Neil Gaiman: sobre contar histórias e outras estranhezas

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“Eu era uma bagunça gloriosa aos 26. Mas eu era uma bagunça gloriosa que tinha alguns grandes sonhos combinados e nenhum plano B”

Neil Gaiman / Taylor Miller

O multifacetado Neil Gaiman, autor de Oceano no Fim do Caminho, Deuses Americanos e muito mais, concedeu uma entrevista ao Buzzfeed na qual ele fala sobre o começo e o legado de Sandman – sua cria mais famosa-, sobre contar histórias e visitar demais culturas. Adaptamos a entrevista, confira:

Você escreveu Sandman quando tinha o que, 28, 29?
Neil Gaiman: Comecei quando tinha 26. Quando a primeira edição saiu, eu tinha completado 28. Foi muito estranho. Eu estava sendo entrevistado nesta manhã na NPR, e ele [o locutor] me perguntou sobre temas e escolhas que eu teria feito todos esses anos atrás, e tive de o responder que não sei. Eu não lembro. A coisa mais estranha para mim é como Sandman: Overture parece parte de tudo. Vai no Sandman 1 Prelúdios e Noturnos e você ode continuar lendo. Não há tanto a sensação de terem sido escritos por duas pessoas diferentes.

Você se sente como duas pessoas diferentes?
Sim. Mas meu eu interior ainda é o mesmo. E minha versão de 26 anos vindo com Sandman parece alguém no corredor. Eu poderia pisar lá fora e na cabeça dele. Mas definitivamente – aqui estamos nós, 29 anos depois, e definitivamente sou outra pessoa. Muitas coisas válidas aconteceram nesses 29 anos.

Eu [entrevistadora do BuzzFeed] tenho 25 e sei que é isso uma pequena bagunça. Também sou um pouco bagunçada. Você era um pouco bagunçado aos 26, quando começou?

Eu era uma bagunça gloriosa aos 26. Mas eu era uma bagunça gloriosa que tinha alguns grandes sonhos combinados e nenhum plano B. O que eu queria era escrever. Olhei ao meu redor e pisquei e eu estava com 26, com duas crianças pequenas, ganhando alguma coisa como jornalista freelance. Eu cheguei em um ponto aonde o que eu fazia era quase OK, mas eu não queria ser um jornalista. Eu queria fazer coisas. Eu queria principalmente fazer quadrinhos. Eu olharia os romances, e os livros na estante, e pensava “Há 3000 anos que valem [essa coleção] e tem alguns realmente bons”. E então eu olharia os quadrinhos e tinham alguns que eram apenas mato. Pensei que poderia levar minha machete e ir a lugares que ninguém foi antes, porque só faziam 100 que isso acontecia e haviam coisas que ninguém havia feito, então eu podia fazer.

 

Olhando para Sandman agora, há muito atrevimento. É uma combinação estranha de atrevimento e desespero, “ok o que posso fazer?”. Naquele tempo, minha cabeça não estava no lugar certo para escrever quadrinhos de superheróis que dessem certo. Eu sabia disso. E saberia mesmo se fosse uma criancinha lendo quadrinhos de superheróis. Parecia para mim apenas que a equação fundamental de um quadrinho com superheróis era que se você pode acertar o outro cara com força o bastante ele continuava caído, você venceu. E eu os lia [os quadrinhos] e pensava ‘não acredito nisso’. Não acreditava que acertar alguém realmente era solução para tudo. Que as pessoas que me batiam na escola, generalizando, não estava certas. Apenas me machucava. E fazia delas idiotas.

 

Então essa teoria dos superheróis foi traduzida. Uma cena de luta não parecia ser algo que eu um dia quisesse escrever. A questão era, o que eu quero escrever? Que histórias eu quero contar? Eu quero lidar com mitos, e história, e fantasia e horror, e alta fantasia. Eu quero fazer tudo. E eu posso fazer tudo aqui nessa estranha revista mensal. Não é autobiográfico exceto por um retrato de tudo dentro da minha cabeça. Como é, é incrivelmente acurado.

Você esperava que se tornasse tão grande?

Não. O que eu tinha de expectativa não era necessariamente o que eu esperava. Naquele tempo deixariam [da editora] a revista [de quadrinhos] durar um ano. Então eu esperava que na edição 8, me dissessem “ok olhando os últimos cinco meses de venda, é hora de cancelar, de amarrar, vamos deixar você ir até a edição 12 e cancelar”. Por isso eu planejei uma história em oito edições.E pensei que faria quatro histórias paralelas, e então fechávamos, e um ano depois eu voltaria com um Sandman especial ou algo do tipo.

