No clima de Tóquio: o esporte como inspiração à literatura

Os Jogos Olímpicos de Tóquio 2021 estão acontecendo e nós separamos cinco provas de que esporte e literatura combinam e devem andar de mãos dadas.

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Foto divulgação

A veia rítmica da literatura latino-americana

A literatura latino-americana é muito interessante, parece com seu futebol”, disse-me certa vez um conhecido de fora, em uma conversa sobre livros. Meu amigo gringo, leitor voraz de Gabo e Neruda (dois medalhistas de ouro no Nobel), ainda diria: vocês escrevem com muito ritmo, quase como se fosse uma dança.

Não por acaso, o mesmo se fala dos esportistas brasileiros – a técnica ritmada, os movimentos compassados. Quase como se fosse uma dança.

Hoje pode parecer que a literatura e o esporte ocupam mundos opostos e não misturáveis. À literatura, reserva-se um lugar calmo entre as estantes, geralmente com um ideário eternizante. Ao esporte, o embate do homem primitivo e a glória quase bélica da vitória. Em tempos polarizados como os nossos, não seria esdrúxulo se alguém afirmasse que a literatura pertença a um partido e o esporte a outro.

Entre a mente o corpo

Ao menos desde a Roma antiga já se sabe a importância do cultivo do intelecto aliado à saúde física. Um dos grandes lemas de nosso século remonta desse período. “Mens sana in corpore sano”, escreveu o poeta latino Juvenal ditando em versos as regras para se ter uma vida plena.

A frase venceu o tempo, e hoje a traduzimos como “uma mente sã em um corpo são”. Como queria dizer o poeta, é necessário achar o equilíbrio entre o corpo e o espírito. Em sua visão, os dois são inseparáveis e complementares. A sociedade só viria a redescobrir este conhecimento antigo muito tempo depois, na virada do século XIX para o XX.

Embora não seja evidente, esporte e literatura têm mais em comum do que se imagina. Os dois misturam razão e emoção na medida certa. Grandes escritores, como Nelson Rodrigues ou Gay Talese, tiveram muitos textos saídos das crônicas es­portivas. O uruguaio Eduardo Galeano teria até mesmo escrito “Fechado por motivo de futebol” para atrair leitores vorazes para os estádios e torcedores fanáticos para as bibliotecas.

Não é estranho que a maioria das livrarias não possua estantes inteiras para literatura esportiva – e que grande parte das obras que abordam o assunto se amontoem nas seções de biografias ou livros de autoa­juda.

Apesar disso, separamos cinco provas que esporte e literatura combinam e devem andar de mãos dadas sempre que possível. Parafraseando Galeano, esperamos que este artigo sirva, aos atletas, como porta de entrada para a literatura e como um convite à prática esportiva para os leitores ávidos.

  1. Do que eu falo quando eu falo de corrida – Haruki Murakami

Haruki Murakami é uma unanimidade quando se fala de literatura japonesa contemporânea. O “mais ocidental dos escritores japoneses” tem a caneta afiada como poucos.

Com as Olímpiadas ocor­rendo neste ano de 2021 em Tóquio, a cidade em que o escritor amadureceu e transformou em ce­nário, o topo de nosso podium literário não poderia ser ocupado por outro.

Em “Do que eu falo quando eu falo de corrida” (Alfaguara), o escritor deixa de lado a ficção para revisitar suas memórias no caminho para se tornar um escritor. Encaixando com maestria no enredo, ele também narra seu lado pouco conhecido do público de maratonista dedicado. “Mas afinal”, deve se perguntar o leitor agora, “o que literatura tem a ver com corrida? E do que ele realmente fala quando fala de corrida?”

O taco de beisebol rebateu estridentemente a bola, houve um tilintar. Foi naquele momento, em uma tarde de sol no estádio, que Murakami teve uma epifania: “e se eu escrevesse um livro?”, perguntou-se. A partir desse ponto, o japonês conta sua trajetória na literatura e de como adentrou à corrida, como consequência da primeira.

Correndo a caneta sobre o papel e desgastando os solados num asfalto quente, Murakami vai nos mostrar que os caminhos entre ser um escritor e um atleta têm muito mais pontos em co­muns que aparenta. Desde a função solitária da corrida/escrita à dedicação para terminar o primeiro livro e a primeira maratona de sua vida.

Falando sobre corrida, Murakami traçou a linha de início e chegada da metamorfose de um jovem escritor a um dos maiores nomes da literatura mundial.

  1. Esforços olímpicos – Anelise Chen

Anelise Chen é uma escritora ainda pouco conhecido do público em geral. A taiwanesa (radicada nos EUA) é mestre em ficção pela faculdade de Nova York e integrante do grupo “5 under 35”, prêmio concedido pela Fundação Nacional do Livro a cinco autores estreantes abaixo dos 35 anos.

