O apelo à memória em ‘Orlando’, de Virginia Woolf

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A memória como guia do romance, em ‘Orlando’, de Virginia Woolf

 

“A memória é a costureira, e uma costureira caprichosa”, diz a certa altura o narrador do romance Orlando, de Virgínia Woolf. Tecelã caprichosa e astuta, é justamente a memória o dispositivo que dispomos para guardar a nossa história e a história do mundo.

Em seu livro, Virgínia Woolf se encarrega de traçar uma biografia inventada de Orlando, aristocrata imortal que viveu ao longo de diversos séculos na Europa, mudando de gênero, de ofício, de classe social, e acompanhando a evolução dos tempos.

Conhecidamente, a personagem é baseada na escritora Vita Sackville-West, com quem Virgínia teve um intenso relacionamento. Publicado originalmente em 1928, a obra tem muito a nos dizer ainda hoje, a começar pelo forte apelo à memória.

A memória como guia

Desde os primórdios, temos a memória como guia. Ela é nosso instrumento para registrar, modificar e perpetuar o conhecimento no mundo à nossa volta.

Como constatação, basta lembrar as pinturas rupestres: elas são a necessidade de registrar os acontecimentos de uma época e de uma sociedade, de modo que eles se perpetuassem e cumprissem uma tradição que se renovaria incessantemente.

A literatura como marca

A marca primitiva que Orlando desenha é a literatura, enquanto poeta, é por meio de sua escrita que ele sobrevive, é ao seu trabalho que ele se dedica ao longo de 350 anos, mesmo quando a história se encarrega de varrer sua jornada.

Homem ou mulher, nobre ou cigano, nunca cessa sua batalha literária, pois acredita que é pela linguagem que será imortal. Seu grande poema, O Carvalho, assim como a longeva árvore, sobrevirá ao tempo e garantirá que todos o conheçamos. Essa é sua verdadeira luta:

“Logo percebeu que as batalhas que Sir Miles e os outros travaram contra cavaleiros de armadura para conquistar o reino não eram tão árduas quanto esta que ele agora empreendia contra a língua inglesa para ganhar a imortalidade”

Uma sátira sobre os papeis sociais 

Virgínia Woolf é constantemente lembrada por ser a autora de Mrs. Dalloway, publicado em 1925, e que se converteu em um marco do modernismo literário e exemplo de execução da narrativa por meio do fluxo de consciência.

Em Orlando, por sua vez, o fluxo de consciência dá lugar a uma sátira mítica sobre a história e os papeis de gênero. O que relaciona os dois livros é o tom memorialístico, pois repete-se a mesma viagem conduzida pela memória que encontramos em Mrs. Dalloway, como no episódio que Peter Walsh reencontra Clarissa e subitamente é arrastado para a juventude que passaram juntos:

“É a própria Clarissa, pensou ele, com uma emoção intensa e uma lembrança dela extraordinariamente nítida e desconcertante, como se esse sino tivesse soado anos atrás na sala, onde estavam sentados em um momento de grande intimidade, e repercutido de um para o outro, antes de partir, tal como uma abelha com mel, prenhe do momento”

O valor da memória

Nos nossos tempos, onde a memória tem sido constantemente alvo de um ataque seletivo, onde o apagamento é progressivo, constante e deliberado, se faz necessário recuperar seu valor.

Conhecer nosso passado é fundamental. Conhecer nosso país, a história de homens e mulheres escravizados sob um poder sacerdotal, autoritário e político. E tudo isso desde a invasão dos portugueses, passando pela repetição do horror na ditadura cívico-militar, mas não terminando por aí. Seguindo com o apagamento forçado de nossa cultura, que a cada dia perde um combatente, de nossa ciência, dominada por falaciosos.

Conhecer tudo isso é fundamental para nos tornarmos fortes diante do tempo que se impõe, resistentes, impávidos e conscientes de nossa luta.

“Ninguém precisa se surpreender que Orlando tenha se sobressaltado, levado a mão ao coração e empalidecido. Pois pode haver revelação mais terrível do que constatar que este é o momento presente? Se sobrevivemos ao choque é apenas porque o passado nos protege de um lado e o futuro de outro”

Orlando nos prova que somos iguais através do tempo, que somos irmanados pela linguagem, conduzidos pela memória e que não devemos abrir mão dela.

Com conhecimento e experiências acumulados por séculos, sua trajetória nos ensina a reagir frente “a estreita prancha do presente” que desmorona sobre nossas cabeças. Por isso, não devemos esquecer quem somos e como chegamos até aqui. Se esquecermos de nosso passado, não resgataremos nosso futuro.

Referências

WOOLF, Virgínia. Orlando. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.

WOOLF, Virgínia. Mrs. Dalloway. São Paulo: Cosac Naify, 2013.