Nelson Rodrigues e o extremismo que nos é herança ou “Aqui quem te fala é uma morta.”

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Nas suas dezessete obras teatrais, o cronista e tricolor obcecado pelo futebol, Nelson Rodrigues, reforça sua “emergencialidade” e abusa de sua matéria prima: o brasileiro.

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Nelson Rodrigues

Cresci ouvindo o diabo sobre o tuberculoso e, como muitos, tive um ódio herdado sobre ler ou não ler o tal tarado. Tive que iniciar minha vida teatral para descobrir que o ”pernambucano-carioca” faz é poesia. Do começo ao fim, poesia.

O problema é que, na verdade, o brasileiro nunca esteve preparado para se ler. Para identificar o vizinho ou o tio numa cena de sala onde o desejo é velado e há beleza até em suor de gorda. Essa emergência latina nas suas linhas nos é presente. É e sempre será. Amem ou o odeiem, Nelson é o Shakespeare brasileiro.

Ao iniciar sua carreira teatral com A mulher sem pecado, espetáculo que nascera para ser uma comédia e para tirar a família recém-formada do limbo, Nelson jamais imaginaria que seria porta-voz da obscuridade de uma classe média em ritmo de ditadura. E muito menos que iniciaria o Teatro moderno no Brasil, com a estreia de Vestido de Noiva, dirigida por  Ziembinski em 1943. Nelson, nesta peça, rasga em suas linhas a moral e os bons costumes de uma sociedade a conta-gotas.

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Nelson Rodrigues e Rivelino (jogador do Fluminense e da Seleção Brasileira) – Foto: Agência O Globo

“Mas Nelson já é clichê! Está batido! É muito démodé!” Digo: E é aí que vocês se enganam! A genialidade da obra é transcender seu período. É ser contemporânea em seus detalhes. Datada, meus caros, é  a nossa experiência.

Não é fácil pra qualquer um transportar Vestido de noiva para um bairro da Mooca ou até mesmo pegar Álbum de Família e levar a fundo com Casa-Grande & Senzala. Refiro-me  a uma montagem que estreou em São Paulo, onde a Cia uniu os dois pernambucanos, Nelson Rodrigues e Gilberto Freyre, em uma pesquisa de anos que resultou numa montagem que nomeio o melhor Nelson Rodrigues que assisti na vida. Sem tango. Sem sangue. Sem aquela putaria gratuita que a televisão transformou para render em horário nobre. Aquilo era Brasil! O sincretismo que nos é de herança, em todos os pontos e vírgulas. Transportar um texto “tipicamente carioca” para um canavial e uma casa com Sinhá jamais tinha me ocorrido. Nunca levantaria aquela possibilidade. E era Nelson. Com Gilberto Freyre de mãos dadas, mas Nelson.

Discutia-se muito mais que democracia racial, braço direito das discussões do Freyre. Havia ali o incesto, a traição e acima de tudo o amor. Um amor perturbadoramente louco, mas amor. Só o brasileiro é capaz de amar até a morte! Somos emergenciais!

Nas obras de Nelson,  a mulher carrega a trama e todo o bom desfecho da discórdia; ele escreve sobre os convites para a morte e sobre o amor, acima de tudo o amor. Irmãs, amantes, pai e filha. Todos, sem exceção alguma, morreriam por amor. E nós também. Podemos dizer que não agora durante essa leitura, mas nós também.

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Nelson Rodrigues em Copacabana (1979)

Dono de diálogos saborosos e frases épicas como “O mineiro só é solidário no câncer’’, Nelson Rodrigues nos tira da zona de conforto a cada nova leitura, a cada nova montagem. Recentemente, na comemoração do seu centenário de vida, São Paulo pulsava montagens e remontagens do tarado. Circuito de leituras, filmes, fóruns e debates sobre diversos aspectos da obra. Da dramatúrgica até as crônicas esportivas. E vale destacar que há certo “respeito mal-educado” quando se cita as vertentes do anjo pornográfico.

Em relação a Nelson Rodrigues é oito ou oitenta. Ama-se.  Odeia-se. Não há meio termo. Exatamente como suas obras. Exatamente como suas personagens, que em cima do muro não existem. Estão sempre aos picos extremos: se é é pra morrer de amor, que morra; se é pra trair, que traia; se for pra ser morta aos beijos em Copacabana, que seja. Claramente, o brasileiro é extremista como suas obras, como suas personagens são com a vida.

Nelson, por mais que carregasse suas ideias com muita morte e sexo, era um reacionário de carteirinha. Filha mulher tinha que dormir às 22h e ter aula em casa. Se o filho dissesse palavrão na mesa: era safanão na cara. Todos ali, embaixo das regras dos Rodrigues. Coisa que começou a mudar após ter o filho caçula do primeiro casamento preso e torturado na ditadura. Ditadura esta que, por várias, vezes fechou seu teatro em dia de estreia. Que vetou reestreia. Que fez senhoras e carolas jogarem tomates e vaias na estreia de Perdoa-me por me traíres, onde Nelson estava em cena como Raul, o tio incestuoso. Nelson berrava na boca de cena: Burros! Burros!

Mesmo sendo amigo de soldados e coronéis, Nelson sempre dançou nas mãos dos grandes para tornar-se maldito. Precisou o filho ser quase morto para que ele tomasse outros tipos de posturas sociais. Uma vida cheia de tragédias e uma simbologia quase de cinema formou o imaginário desse pequeno gênio que, hoje, atinge o nosso.

Quando ouço que Nelson não choca mais e que não dá mais samba, eu penso: Ele é tão simples. Tão óbvio. E aí é está a sua genialidade. Rasga-nos e nos põe espelhos diante da face. Das tias gordas fofoqueiras ao sincretismo do subúrbio. Nelson é brasileiro ao extremo e sua obra é resposta do nosso dia a dia. Seja hoje ou em 1950. Por fim,  em terra onde padre abraça coroinha e mulher picota marido na mala, eu pergunto: Nelson Rodrigues é que era louco?