Neruda: a voz calada que não pode, nem nunca irá, se calar

neruda

Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, ou melhor, Pablo Neruda, faleceu em Santiago, Chile, no dia 23 de setembro de 1973. Exatos doze dias após o suposto suicídio do presidente do país, Salvador Allende, e do golpe militar que colocou Augusto Pinochet no poder. O ato de cometer suicídio é acompanhado do adjetivo “suposto”, justamente, para igualar o mistério, que já precede os dois termos, aos questionamentos que permanecem latentes há 40 anos.

Allende e Neruda eram grandes amigos. E para o poeta, foram questionáveis os relatos que afirmaram que o político havia sido encontrado já morto pelos soldados do comando golpista, em plena tomada de posse do governo. As indagações a respeito constam nas memórias do poeta, encerradas logo em seguida, e que foram publicadas um ano após sua morte, sob o título Coisas que vivi.

Não podiam perder uma ocasião tão boa. Era preciso metralhá-lo porque jamais renunciaria a seu cargo. Aquele cadáver que foi para a sepultura acompanhado por uma única mulher, que levava em si mesma toda a dor do mundo, aquela gloriosa figura morta ia crivada e despedaçada pelas balas das metralhadoras dos soldados do Chile, que outra vez tinham atraiçoado o Chile.

funeral_NerudaFuneral de Pablo Neruda em 1973 (Créditos: Marcelo Montecino)

Neruda foi muito além de poeta, devoto do amor, e ganhador do prêmio Nobel, foi figura fundamental em um dos momentos mais turbulentos da história política chilena. Engajado militante comunista, chegou a ser embaixador da França, e participou da organização da viagem de navio que transportaria para o Chile cerca de 2 mil refugiados da Guerra Civil Espanhola. Seu interesse político, aliás, passou a ser personagem fundamental em sua produção poética a partir de 1950, quando foi publicado o livro Canto Geral.

Quando eu escrevia versos de amor, que me brotavam
de todos os lados, e me morria de tristeza,
errante, abandonado, roendo o alfabeto,
me diziam: “Como és grande, oh, Teócrito!”
Eu não sou Teócrito: tomei a vida,
me pus diante dela, dei-lhe beijos até vencê-la,
e logo me fui pelas minas
para ver como viviam outros homens.
E quando saí com as mãos manchadas de imundícies e dores,
eu as levantei a mostrá-las nas cordas de ouro,
e disse: “Eu não compartilho do crime”

A morte de Neruda, como a de Allende, se firmou para muitos como um consequência da repressão – e do suposto silenciamento fatal – dos governos ditatoriais.

Para o ex-motorista e amigo de Neruda, Manuel Araya, sua morte não teria se dado pelo agravamento de um câncer de próstata, como divulgado na época. O poeta teria ligado para ele, horas antes do falecimento, para comunicá-lo de uma injeção recebida no estômago. E que se trataria de uma substância letal, injetada sob o comando das forças de Pinochet, que teriam recém tomado conhecimento da intenção do poeta de organizar uma resistência à ditadura a partir de um exílio no México.

Pablo Neruda no hospital com Manuel ArayaPablo Neruda no hospital com Manuel Araya

Com essa e outras declarações, uma ação do Partido Comunista do Chile conseguiu fazer com que o corpo do poeta fosse exumado no dia 8 de abril de 2013. Os resultados saíram sete meses depois, confirmando o estabelecido na época: câncer de próstata. Mas deixando uma afirmação que apenas restabelece enormes reticências – ou grandes interrogações e lacunas – na história da ditadura no Chile: há substâncias nocivas que desaparecem do corpo com o tempo. Os órfãos da ditadura permanecerão, de alguma forma, silenciados, já que a dita realmente dura e, mais uma vez, vence pela destreza com a qual tomou – e por herança, ainda toma – conta dos que lhe questionam. Infelizmente, o tempo apenas demorou tempo demais para questioná-la…mas Neruda permanecerá como símbolo de resistência e de luta.

É memorável, e ao mesmo tempo dilacerador, ter encarnado para muitos, por um lapso de tempo, a esperança de todo um povo.



Julianna Motter
Graduanda em Filosofia pela Universidade de Brasília e Jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília. É blogueira desde 2007. Participa do coletivo de poetas Ex-estranhos, mas não tem certeza se é mesmo poeta ou se na hora de pegar um desvio, foi parar na linha certa.
Julianna Motter
Graduanda em Filosofia pela Universidade de Brasília e Jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília. É blogueira desde 2007. Participa do coletivo de poetas Ex-estranhos, mas não tem certeza se é mesmo poeta ou se na hora de pegar um desvio, foi parar na linha certa.
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