Nocilla Experience, a saga de Josecho e Julio Cortázar

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Mallo
Augustín Fernández Mallo

Na capa tem uma torrada com um pouco de Nutella, a do segundo livro do Projeto Nocilla, Nocilla Experience, de Augustín Fernández Mallo, cuja intenção é “transpor certos aspectos da poesia pós-poética, que teorizei [o autor] oportunamente, ao âmbito da narrativa”. E claro, há a saga de Josecho e Julio Cortázar, da qual falarei mais num tópico específico.

É um livro que distorce os conceitos de narrativa linear – começo, meio e fim –, sem ser difícil, ou precisar de um doutorado em literatura com especialização em linguística para entender. O enredo, ou aquilo que se pode chamar de enredo, é todo fragmentado, vários trechos de diversas histórias, que vão se ligando, através dos curiosos personagens. Ou, até mesmo, não excertos de histórias, mas trechos do filme Apocalypse Now, de Francis Ford Copolla; ou da série de entrevistas El pop después del fin del pop, com líderes de bandas pops; ou depoimentos de Albert Einstein; e tudo misturado à “história”.

Há, por exemplo, a história de Marc, que estuda o Guia Agrícola Philps 1968. E vive numa “cabana, situada no alto de um edifício de oito andares, que ele foi construindo com diferentes folhas-de-flandres, pedaços de tambor de combustível e de papelão encerado, fragmentos de placas de amianto”. E ali, solitário, Marc recebe uma visita um tanto estranha, mas que discorrerei melhor mais para frente. Alguns capítulos após, Mallo descreve uma espécie de “templo do ludo” que se localiza na “estepe marrom situada no sudoeste da Rússia”. Noutra linha narrativa, a história de Mohamed Smith, filho de um soldado americano e uma jovem iraquiana de Basra. E também a história de Steve que cozinha os mais estranhos objetos. São inúmeros casos que vão se ligando, mesmo que tão inusitados, a compor uma superfície narrativa surpreendente.

 

O estilo

Em seu propósito transpoético de narrar,  Augustín Fernández Mallo consegue efeitos cômicos, como tiradas que surgem pelas combinações. Por exemplo, na constante repetição, capítulo após capítulo, de um trecho do filme Apocalypse Now, de Francis Ford Copolla: “Saigon, merda, ainda estou sozinho em Saigon. Toda hora penso que vou acordar de novo da na selva”. E quando o trecho volta a aparecer, ele sempre vem acrescido de uma nova parte.

No entanto, uma olhada no capítulo três do livro pode dar uma noção da concisão e poesia que exibe a prosa de Mallo:

“Sandra faz o voo Londres-Palma de Maiorca. Menos de uma hora em que o giro da Terra se congela. Folheia a revista British Airways News. Reportagens sobre vinhos Ribeiro, Rioja, as últimas tendências da arquitetura high-tech em Berlim, vendas de pérolas Majorica pelo correio. Derrama uma lágrima sobre uma foto de uma praia do Caribe, mas não por culpa da praia, nem do Caribe, nem da gravitação que é própria das lágrimas. Olha pela janela, fita a distância. Nem nuvens, nem terra. Constata o que já sabia: nos aviões não existe horizonte”.

É possível notar o ritmo, caso se faça um leitura em voz alta deste trecho. Mas chama a atenção o estilo, onde após um começo comum, ressaltando marcas e produtos, o escritor escorre para um fragmento tão emocional quanto o momento da lágrima de Sandra, ainda fazendo graça com o fato de a lágrima ter caído sobre a página do Caribe.

O livre é completamente cheio de construções assim.

 

A saga de Josecho e Julio Cortázar

Então, em determinado momento, o leitor se depara com um certo Julio, o qual o personagem Marc descreve como “um sujeito alto e de barba, que no verão vestia um casaco de tweed e que havia desenvolvido uma teoria agudamente interessante denominada por ele mesmo Teoria das Bolas Abertas ou Jogo da Amarelinha B”. Outro detalhe instigante, Marc está enviando este e-mail para Josecho que, segundo o narrador, compartilha com ele o gosto pela música Qué malos son nuestros poetas, da banda Astrud.

No capítulo quarenta e sete, Josecho assina o contrato para publicação de seu novo romance, “ou melhor, um artefato, até então nunca visto: tomando unicamente os ínicios, ou três ou quatro parágrafos, de romances já publicados, deveria ir colocando-os uns depois dos outros, fazendo-os se encaixarem de tal modo que o resultado final fosse um novo romance perfeitamente coerente e legível”.

Certo, mas qual a ligação?

Não vou me deter em cada aparição destes dois personagens, mas basta dizer que Julio Cortázar aparece em várias pontos, interligando as histórias entre os outros personagens, numa verdadeira saga, ou Jogo da Amarelinha. E Josecho? Bem, para que melhor personagem para representar a projeção do próprio autor dentro da obra?

Um transpoeta escrito por um transpoeta.

 

Considerações finais

Bem, em minhas meias palavras, sem querer falar demais, procurei apresentar este Nocilla Experience, de Augustín Fernández Mallo.

Nocilla ExperienceMas ainda gostaria de acrescentar que ele me agradou bem mais do que o primeiro da série, Nocilla Dream. As história se conectam de forma mais surpreendente, e o humor de Mallo parece mais afinado.

Quem procura uma obra contemporânea e relevante, acha neste livro uma boa leitura.

Nocilla Dream
Augustín Fernández Mallo
Editora Companhia das Letras
2013
248 páginas