama a ti mesma? Se pensarmos a respeito, como no paradoxo do barbeiro de Russell, não há resposta correta. E essa é uma conclusão de altura: que uma contradição fria possa dizer no coração nossa incapacidade de responder a essas perguntas essenciais sobre a natureza do homem.

0-LWYUoPR6EZGLaJD2The Barber’s Paradox (Logicomix)