O anúncio profético em “O recado do morro”, de João Guimarães Rosa

Na novela “O Recado do Morro”, João Guimarães Rosa nos apresenta uma profecia anunciada por personagens “doidos”.

O Sertão de João Guimarães Rosa | Explore | Instituto Ling
João Guimarães Rosa

O enredo       

No conto, ou novela, “O Recado do Morro”, de João Guimarães Rosa, Pedro Orósio parte em viagem aos Gerais como guia de um grupo de cinco homens. Fazem parte da comitiva os três patrões, representando, respectivamente, o estrangeiro intelectual, a igreja e o latifundiário: seu Alquiste ou Olquiste, frei Sinfrão, e seu Jujuca do Açude.

Além deles, outro jagunço, Ivo, companheiro de Pedro. Ivo e Pedro estão brigados por causa de uma mulher. Pedro é “boa gente”, mas muito namorador, e acaba fazendo inimigos por flertar com várias meninas ao mesmo tempo. Porém, Pedro não gosta de brigas e faz o possível para se manter longe delas. Ivo, ao que parece, faz as pazes com o amigo e o chama para uma festa com seus companheiros, ao final do trajeto.

No caminho, o grupo encontra alguns personagens particulares, como Gorgulho, Catraz, Joãozezim, Guégue, o Coletor, Nominedômine e Laudelim. Nisto, a história toma rumos um tanto fantásticos ao transmitir, através destes personagens, um recado do morro (daí o título): “acontecerá uma morte à traição”. O recado vai sendo repetido, repassado e traduzido, até ser compreendido por Pedro.

Após ouvir a canção de Laudelim, Ivo o chama para a festa com outros seis homens. No caminho, ele lhe pede para entregar sua faca, pois deve estar cansado de carregar peso. Então, Pedro entende que aquilo é uma emboscada. Finalmente, ele consegue escapar a tempo.

As interpretações

Vamos basear nossas interpretações nas considerações feitas pelos estudiosos Julieta Haidar de Mariftez e Tieko Yamaguchi Miyazaki. Elas observam que os viajantes encontram um personagem profético na ida e seis na volta, o que mostra um desequilíbrio na narrativa.

Esses personagens, já citados acima, são considerados “anormais” ou “doidos”. Por isso, em geral, não lhes é dada muita atenção, e a mensagem que tentam transmitir é ignorada. Assim, a primeira isotopia (aproximação semântica de termos) do conto/novela é representada por essas figuras extraordinárias.

A segunda consiste na fábula da vingança de Ivo e seus companheiros contra Pedro Orósio e sua performance amorosa. As mulheres, nesse universo masculino do sertão, são passivas e seu querer não é importante. Elas são motivo de disputa e rivalidade entre os homens.

Pedro Orósio, ao namorar várias ao mesmo tempo, gera um desequilíbrio nas relações e conquista o ódio dos companheiros. Ele transgride um código de conduta e deve ser punido por isso.

Há um conflito de interesses dos personagens: enquanto Ivo planeja a vingança, o próprio morro da Garça (“belo como uma palavra”) procura avisar a vítima de suas intenções e seu destino. A mensagem, porém, precisa ser desvendada. A princípio, ela é simples: haverá uma morte à traição em noite de festa.

Porém, como é anunciada de maneira diversa por personagens marginalizados, não é levada a sério até o momento crucial. Laudelim, o último emissário, a interpreta artisticamente e compõe uma canção completa, em que um Rei é assassinado por sete guerreiros/traidores ao tentar entender o seu destino.

A arte se revela, então, como a maneira mais eficaz de transmitir a mensagem. Porém, de modo diferente da história cantada, em que todos morrem, Pedro escapa com vida da cilada. Se seu destino não é a morte, qual será?

Conclusão

Como numa narrativa clássica, o herói passa, na trama de Guimarães Rosa, do estado de “não saber” ao de “saber”.

É curioso observar a reação de cada personagem, o quanto os mais “doidos” são os mais próximos da verdade, ainda que normalmente ignorados pelos demais. Também pode ser percebida a relação de proximidade e de quase simbiose do homem com a natureza. Pedro Orósio, por exemplo, é descrito como uma montanha e seu apelido é Pê-boi.

Além disso, o tema da viagem, similar em “Grande Sertão: Veredas”, nos leva a acompanhar um grupo até o seu destino, de onde retornam modificados pelas aventuras vividas. As leis do sertão são as da vingança, traição e morte, especialmente entre os jagunços.

Analisamos aqui apenas algumas camadas do conto, que pode ser compreendido sob outros vieses, dada a riqueza de detalhes que nos fornece o autor para cada personagem e ação, além do trabalho com a própria linguagem.

Os nomes dos fazendeiros, por exemplo, evocam planetas e deuses da mitologia greco-romana – Juca Saturnino (Saturno), Jove (Júpiter), Vininha (Vênus), Nhô Hermes, Marciano (Marte), Apolinário (Apolo).

Nenhum elemento é colocado na trama em vão: eles compõem um engenhoso jogo de pistas que culminará no clímax final. Os simbolismos místicos e religiosos são diversos e presentes em todas as mensagens, da profética à artística.

Tudo isso pode ser observado e aprofundado conforme o enfoque do estudioso. Mas recomendamos ao leitor, sobretudo, que se delicie com a narrativa de Guimarães Rosa e mergulhe em seu rico universo para além de qualquer análise.

Referências

Miyazaki, T. Y., & Mariftez, J. H. de. (1975). O recado do morro. Significação: Revista De Cultura Audiovisual, (2), 85-108. https://doi.org/10.11606/issn.2316-7114.sig.1975.90270.

Rosa, João Guimarães. O Recado do Morro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.

Créditos HL

Esse texto é de autoria de Nicole Ayres, com revisão de Evandro Pedro Konkel e edição de Mario Filipe Cavalcanti.

Nicole Ayreshttp://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
Nicole Ayreshttp://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
Revisão por
Evandro Konkel
Catarinense, apaixonado por educação e por leitura
Editoria por
Mario Filipe Cavalcanti
http://editora.cepe.com.br/autor/mario-filipe-cavalcanti
Editor-chefe do Homo Literatus, é recifense de nascimento, paulistano de contemporaneidade, Bacharel em Direito pela UFPE e advogado em Propriedade Intelectual e Privacidade, escritor com ênfase em contos, Prêmio Pernambuco de Literatura. Mestrando em Ciências da Comunicação pela USP, algumas coisas mais e, sobretudo, absolutamente nada.
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