O abismo Caio F.

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ARQUIVO 17/02/1987 CADERNO2 LITERATURA - Escritor Caio Fernando Abreu FOTO JUVENAL PEREIRA / ESTADÃO
Escritor Caio Fernando Abreu (foto Juvenal Pereira/ Estadão)

À beira do abismo Caio Fernando Abreu estava a todo o momento, pois tentava mergulhar em outra dimensão para existir de fato.  E justamente quando ele tentava fazer isso tirava-nos do nosso próprio abismo, porque ele escrevia o que a essência de nossa alma sentia e buscava. Ele era profundo, abissal – ele era o amor. Sua escrita tão singular o apropriava como o escritor da paixão… e da morte.  Ele não era “o rapaz mais triste do mundo”, ele queria preencher apenas um vazio deixado por um “amor que no passado não matava”: era intenso. E a sua intensidade mostrava que lá no final desse abismo existia vida e uma luminosidade que nos abria a mente para enxergar, até com graça, com força as mazelas da experiência enquanto humano.

O pessimismo não existia em Caio F., apesar da opressão do mundo. Ele era talvez um anjo redimido, tentando resgatar as suas asas quando decidiu se tornar humano. Não era à toa que tinha como amigo um anjo da guarda, Gil Veloso. Sempre percebeu que estava à margem de alguma coisa. Doía estar aqui sem ser daqui: ele era “diferente”. Queria conhecer o mundo, talvez para encontrar o amor. Ou se sentir livre. Buscava uma liberdade que nunca chegava de verdade.

Faz vinte anos que nos deixou – ele verdadeiramente conhecia o paraíso.  Não era um morango mofado, como o título de um de seus livros, era doce como o figo que um dia disse numa terça-feira qualquer de carnaval se tratar de uma flor que nasce para dentro: Caio era uma flor que nascia para dentro esperando apenas que uma mão amiga/amorosa o colhesse e o  tratasse com respeito, carinho e igualdade.

Mergulhar no abismo Caio é estar disposto a se desnudar na sua completude. E só quem está disposto a conhecê-lo é quem mergulha nesse abismo poético-inebriante- caleidoscópico-erótico de Caio Fernando Abreu.

Ele nunca se foi porque nos deixou raridades para que pudéssemos entendê-lo nas suas Pequenas (ou grandes) Epifanias, fazendo com que encarnássemos quem sabe uma Dulce Veiga ou sendo um Ovo Apunhalado que fosse reinventado num Inventário do Irremediável, até se chegar a um Limite Branco e embebecido no Triângulo das Águas, mas tendo sentido como é doloroso está envolvido nas Pedras de Calcutá, e que Mel e Girassóis podem ser um encontro perfeito. E voar como um Dragão mesmo não conhecendo o paraíso, porque há o direito de sermos Ovelhas Negras num mundo com tantos descasos, pois só assim encontraríamos alguém especial nesse deserto de almas, também desertas.

À beira da vida e da morte Caio F. sempre esteve: “Agora estou muito ocupado, não tenho tempo para morrer”. Caio continua vivo, só está um pouco ocupado em outros ares, quem sabe em júpiter “onde as almas são puras e a transa é outra.”