Recém-publicado pela Editora Todavia, seu romance de estreia, “Esforços Olímpicos”, aterrissou no primeiro semestre deste ano nas livrarias do país. Nesta obra, a autora funde suas memórias com uma ficção simbólica para traçar na pele de Athena Chen os limites do Fracasso e do Triunfo. De um dia para outro, enquanto conduz uma pesquisa sobre a prática esportiva para manter uma bolsa na universidade, Athena é abalada pela notícia do suicídio de seu amigo e ex-namorado.

Completamente afetada pela melancolia e crise existencial, ela compara sua situação aos atletas que “fracassam” em suas performances pelas perturbações internas, escondidas dos torcedores nas tribunas.

Ela própria, uma ex-nadadora, passa a questionar os principais conceitos da sociedade sobre falha, desistência e, sobretudo, sucesso. O que é o sucesso em uma sociedade como a nossa? Carregar uma medalha no peito e a coroa de louros entorno da cabeça? Partindo de questionamentos desse tipo, ela vai adentrar a mente de grandes atletas e suas próprias sensações enquanto esportista.

“Quando eu ia nadar em piscinas públicas, era habitual as pessoas me perguntarem, ‘Você é uma nadadora famosa?’. Tinha gente que pedia para eu treinar os filhos deles.
Hoje mal consigo levantar os braços para passar a camiseta pela cabeça. Músculos doloridos! Engraçado como velhos hábitos voltaram à vida. O modo natural como enrolei uma toalha na cintura, enfiei os óculos de natação e a touca debaixo das alças do maiô, chacoalhei os braços ao redor do corpo. Senti meu corpo novamente. Eu sentia os traços do movimento que estava fazendo. A água se acomodava nas mãos e se liberava.”

Anelise Chen não é uma escritora comum. O caráter experimental de seu livro é tão evidente quanto lírico: as constantes metáforas (ora explícitas, ora camufladas) e as referências recorrentes comprovam isso. Fatos que, contudo, não tornam a leitura difícil e nos seduzem cadenciadamente em sua narração flutuante.

Um livro que aborda como poucos a temática esportiva e a inevitável, mas vencível, derrota humana.

  1. Rio Esportivo – Victor Melo

Antes de o futebol escantear os outros esportes das mídias e da vida pública, o Brasil era uma babel de modalidades. Nas cidades litorâneas, as elites e as massas vibravam muito mais com as regatas e as natações que com onze homens correndo atrás de uma bola.

Nos interiores, a coisa não era muito diferente: muitos dos imigrantes se juntavam em agremiações esportivas para praticar a bocha, o tiro esportivo e as ginásticas. Em meados de 1800, até mesmo as touradas tinham suas aparições no centro do Rio de Janeiro.

Nesse grande mosaico atlético, Victor Melo revive a história do Rio de Janeiro por uma perspectiva até então inédita. Publicado em 2015, às vésperas das Olimpíadas na cidade, “Rio Esportivo” (Casa da Palavra) tenta ressuscitar o apogeu de diferentes modalidades na história da cidade maravilhosa. Na prosa vibrante do historiador, pode-se comprovar que o futebol, enquanto paixão nacional, é apenas uma fração na cena atlética do país. O livro é dividido pelas quatro zonas do Rio, traçando a história individual e as modalidades praticadas em cada uma delas. A narração presente, amplamente recheada com recortes de jornais e fotos de época, conduz o leitor desde o Rio de seus tempos de capital imperial ao Rio contemporâneo sem cansar o leitor.

“Como tantas outras práticas culturais, o esporte deixou marcas contundentes no Rio de Janeiro, uma das cidades brasileiras nas quais pioneiramente o fenômeno se estruturou e se consolidou. Ecoam nos ventos da história os gritos de emoção do grande público que sempre acompanhou o sem-número de disputas esportivas ocorridas na capital da Colônia, do Império e da República (até 1960).”

Uma leitura necessária para se entender que, muito antes de se tornar o país do futebol, o Brasil ainda é o país (de muitos) esportes!

  1. A Luta – Norman Mailer

Aquela luta foi muito mais que o duelo por um cinturão. Ela foi “a luta”, como o próprio título nos delata. A disputa que botava muito mais em jogo que o cinturão dos pesos-pesados: a maior glória de um pugilista profissional. Era a disputa ideológica entre duas américas que seria decidida naquela noite de 30 de outubro de 1974.

Norman Mailer em “A Luta” (Companhia das Letras) vai muito além do papel tradicional do jornalismo de documentar os fatos. Vencedor de dois Prêmios Pulitzer, Mailer domina a técnica narrativa como todo bom jornalista literário. O autor entra na psique profunda dos lutadores, vive suas angustias e nos põe na pele suada dos dois homens trocando golpes no ringue.

