O Anjo Pornográfico e sua navalha – Uma resenha sobre Asfalto Selvagem I

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Nelson Rodrigues
Nelson Rodrigues

Caetano Veloso, nos idos dos anos 80, enquanto pedia para a Vaca Profana derramar o leite bom em sua cara e o outro na cara dos caretas, diz, num mea culpa, que também sabe ser careta, e que de perto ninguém é normal. Quando do lançamento dessa música, Nelson Rodrigues já estava no fim de sua vida, tinha passado por períodos difíceis de saúde e era uma sombra do grande careta que foi, e mesmo sendo careta, usou e abusou do perto para mostrar que ninguém é normal. Nelson era um careta e conservador convicto, mas disse em uma de suas memórias que era um menino e seria um eterno menino que via o amor através do buraco da fechadura. Essa era sua ótica ficcional, de perto olhava as taras e vontades das pessoas e criava mundos onde ninguém era normal. O Anjo pornográfico, como também se declarou nessa memória, lançou no início da década de 60 o livro Asfalto Selvagem, onde fala dos amores de Engraçadinha, uma de suas personagens mais clássicas, dos 12 aos 18.

Olhando através do buraco da fechadura Nelson nos dá uma série incrível de personagens num Espírito Santo longínquo. Numa casa cheia de tias fantasmagóricas e reguladoras, com um pai autoritário, um noivo insosso, uma prima devotada e um primo hercúleo, Engraçadinha desfila a graça de seus quinze anos. Mas a primeira imagem que temos dela não é essa. A vemos já com 35 anos, mulher séria e convertida, guardando um luto eterno na alma e desembarcando com a família e mudança num bairro carioca do subúrbio. Aí conhecemos o primeiro rompante rodriguiano do livro. Engraçadinha, casada com Zózimo, com o qual teve cinco filhos, nunca se desnudou perto do marido. Nunca fizeram amor nus e a única imagem de corpo inteiro que o marido tem dela é de uma espiada no buraco da fechadura do banheiro, enquanto ela se seca do banho.

O anjo pornográfico se manifesta no começo do livro e fica presente em todas as páginas. Através dessa olhada sabemos que a família de D. Engraçadinha não é normal. Nenhuma família o é. Os vários e complexos personagens não são mostrados no livro, eles são descritos através do buraco da fechadura onde Nelson espia e cria o mundo insano que vamos mergulhar. Não ouvimos a voz de nenhum dos personagens, todos eles aparecem na descrição de Nelson, os diálogos são os mesmos em todos os personagens e todos os trejeitos são descritos, mas nunca encarnados, nunca vividos. Sempre sentimos a voz de Nelson e a força da história vem dele e de suas próprias loucuras.

Conhecemos a Engraçadinha que ainda tem a graça e a malícia dos quinze anos no velório de seu pai. O político mais respeitado do estado, Doutor Arnaldo. Um homem acima de qualquer suspeita que passa a ter a vida comentada e achincalhada depois que se suicida. “Nada mais comprometido que a imagem de um suicida”, afirma o narrador. Em todos os bares, farmácias, igrejas, esquinas e muros da cidade um rumor toma corpo e de repente passa a ser uma certeza de todos os populares. Dr. Arnaldo suicida-se por amar a filha. E agora é preciso especificar uma coisa, para Nelson Rodrigues, amar é desejo, sexo e o sexo é perversão. Não encontramos um casal normal na obra, não encontramos uma pessoa feliz e realizada com sua sexualidade e seu desejo. Eles não interessam para Nelson ou simplesmente o Anjo Pornográfico não acredita que esses existam.

O desejo é criminoso, o desejo é totalmente perverso no livro. Engraçadinha sendo admirada por um dos oradores do velório do pai provoca o seguinte pensamento, “merece um crime sexual”. Nelson é um obcecado. Construtor de frases de impacto, livros densos e histórias pesadas, Nelson é um obcecado. Diferente de outro célebre pervertido, Charles Bukowisk, Nelson era praticamente um casto na vida privada. Homem de uma mulher só na vida dizia que apenas os asmáticos não traíam, ele passou a vida todo acometido pela asma.

