Nikolai Leskov e a autenticidade da alma russa

Dentre os grandes autores do século XIX, quantas vezes você já ouviu falar o nome do romancista e contista Nikolai Leskov?
Desenho de Nikolai Leskov
Desenho de Nikolai Leskov
Escritor russo menor?

A literatura russa produziu alguns dos nomes mais respeitados no mundo da escrita. É difícil passar por uma vida de leitor sem ter ao menos ouvido falar de um Dostoiévski e seu Crime e Castigo, ou de um Tolstói e sua Anna Karenina, ou ainda de um Tchekov e suas Três Irmãs.

No entanto, existem outros ótimos escritores russos que não angariaram no exterior a mesma larga fama. Um deles, sem dúvida, é Nikolai Leskov. Falaremos um pouco dessa figura e da obra Homens interessantes e outras histórias.

Alma russa

A razão para uma passagem menos reluzente, digamos, pelo céu estrelado da literatura mundial certamente deve-se àquela que, paradoxalmente, é sua maior qualidade: a vasta exploração do que se entende por “alma russa”. Esse conceito, explorado por diversos teóricos e escritores, diz respeito a um sentimento mais ou menos coletivo do povo russo com relação a seus comportamentos, geralmente calcados no sofrimento e na resignação diante das tragédias da vida.

As personagens de alguns dos russos citados no início desse texto alcançam essa alma russa, sem dúvida. No entanto, transbordam tanto no seu raio que logo passam a ser entendidas de maneira muito mais universalizante. O caso de Leskov é um pouco diverso: suas personagens são russas, extremamente russas, nas suas profissões, no seu entendimento das regras sociais, na sua relação com as hierarquias de poder, nas escolhas que fazem diante dos percalços da vida.

A Rússia, em seus contos, aparece com um colorido a mais, seja nas descrições das paisagens, nos usos da língua, no próprio tom geral das narrativas. Elas oscilam entre o cômico inesperado e o drama comovente. Ao mesmo tempo, ironicamente, algumas dessas histórias dialogam muito com a alma brasileira – termo ainda não existente (quem sabe um dia?). Mas que poderia muito bem dizer respeito à forma de lidar com situações de desigualdade, opressão e injustiça que rondam historicamente também o nosso país.

Tipos humanos e populares

O texto de Leskov não costuma ter como protagonistas figuras burguesas, e sim os indivíduos do povo. Esse é seu primeiro trunfo para compreender realmente os sentimentos e angústias reais da população. O próprio Leskov trabalhou com o tio, quando jovem, em uma firma inglesa que desenvolvia projetos de agricultura e assentamentos de propriedade. Assim, entrou em contato direto, ao longo de suas viagens por diferentes cidades do interior, com muitas figuras humildes, que enfrentavam mudanças penosas e iam lhe contando suas histórias de vida.

Há, portanto, grande autenticidade nas suas narrativas, algo que talvez só quem conheça seus conterrâneos tão de perto pode conseguir apreender. É o que se vê, por exemplo, no conto O artista do topete, que traz um ambiente já perdido no tempo, envolvendo uma atriz e o talentoso cabeleireiro de um cruel nobre, dando à história uma certa sensação de fábula. Questões de honra vistas como anacrônicas nos dias de hoje, tanto por parte do cabeleireiro quanto de seu senhor (“Hoje em dia, não se compreende como as regras eram rígidas naquela época”, diz uma personagem), revelam um pouco do que movia as relações num país quase feudal àquele tempo.

A tragédia que acompanha a narrativa é não somente um elemento de clímax, mas também um ponto inevitável diante de situações que envolvem uma moralidade e uma hierarquização social extremamente rígida, ajudando a estabelecer o componente russo da história. Percebe-se que, para os mais pobres, com frequência, os esforços de felicidade e libertação não eram recompensados.

O Sentinela

Essa valorização do ser humano desprovido de posição social pode ser vista também em outras narrativas do livro. É o caso de O Sentinela, o ótimo conto que abre o volume.

Temos o soldado Postnikhov, jovem inexperiente da guarda real, que se depara com uma situação inusitada: vê um homem bêbado que, inadvertidamente, acaba caindo no lago à frente do palácio guardado por ele. Entra então num dilema moral: salvar o homem e, assim, cumprir o seu dever cristão e humano, ou manter o posto e cumprir o seu dever profissional?

O impacto da decisão do soldado em seus superiores é impressionante, evocando em nós o senso de que as instituições russas – e, por que não, em certa medida, as nossas próprias – são formadas por homens, falhos e preocupados com seus próprios interesses e relações sociais.

O soldado é parte ínfima de uma gigante engrenagem, que evita os dilemas morais e exibe a sua própria hipocrisia ao tentar rodar com mais suavidade.

O velho gênio

Talvez o conto mais próximo da realidade brasileira seja o segundo, chamado O velho gênio.

