Nunca se lê o mesmo livro duas vezes

Os livros podem ser sempre os mesmos, já os leitores estão em constante mudançaThe Reader

“Não podemos nos banhar duas vezes no mesmo rio porque as águas se renovam a cada instante”. De acordo com a filosofia de Heráclito, nem o homem nem as águas do rio são mais as mesmas quando se volta a mergulhar. A lógica pode ser aplicada à leitura: não se lê duas vezes o mesmo livro. Em essência, o livro é o mesmo. Mas o leitor não.

Somos modificados pelas experiências reais e fictícias que vivenciamos ao longo do tempo. Por isso, a perspectiva, quando se relê qualquer livro, já será diferente. É comum que se passe a gostar de uma obra que, na época, não apreciamos por falta de compreensão. Ou o contrário: que uma obra pela qual éramos fissurados perca a graça após alguns anos, por causa da maturidade crítica adquirida. Só ao evocar lembranças de antigas leituras, certas vezes podemos perceber o quanto nossa maneira de pensar era outra!

Há também o caso de, a cada releitura, encontrarmos novos elementos não captados antes. Passamos a enxergar os detalhes, somamos nossos novos conhecimentos ao conteúdo inalterado do livro. Umberto Eco sabiamente percebeu que toda literatura é uma obra aberta, com infinitas possibilidades de leitura. A cada época e de acordo com cada leitor, ela será analisada e sentida de maneira diversa.

Portanto, cada releitura é uma redescoberta. Nossos livros de cabeceira jamais se esgotam, disponíveis a novas aventuras no momento em que estivermos preparados. Outras chances também podem ser dadas aos livros rejeitados no passado. Talvez passemos a valorizá-los agora. Talvez continuemos com uma impressão ruim, porém provavelmente por razões diversas. Até as obras que odiamos nos ensinam e nos modificam. Até as obras consideradas de pouca qualidade. Por isso talvez algumas pessoas resistam tanto a se apegar à leitura. Exercício perigoso esse, que nos faz entrar em contato com nosso universo interior e refletir sobre a vida. Amadurecer é um processo doloroso, bem entendido. Doloroso, porém recompensador. Adquirir maior consciência sobre si mesmo e o mundo ajuda a lidar com os desafios da vida de maneira mais confiante e fruí-la de modo mais sensível. Ou pode-se permanecer no terreno raso e ilusoriamente feliz. Cada escolha tem seu preço.

A literatura é um mar sem fim no qual podemos mergulhar sem correr o risco de morrermos afogados; boiamos, à deriva, em meio às ondas de diferentes intensidades. Nunca mergulhamos nas mesmas águas literárias mais de uma vez. Porque nos renovamos a todo instante e a literatura também. E você, leitor, certamente não será o mesmo após ler este texto, menos ainda após relê-lo um dia, se o fizer. Nem eu. Um brinde à mudança!

Nicole Ayreshttp://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
Nicole Ayreshttp://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
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