Muhammad Ali, o “maior atleta vivo” de então, desafiara George Foreman, campeão invicto até o momento, que trazia nos calções as cores da bandeira americana. No ringue, eles não eram apenas dois atletas disputando um dos maiores títulos do boxe, eles eram a América dos negros e a América dos brancos (embora Foreman também fosse negro) frente a frente, respectivamente.

O Boxe puxa consigo muitas outras questões acalantadas da época – o racismo sistêmico, a fracassada Guerra do Vietnã e as questões ideológicas da Guerra Fria – sem nunca perder o protagonismo. Os jargões típicos podem ser estranhos a que não conheça muito do esporte, mas não dificultam o entendimento da trama como um todo.

O livro seduz e nos faz vibrar como se o final do embate fosse desconhecido. Como se aquela luta fosse lutada pela primeira vez e cada linha fosse inédita. Não à toa, “A Luta” é considerada uma das maiores coberturas esportivas (e ideológicas) da história.

  1. A pátria de chuteiras – Nelson Rodrigues

Como se pode comprovar, a crônica esportiva sempre foi um berço de gênios da literatura jornalística. Gay Talese, um dos expoentes do jornalismo literário (o new journalism) teria desenvolvido seu estilo único para amenizar as derrotas sofridas pelo time de sua faculdade no suplemento esportivo do jor­nal universitário.

Deste lado, a América do Sul também foi um “celeiro de craques”, como afirma a frase feita. O uruguaio Eduardo Galeano, o baiano Jorge Amado e o recifense Mario Filho seriam alguns dos literatos a trazer as quatro linhas para dentro das letras. Mas, acima de todos esses, nenhum escritor se dedicou tanto de corpo e alma a este esporte como Nelson Rodrigues, o “anjo pornográfico”. Suas crônicas sobre futebol foram reunidas no volume “A pátria de chuteiras”, da editora Nova Fronteira.

Nelson, enquanto jornalista esportivo, tinha tudo aquilo que deve faltar a um repórter: a parciali­dade. Dentro do estádio, o lado estilístico e torcedor se desgrenhava das tribunas e trans­parecia nas crônicas do dia seguinte. A escrita apaixonada e, por vezes, fanática transformava qualquer partida em uma epopeia. Em um tempo em que a divulgação esportiva dependia muito do rádio, a crônica era a melhor reprise das partidas e escretes da véspera.

Mas, em “A pátria de chuteiras”, Nelson vai muito além do futebol. Sentado frente às massas, seu olhar se perdia da bola muitas vezes e pousava nos torcedores fanáticos. Falando sobre fu­tebol, o jornalista trouxe a público um complexo estudo sociológico sobre o “brasileiro” de seu tempo.

Grandes arquétipos rodrigueanos, como o “complexo de vira-lata” e as “madames com nariz de cadáver” são frutos de suas idas ao estádio. Sem citar sua especialidade, as frases polêmicas. Seguindo talvez o próprio exemplo, Nelson Rodrigues nos relegaria, com seu estilo quase monástico, dois de seus aforismos tão famosos quanto polêmicos: “No futebol, o pior cego é o que só vê a bola” e “Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos”.

Referências

CHEN, Anelise. Esforços Olímpicos. Tradução de Rogério W. Galindo. Todavia, 2021.

GALEANO, Eduardo. Fechado por motivo de futebol. Tradução de Eric Nepomuceno, Sergio Faraco Ernani Ssó, Marlova Assef e Janine Mogendorff. L&PM. 2018.

MAILER, Norman. A Luta. Tradução de Claudio W. Abramo. Companhia das Letras. 2011.

MELO, Victor. Rio Esportivo. Casa da Palavra. 2015

MURAKAMI, Haruki. Do que eu falo quando falo de corrida. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Alfaguara, 2010.

RODRIGUES, Nelson. A Pátria de Chuteiras. Nova Fronteira. 2014.

Eduardo Reitz
Graduando em Jornalismo, escreveu para o blog Pasch-Net, braço do Goethe Institut, e teve um conto selecionado no concurso "Ich habe einen Traum", do Ministério de Relações Exteriores da Alemanha. Acredita que o jornalismo vai muito além do lide e que a literatura não acaba com o fechar do livro.
Eduardo Reitz
Graduando em Jornalismo, escreveu para o blog Pasch-Net, braço do Goethe Institut, e teve um conto selecionado no concurso "Ich habe einen Traum", do Ministério de Relações Exteriores da Alemanha. Acredita que o jornalismo vai muito além do lide e que a literatura não acaba com o fechar do livro.
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