‘O 4º Mundo’ ou para que serve a literatura de fantasia

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Que tal descobrirmos para que serve a literatura de fantasia conhecendo o livro O 4º Mundo, da escritora brasileira Marina Sandoval?

Marina Sandoval
Marina Sandoval

A literatura de fantasia é, muito provavelmente, a herdeira moderna da mitologia, embora com funções bem diferentes. Consideremos que os povos antigos utilizavam os mitos quando não conseguiam explicar alguma coisa. Desta forma, tantos os eventos positivos quanto os negativos estavam atrelados aos deuses. Cada comunidade possuía sua própria versão para a criação do mundo, do homem etc. Posto que avançamos em muitas coisas, descobrimos causas e efeitos, por que continuaríamos “criando mitologia”? Uma boa resposta a isso seria por ainda haver lacunas. Outra, que os seres humanos precisam de explicações, mesmo que fantasiosas. Uma terceira ainda é a de que somos feitos dos mitos, lendas ou histórias que criamos.

Neste sentido, o livro O 4º Mundo, de Marina Sandoval, é muito bem-sucedido. Poderia ser uma história comum, de quatro homens que acordam em um bote, sem saber onde estão, procurando se orientar geograficamente, envoltos em uma neblina – típica das narrativas que envolvem algum tipo de conexão com outro mundo, seja de forma metafórica, espiritual ou física. No entanto, há o que na publicidade (desculpem por denunciar minha nada nobre origem) chamaríamos de “uma boa sacada”. De fato, os quatro homens acordam em um outro mundo, porém três deles pertencem a um exército. O quarto integrante da comitiva é um pirata, justo o inimigo dos soldados. Ainda assim, permanecem juntos, desembarcam em uma praia desconhecida, caminham até um farol e encontram uma mulher que, pouco a pouco, passa a explicar o funcionamento deste lugar. Aí vem a sacada.capa_oquartomundoO leitor se depara com uma explicação para algo que ainda não entendemos, tal como eram os mitos, tal como deve ser a literatura de fantasia. O que acontece a uma pessoa em estado de coma? Por que algumas pessoas entram neste estado e voltam, outras não?

O 4º Mundo tem uma resposta ficcional para esta pergunta. É por estarem em estado de coma, inconscientes, que os quatro homens do bote chegaram a este mundo. Mais do que isso, para poderem retornar precisam cumprir uma missão dada pelos Sermérios. Entretanto, a mulher que encontram no farol, Virgínia, é uma das primeiras pessoas que contrariou sua missão. Esconder-se é o preço a pagar, sem perspectiva alguma de voltar à vida, senão a oferecida por um mago que ela perdeu o contato. Está armada a oportunidade para a aventura, claro, algo que toda narrativa de fantasia exige.

Entre os muitos conflitos que se revelam no grupo de personagens que vai se juntando, com direito à arvelianas (espécie de raça que tem asas, aparentadas com os elfos) e um humano com capacidade de se mutar em um tigre, entre os vários personagens, destaca-se Steven, um dos soldados que estava no bote. Na realidade, não um soldado, mas um médico que atuava na guerra. Alistou-se como uma forma de esquecer Justine, sua noiva, que não pôde salvar, por mais que utilizasse de todas as suas habilidades medicinais. Provável que o mais sentimental do grupo é quem se apaixona por Virgínia, pelo drama de ter que se esconder, vivendo com intensidade uma paixão que não poderá se realizar (a autora também costuma postar sobre a vida dos personagens em seu blog).

Batalhas, traições, novas alianças, buscas por recursos e oportunidades é o que não faltam ao longo da história.

Alguém habituado a livros mais realistas pode se perguntar: por que ler algo assim? Com tantas criaturas (mencionei os minotauros e sereias?) e situações que não pertencem ao nosso mundo? E a resposta só pode ser encontrada em cada um, pois uma das características de O 4º Mundo, assim como de toda a literatura de fantasia, é suas possibilidades metafóricas. Ou podemos interpretar e absorver algo com estas histórias, ou não podemos. Está dentro de nós.

Ainda assim, O 4º Mundo, de Marina Sandoval, é uma boa pedida para começar.