O álbum “A More Translucent Haze” e a versatilidade de Gustavo Bertoni

Em sua carreira solo, Gustavo Bertoni nos mostra como podemos fazer curvas em uma linha. Seu novo álbum é pura poética

Gustavo Bertoni, do Scalene, imerge no íntimo e pessoal em álbum solo – Virgula
Gustavo Bertoni, Foto divulgação

A versatilidade é uma peça importante em qualquer passo que se dá. Em função das rápidas mudanças, hoje em dia é algo fundamental, se não básico.

Sempre tento ficar atento aos lançamentos de Gustavo Bertoni. Suas músicas da carreira solo trazem uma mistura de calmaria e disrupção, mantendo o equilíbrio entre as duas vibrações.

Vocalista da banda Scalene, o grupo ganhou certa notoriedade através do programa Superstar, em 2015. Formada também pelo irmão Tomás Bertoni e os amigos Lucas Furtado e Philipe Conde, a banda viajava (antes da pandemia) pelos quatro cantos do Brasil. 

Em 2016, tive a oportunidade de assistir a um show em Florianópolis, onde mostraram que o som é tão forte e maduro quanto nas gravações. Não à toa, em 2017 a banda foi convidada para tocar no Rock in Rio e fez um grande show.

Banda VS Carreira solo

Scalene tem uma discografia que, se pudesse definir em uma palavra, escolheria duas: tudo incerto. Em um ano, eles lançam “Magnetite” (2017), que tem uma pegada mais pesada e te leva a um clássico show de rock.

Alguns anos depois, lançam “Respiro” (2019) e o EP “Fôlego” (2020), que servem quase como uma sessão de meditação. Do pesado ao leve, sem avisar, nem perguntar.

Já em sua carreira solo, Gustavo Bertoni não foge de um estilo mais voltado ao folk, ainda que as mudanças podem ser vistas ao longo dos três álbuns lançados.

O mais recente, lançado em 2020, traz uma discussão interessante e levanta boas ideias sobre solidão e solitude. “The Fine Line Between Loneliness and Solitude” é um álbum que te leva a viajar de trem, passando pelos campos de uma Europa de chão frio e de céu azul. Vale a pena ouvir. 

Destaco também a audição-instalação do lançamento do disco, feito através de uma live no Youtube, juntamente com a artista Daniela Federighi. Uma mistura de arte visual e sonora que te faz imergir em um lugar místico e encantador.

A More Translucent Haze

Recentemente, em junho de 2021, Bertoni lançou o EP “A More Translucent Haze”. Com 4 faixas e 15 minutos de audição, o novo trabalho de sua carreira solo serve como uma extensão de todos os seus projetos anteriores, mas principalmente do último álbum. Além de se posicionar como uma transição para um próximo momento de sua carreira.

Ouça Old ghosts, New skin, de Gustavo Bertoni:
https://www.youtube.com/watch?v=0KLuS1HPPtY

A primeira faixa, Old Ghosts, New Skins, é quase como um chamado para o pós-pandemia, local onde uma parte do mundo já está, mas para nós, brasileiros, ainda é uma luzinha de natal no fim do túnel. De uma forma diferente, ela nos lembra de passar por lugares que sempre buscamos estar.

Com vocais que lembram seu disco “Where Light Pours In” (2018), a segunda faixa Ricochet traz um misto de empolgação contida e um folk com pitadas eletrônicas, estilo clássico de Bertoni. Poeiras, explosões e água corrente. Até o final dela você vai se sentir no meio de uma floresta, ao lado de um córrego apenas vendo o tempo passar.

Moon Bath é talvez a mais animada, mas que ainda consegue trazer a introspecção que Bertoni sempre carrega. Uma troca a dois, um respiro profundo e um toque entre olhares em névoas translúcidas.

A última faixa, River Dry, é a mais introspectiva do EP, com muitas semelhanças ao álbum “The Pilgrim” (2015). Com talheres se batendo ao fundo, eco das paredes de um quarto, passos e vozes de alguém, a gravação traz um ar vívido e orgânico. Trazendo reflexos da relação humana interpessoal e com o próprio ambiente ao redor, é a música perfeita para ouvir ao lado de uma fogueira em um lugar isolado.

Ouça River dry, de Gustavo Bertoni:
https://youtu.be/Nn1y_lfYEB0

No youtube, foi lançado um vídeo ao vivo onde Gustavo toca violão e canta rodeado por árvores e pássaros, que participam sutilmente da gravação.

Uma linha, várias curvas

Se olharmos para a discografia de Scalene e a carreira solo de Gustavo Bertoni, já podemos ver muita diferença.

Porém, mais interessante ainda é ver que Bertoni não fugiu muito de uma mesma linha em sua carreira solo, mesmo sempre trazendo roupagens, sonoridades e texturas novas a uma linha que ele já percorre há um tempo. Um misto de Bon Iver e José González. Ele sai da sala e vai para o quarto, mas a casa ainda é a mesma. E é uma casa aconchegante, com lareira e tapetes quentes.

Ouça o EP “A More Translucent Haze” nas plataformas digitais e veja os clipes lançados em seu canal no Youtube.

Igor Furini
Formado em Produção Multimídia pelo IFSC e aspirante a roteirista. Apaixonado por música e cinema
Igor Furini
Formado em Produção Multimídia pelo IFSC e aspirante a roteirista. Apaixonado por música e cinema
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