Tio Nôno, gordo monumental com voz de barítono interpela a menina sobre a veracidade dos boatos, e essa, sensual, possuída, confirma toda a história para espanto do tio. Esse sempre achou a menina com uma imbecilidade bovina, “Essa menina ainda não tem alma.” Dizia ele para si mesmo, quando via a bela garota não demonstrando emoções em momento nenhum. Não acredita no que ouve, na reação de Engraçadinha que se insinua para ele. Mas não era isso. Nelson pervertia um pouco mais a história e brincava com o público. Encarnando o personagem de Irmão Fidelis, um sofredor, segundo suas palavras, repete várias vezes uma das máximas do livro, “O ser humano é incorruptível!” A face conservadora do Anjo Pornográfico. Para irmão Fidelis diz que está grávida do primo, Silvio, mas logo em seguida diz para si mesmo que nunca contaria a verdade completa a ninguém. Mas Nelson nos contaria.
Apenas agora vamos ao início da história. Saber como e porque Dr. Arnaldo suicidou-se. Sem mais nem porque estamos no início da historia. Sem nenhum aviso que mudamos de tempo, Nelson volta toda a narrativa e vemos Engraçadinha como ela é, sensual, fogosa, entregue aos desejos, apaixonada pelo próprio corpo que toca e confere no espelho do banheiro. Imagina sendo tocada pelo primo, e ralha em pensamento com esse, que, descobrimos agora, é noivo de Letícia. Engraçadinha faz comparações mentais, deseja a si mesma e se pergunta por que o primo escolheu a outra de coxas finas e não ela, tão bem formada. Estamos no dia do noivado de Silvio e Letícia. Ele órfão de pai e mãe e ela de pai, recebem de presente a festa de noivado na casa do Dr. Arnaldo. Feita com esmero e sem medo de gastos. Na noite do noivado, durante a festa, engraçadinha se desenlaça do noivo insosso Zózimo, o mesmo que se torna marido de D. Engraçadinha e a ama no escuro e vestida, chama Silvio para a biblioteca. Diz que precisa lhe entregar algo e o espera em dez minutos. Quando Silvio chega a encontra nua, sem nenhuma peça de roupa, da forma que Zózimo vê apenas pelo buraco da fechadura anos depois. Silvio não resiste ao corpo tão bem feito, a sensualidade tão grande e entrega-se a um desejo que descobre de chofre, mas que depois de descoberto sente ser desde sempre.

Amam-se no divã, sôfregos, entregues e depois ele a odeia, a chama de cachorra, se arrepende pela noiva, pelo tio e pelos dois. Não admite a sua fraqueza, seu desejo, ameaça que vai lhe quebrar a cara. Mas já sabemos que Silvio é todo desejo pela prima desde essa noite, ela também sabe e diz que vai deixar a porta do quarto encostada, para que ele entre e os dois se entreguem um ao outro novamente. Silvio foi criado por Dr. Arnaldo como filho, já que o pai, irmão do deputado, morreu sem saber que a esposa estava grávida. E esta morreu no parto.

Daqui em diante vemos a desgraça da família de Dr. Arnaldo. Engraçadinha exige que Silvio case com ela, e não Letícia. Ele não aceita a ideia, tem ódio da menina, pensa que essa não é uma mulher, mas bicho, desejo. Todavia não consegue controlar o desejo que sente e a procura no quarto novamente. Engraçadinha coloca seu plano em prática. Vai visitar a prima e diz que está grávida de Silvio. Letícia se desespera um pouco, mas entrega o noivo a prima, diz que vai falar com ele e exigir que esse se case com Engraçadinha. Dedicação total e amor à prima. Mas um amor rodriguiano, logo descobrimos que Letícia é homossexual e apaixonada pela prima. Deseja, e quando as duas estão sós se declara e a beija na boca, de língua.

Engraçadinha passa a odiar, temer, ter nojo da prima. Não admite um amor homossexual, apesar de pensar no banheiro, quando admira seu próprio corpo, que toda mulher bonita é um pouco a namorada lésbica dela mesmo.

A técnica de Nelson para descrever os desejos de seus personagens e fazer todos parecerem pervertidos controlados pelo desejo é incrível. Vemo-nos mergulhados num universo de corrupção e conversas escondidas, mentiras e veleidades que nos faz devorar cada página do livro. Engraçadinha mente também para o pai, diz que não pode se casar com Zózimo, pois está grávida de Silvio. Dr. Arnaldo não aceita a notícia, não admite que a filha possa estar grávida do primo e exige que essa aborte. Ele, deputado que defendia a família e os valores no plenário. Que certa vez declarou ter casado virgem na tribuna, exige um aborto. Ante a negação da filha à surra, pela primeira vez surra sua única filha e agora descobrimos que ela não é a única. Silvio também é seu filho. Fruto de uma noite de amor de Dr. Arnaldo com sua cunhada no mesmo divã da biblioteca onde Silvio possuiu Engraçadinha. Exige que a menina guarde segredo e vá ao médico no outro dia. O médico vai aborta-la e restaurar sua virgindade. Vejam bem, meus senhores, a prática é antiga e só agora as subcelebridades estão propagando.

