Negritude, racismo e violências em Marrom e Amarelo

Em Marrom e Amarelo, Paulo Scott trata do racismo e da questão identitária do negro no Brasil.

Marrom e amarelo', na cor da pele - Época
Paulo Scott, Foto Divulgação

Gradação de cores

Num tempo em que o debate sobre as questões raciais chega ao centro da
cena pública e direitos arduamente conquistados são alvos de ameaça,
Marrom e Amarelo (2019), de Paulo Scott, condensa, de maneira
significativa, questões que permeiam a subjetividade de militantes, estudiosos, e
sujeitos (negros ou não).

Ficam expostos problemas de um país que prefere ignorar seu passado e ainda pouco reflete sobre suas instituições. Tratando de política, polícia, identidade e família, o livro nos faz pensar sobre o é que ser negro no Brasil de hoje.

O narrador, Federico, tem pele clara e cabelo liso. Filho e irmão de homens com a pele retinta e criado por uma mãe que sempre afirmava que ele faz parte de uma família negra, Federico ocupa o pouco discutido não-lugar, que é compartilhado por uma boa parcela da população brasileira.

Claro demais para ser negro e escuro demais para ser branco: um dilema que machuca. Nesses casos, a famosa indagação existencial de “Quem sou eu?” é potencializada.

Negro é tornar-se

Como já pontuou Neusa Sousa Santos (1990), negro, para além de ser, é
tornar-se. Retinto que sou, estranhei quando conheci pessoas da pele muito mais
clara que a minha em espaços dos movimentos negros.

Minhas referências de negritude, até certa altura da vida, eram todas muito parecidas comigo. Após árduos processos de reflexão e conversas com amigos, entendi que, independente da quantidade de melanina que carrego, o pertencimento à negritude independe de opinião.

Não há régua que meça a raça.

Caminhar para essa direção pode levar a um perigoso lugar – lombrosiano – nas palavras de Scott. Como afirmou Eduardo Galeano (1989) “A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas as sempre assombrosas sínteses das contradições humanas.”.

Um país cujo presente ainda não se livrou do passado

De volta à história de Marrom e Amarelo, em Brasília, Federico compõe uma comissão instituída pelo governo cujo intuito é pensar meios de aprimorar as políticas de cotas raciais.

Militante que sou, lembrei de uma série de personagens-tipo apresentados por Federico. Sujeitos que ocupam esses espaços de decisão e vêm cheios de achismos, boa
vontade e muito racismo para discutir sobre um tema tão caro.

A comissão federal fictícia é real e eu a vi em conselhos da universidade em que estudo, universidade que apenas em 2019 aprovou cotas raciais, após luta intensa dos movimentos negros.

Fato é que a branquitude muito quer nos estudar e pouco se estuda.

Na comissão de Brasília, presente no livro, estava em discussão um mecanismo de “aferição de raça” que não daria margens de erro, uma vez que seria mais preciso que a autodeclararão. A essa altura pensei que estivesse lendo uma distopia. Se bem que o Brasil atual não está muito longe disso.

Intercalado com outro tempo, Federico nos conta também casos mal resolvidos
de sua infância e adolescência em Porto Alegre, lugar para o qual retorna devido a
uma situação que envolve seu irmão e sua sobrinha – jovem, universitária, e, como o
tio, luta por um mundo mais equânime.

Ficam explícitos para o leitor os revezes que uma militância mal dosada pode causar. A injustiça adoece, e a luta também o pode fazer. O romance nos leva às ruas da capital gaúcha, além de bares, restaurantes e cafés, no Sul e em Brasília. Um passeio bem guiado.

Sufoco na linguagem

Com narrativa objetiva e construída em grandes blocos de texto, ao estilo de
Saramago, as falas das personagens de Marrom e Amarelo não são marcadas por travessão. Senti um sufoco na linguagem, o que reflete, em grande medida, os sentimentos evocados pelo narrador.

“Deve ter sido difícil pra ti colocar eu e o Lourenço na mesma gaveta, eu falo. Somos
uma família, Federico, Estamos os quatro dentro da mesma gaveta, diz. Mas se tu não tivesse tido um filho escuro e um filho desbotado e, no lugar, tivesse tido dois filhos
desbotados ou dois filhos escuros, tu nunca ia ficar batendo nessa tecla de que a
gente é uma família negra, provoco. Pode ser mais explícito, mocinho, ela diz. É esse
negócio de ser negro, mãe, É que às vezes, as pessoas estranham isso d’eu me
afirmar como negro, isso d’eu marcar que sou negro, explico. Mas tu é negro, um
negro pardo, ela observa, Qual é o drama, pergunta. O que eu tô querendo dizer é que
mesmo que eu fale pras pessoas que eu sou negro, isso é pouco”

Conclusão

Além da questão política e de identidade, Federico nos apresenta Bárbara,
namorada do passado, e trocas de texto e encontros com Andiara, colega da
comissão de Brasília. Outra questão que o angustia são os desafetos do passado. Mal
resolvidos, tal qual a história do Brasil, são seus fantasmas que retornam ao presente.

Paulo Scott - Marrom e Amarelo

A arte de capa do livro é uma belíssima pintura de Sidney Amaral, importante
artista visual brasileiro, e foi primorosamente editado pela Alfaguara. Marrom e
Amarelo foi finalista do prêmio Jabuti, na categoria romance artístico e discute, de
modo muito competente, questões ainda caras à sociedade brasileira. Como leitor,
cheguei ao final da história querendo saber mais. Se pudesse pedir algo a Paulo Scott,
seria, sem dúvidas, uma continuação do romance.

Referência

SCOTT, Paulo. Marrom e Amarelo. São Paulo: Alfaguara, 2019.

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