Conta a história de uma senhorinha que, enganada pelo filho de uma suposta “boa família” a emprestar-lhe dinheiro, vê-se às voltas com dificuldades financeiras causadas pelo calote do janota. Ela tenta, de todas as formas, acionar a lei contra o moço – que vive muito melhor do que ela, por sinal – mas este consegue fugir de receber a intimação do processo e, dessa forma, adiar o pagamento da dívida.

Desconsolada, a velhinha recorrerá a um senhor que se compadece dela e promete resolver a situação – e basta dizer que a solução tem muito em comum com o nosso famoso “jeitinho brasileiro”.

O papão

No entanto, essa simpatia pela figura pobre e oprimida tem uma virada interessantíssima no conto O papão, que fecha o livro.

Este conto é considerado um dos “contos de sviátki” do autor, que produziu o impressionante número de vinte e cinco deles. Trata-se de um modelo de contos semelhante ao dos “contos natalinos”, cuja ação geralmente se desenrola na noite de Natal e traz elementos sobrenaturais para a data (os mais conhecidos por aqui são os de Charles Dickens); no caso dos contos de sviátki, porém, a ação pode se desenvolver por volta do Natal e do Ano Novo (o que tem origem nos festejos ao solstício de inverno ainda na era pagã russa) e conter um acontecimento extraordinário não causado por forças sobrenaturais, mas sim por acasos da vida cotidiana, atribuídos por vezes a obséquios de Deus.

É o que acontece em O papão. A história, contada por um narrador-criança, claramente pertencente a uma camada alta da sociedade russa (“eu era filho de pais nobres, e o meu pai, pessoa conhecida por todos da cidade”), acompanha a lenda em torno do papão, um homem considerado monstruoso que vive nos arredores da cidade e que mata os viajantes que se hospedam em sua estalagem.

No entanto, os olhos infantis aos poucos passam a perceber que a realidade pode ser bastante diversa daquilo que alimenta a sua imaginação. O lance climático do conto ocorre na véspera do Natal, e surpreende a todas as personagens por seu caráter inusitado. Basta dizer que estamos diante de um conto pungente sobre preconceito, um preconceito não advindo simplesmente das camadas altas, mas das camadas baixas também como um todo.

Visões políticas

Esse olhar não usual rendeu a Leskov o incômodo da esquerda do período, que passava a adotar na ficção uma proposta quase idealizadora da figura do homem humilde, na sua tentativa de reparar o apagamento sofrido por esta camada até então.

Pessoalmente, as posições políticas de Leskov sofreram transformação ao longo dos anos, sendo também consideradas conservadoras e afrontosas aos revolucionários: o autor não acreditava que a mudança para o sistema socialista seria possível diante da ignorância cultural dos compatriotas, e defendia o aperfeiçoamento individual de cada um, por meio da educação, para uma maior moralização e evolução do país como um todo.

Então, vale a pena ler Leskov?

Independentemente do ponto de vista de cada um a respeito da visão política leskoviana, é importante ressaltar o seu esforço na produção de narrativas que lhe soassem verdadeiras, emocionais, embebidas no seu conhecimento pessoal do povo russo.

Nesse sentido, sem dúvida, Leskov merece destaque, por trabalhar um material bruto de forma rica e interessante, valorizando inclusive as diferentes formas de falar – o que se torna um imenso desafio para a tradução direta do russo, como deixa claro o tradutor Noé Polli em seu posfácio – que vão desde o mujique mais simples ao burocrata mais aristocrático.

Esse esforço de linguagem estende-se também para o narrador das histórias, que frequentemente utiliza termos mais coloquiais, como diminutivos ou provérbios russos, de modo a aproximar o leitor do que está sendo contado, como se houvesse entre nós e esse narrador uma conversa informal, em que tudo isso fosse contado.

Para exemplificar esse tipo de construção, temos a introdução do conto O Sentinela, que traz tal coloquialidade com uma graça particular ao refletir metalinguisticamente sobre o próprio exercício de narrar: “De invenção, no relato entrante, não há nem um tiquinho”.

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Ficou interessado por Leskov?Pois corra mergulhar na “alma russa” por meio das suas narrativas. Só tome cuidado: apesar da distância geográfica e temporal, que talvez dê alguma segurança, espreita o risco de o caro leitor se enxergar nas histórias até demais.

LESKOV, Nikolai. Homens interessantes e outras histórias. Tradução e posfácio de Noé Oliveira Policarpo Polli. São Paulo: Editora 34, 2014.

Carolina Prospero Autor

Professora de Literatura e Redação. Formada em Letras pela Unicamp, fez lá também o seu mestrado, no qual trabalhou com a obra da musa-mor Clarice Lispector. Escreve de vez em quando, muito menos do que gostaria. Adora livros, séries e o seu gato Dante.