Dr. Arnaldo encontra um médico de confiança e chama Letícia para que durma com a filha e as duas visitem o médico no outro dia. Engraçadinha agora tem um pensamento fixo. A menina perdeu a virgindade com o irmão, sente que está grávida dele, descobriu-se objeto de desejo da prima que considerava uma irmã e só consegue pensar na visita ao ginecologista. Pensa na maneira e nos trejeitos, como vai afetar vergonha diante do médico, como vai sentir o médico a desejando, como vai deixar o médico excitado. Pensando no médico, Engraçadinha nos presenteia com mais uma máxima rodriguiana, “A consulta do ginecologista é a traição da mulher honesta.” Mas antes da tão esperada primeira consulta de Engraçadinha, temos a noite em que Silvio visita seu quarto, ela dorme no chão, para fugir de Letícia que passa a noite com a menina por insistência de Dr. Arnaldo, e ela está na cama. Ela recebe Silvio no quarto totalmente escuro. Letícia agora perde a virgindade com o primo, ele achando que tem Engraçadinha morna em seus braços e as duas sentindo um estranho prazer em dividir o homem que ama as duas.

Nesse meio tempo Dr. Arnaldo procura Zózimo e faz esse prometer que vai casar com Engraçadinha mesmo ela estando grávida de outro. Esse, num choro sentido, diz que ama a noiva acima de tudo e aceita qualquer coisa para estar com ela. Apesar de Dr. Arnaldo não gostar da ideia da filha começar o casamento com uma dívida com o noivo, fica aliviado de saber que ela não será desgraçada, e depois arrependido, pois o médico ira consertar tudo. Engraçadinha se decepciona com o médico. Não o sente a desejando, pelo contrário, encontra um homem respeitoso e educado, um velho bonito. Não podemos esquecer que os velhos de Nelson têm em torno de quarenta e cinco anos, mais que isso apenas as tias fantasmagóricas de Engraçadinha. Contrariando a promessa feita à Dr. Arnaldo, que iria resolver tudo, o aborto e a virgindade, o médico manda que Engraçadinha escolha seu destino e ela quer que tudo fique como está. Ela decide ter um filho do próprio irmão.

Silvio é um homem perturbado pelo desejo. Não consegue aceitar o que sente por ela e sai aos bares em busca das putas. Sem saber por que, no caminho para e compra uma navalha. Sente-se bem segurando essa navalha e a coloca no bolso. Não aliviando nem o corpo nem o espírito com as putas, Silvio volta para casa e empurra a porta do quarto da prima. Mas nessa noite ele percebe que é Letícia deitada na cama. Ama Letícia e exige que Engraçadinha fique perto. Decide nesse momento que só o sexo observado é pleno e sente-se confuso. Depois do amor segura Engraçadinha pelo braço e a leva até a biblioteca. Tranca a porta e pergunta por que essa o entregou para Letícia. Ante ao mutismo da menina tira a navalha do bolso e mostra a lâmina brilhante para a prima quando essa lhe conta que na verdade são irmãos. Nesse momento temos a cena mais perturbadora do livro, temos o motivo do suicídio de Dr. Arnaldo e de toda a desgraça de sua família. Silvio corta o próprio membro diante de uma menina desesperada e grita como um louco acordando a casa toda.

Dr. Arnaldo levanta e percebe o que aconteceu e sabendo que a filha contou a verdade ao irmão decide matá-la. Mas antes vai em busca do filho para pedir perdão, que é negado por Silvio sem emoção e sem sentimento. Sabendo que sofreria para o resto da vida, ao invés de matar a filha, tira sua própria. Temos aqui o enredo de uma tragédia, diferente das tragédias de Shakespeare não de amor, uma tragédia de desejo e sexo. A tragédia continua num livro escrito dois anos depois por Nelson e que será resenhado em outra oportunidade. Esse acaba no começo e nos deixa cheios de questões. Um livro que já completou mais de cinquenta anos e ainda consegue chocar quem lê. Um conservador da década de cinquenta, onde o mundo era menor e mais simples, mais objetivo, consegue chocar na pós-modernidade, mesmo essa tendo todos os recursos de comunicação e de histórias que são contadas sem censura, mas também sem o dom e a maestria do Anjo Pornográfico. Queria eu ser careta e ter o mesmo dom. Escrever como quem passa uma navalha na carne de quem lê, mesmo que a vaca profana me derramasse o leite na cara.