É importante ter em mente que a maior diferença entre os quadrinhos pré-Sandman e pós-Sandman era que sucesso de crítica era fracasso comercial. O sucesso de crítica tendia a significar que era um livro que não vendia. Eu achava que Sandman seria um sucesso menor de crítica e um completo fracasso comercial. E eu estava bem com isso! Mas não queria dizer que eu não ia sonhar esse sonho gigante impossível, não apenas um sonho que a história continuasse, mas o sonho de criar uma história que começou, teve meio, e acabou, e quando acabasse a DC Comics iria parar o projeto. E aquilo era impossível. Nada como aquilo tinha acontecido antes – a ideia de que uma série em progresso que fosse comercialmente bem sucedida acabaria ou tivesse um fim. E então eu planejava tudo isso que eu sabia que não ia acontecer, mas eu tinha de planejar como se fosse. Eu tinha que construir tudo nas primeiras oito edições como se elas se pagassem, talvez algumas, seis anos depois. Eu fazia isso sabendo que provavelmente ganharia um ano, mas eu tinha de tentar. Se não tentasse, não tinha porquê.

 

A mitologia tem um papel bem forte em quase toda sua escrita, principalmente Sandman. Se cada época constrói sua própria mitologia, você acha que a nossa seria diferente por que seria mais acessível?

 

Acho que tudo está mudando graças as mídias sociais. Mas também estou vendo elas mudarem. Estou fascinado agora vendo o Twitter começar a morrer. Sinto como se estivéssemos nos últimos dias do Twitter; não parece tão forte como se estivesse vivo e crescendo e do jeito que era. Por um lado, já estou meio que sentindo falta mesmo estando lá, e por outro ele já se foi umas três vezes além do que imaginei. Achei que viriam algumas coisas para o suplantar, e não vieram. Achei que viriam coisas para suplantar o Facebook, e não vieram. Em termos da internet, o Facebook é um dinossauro. Mas nada é tão bom como o Facebook ser o Facebook, então ele continua nadando.

 

Você acha que há alguma permanência nele? Existe a possibilidade de que o que escrevemos no Twiter e no Facebook e Tumblr possam ser documentos históricos em algum ponto. Essa forma de acessibilidade é melhor para contar histórias?

Não acredito mais na permanência de qualquer coisa na net. Já fui mordido muitas vezes. Nesses dias fico chocado com quantas vezes vou procurar por algo que era grande e importante na Web, e vou olhar e simplesmente encontrar a evidência de que aquilo já existiu e ainda não alucinei com isso.

 

Isso me lembra das narrações orais. Você acha que a internet é uma nova versão da narrativa oral?

Acho que sim. O que a internet nos dá de fascinante é essa longa cauda, e gosto de pensar nela como uma grande vila, uma vila do seu jeito. Acho que é a força de coisas feito Tumblr e a fraqueza dele.
Você está em uma vila de pessoas que pensam o mesmo que você, dizem as mesmas coisas, gostam das mesmas coisas. De um lado isso é maravilhoso, porque quando eu era criança, encontrar quem gostasse do que eu gostava e pensava como eu pensava e lia o que eu lia e poderiam ter me recomendado algo que eu pudesse ter amado era como entrar em um tubo mágico de sonhos. Se tivesse cada um de nós em cada cidade, não importaria se existissem centenas de milhares de cidade no mundo, nós nunca encontraríamos uns aos outros. E o fato de que agora você pode encontrar cada um é maravilhoso.

Por outro lado, também significa que essas pessoas estão apenas falando e ouvindo umas as outras. Vejo isso acontecer e não acho bom. Para mim, o que é sempre importante para escritores é a alegria de encontrar outros pontos de vista e ver coisas por outros olhos. Para ter não apenas o direito, mas o poder de olhar algo e dizer “isso que você está fazendo e dizendo é maravilhoso”, ou “isso que você está fazendo e dizendo está errado”, ou “isso que você está fazendo e dizendo é algo de seu tempo e você provavelmente não pensaria ou diria isso hoje”. O melhor dessa experiência é a sensação de “você não sou eu, e estou vendo e minha visão de mundo está mudando”. Em que mundo triste viveríamos, se as únicas pessoas cujas ficções eu pudesse ler, cujas poesias eu pudesse experimentar, cujas músicas eu pudesse cantar, fossem pessoas que pensassem e imaginassem exatamente como eu. Quero diversidade de pontos de vista em todas as formas, e isso incluí o interior de outras cabeças. É maravilhoso. Outras culturas, outros lugares. Temos que ir lá. Temos que experimentar isso.