O ar que me falta: Luiz Schwarcz, a autobiografia e a dor

Em autobiografia corajosa, Luiz Schwarcz pauta a dor que sente e o ar que lhe falta.

Entrevista | Luiz Schwarcz | Biblioteca Pública do Paraná
Luiz Schwarcz, foto divulgação.

Ficcionando a vida

“Ninguém jamais escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu, inventou, senão para sair de fato do inferno”, ponderou Artaud acerca da criação como caminho dos questionamentos da condição humana. Roland Barthes, no que veio a ser seu Diário do Luto, chegou a essa conclusão pela via inversa: resistiu verbalizar sua dor enquanto temeu resultar em literatura.

Literatura é o que, despreocupado com vaidades e técnicas, Luiz Schwarzc fez de seus viveres e sofrimentos: “se me esforço para recordar o início da minha doença, é possível construir uma narrativa” que formou a autobiografia O ar que me falta: História de uma curta infância e de uma longa depressão (Companhia das Letras, 2021).

A longa dor resultado do nazismo

Luiz sabe que sua história o precede. Seu pai, André, escapou de um trem enquanto Láios, o avô, permaneceu a caminho do campo de extermínio em Bergen-Belsen. Sua mãe, aos três anos, decorou um nome falso, foi à Itália e depois cruzou o Atlântico.

A depressão foi externada em sua casa desde o olhar e o bater de pernas do pai, que o autor viria a reproduzir. Os não-ditos familiares, inclusive acerca de irmãos que perdeu, cercearam seus entendimentos até causarem um silêncio outro, um rareamento de palavras.

O tratamento como “adultas de calças curtas” e as responsabilidades demasiadas, como trazer alegria ao lar e ao matrimônio dos pais, pesaram sob os ombros de um menino que julgava incongruente ser tratado no diminutivo.

O diagnóstico não diminui o humano

Tardiamente diagnosticado com transtorno bipolar, Schwarcz não se preocupa com teorias genéticas sobre o mal, tampouco o trata como um injusto inimigo a ser combatido.

O que a psiquiatria entende como patologia é uma das principais temáticas da obra justamente por ser uma das grandes partes constituintes da vida de um sujeito acossado pelo luto, pela culpa e impossibilidade de unguentar um pai não recuperado da própria sobrevivência – e cuja morte, 14 anos depois, não sabe se elaborou.

Uma vez sensível, é fácil perceber importâncias em cada parte da história, desde as partidas dos antepassados de Luiz até suas partidas de futebol na pré-adolescência; e assim faz-se nítido o valor de escrevê-las.

“Sua leitura é um processo compreensivo, e arrisco dizer, um ato de amor”.

 

 

Paula Akkari
Psicóloga, graduada pela PUC-SP e Mestranda em Psicologia Social nessa mesma instituição. Pós-graduanda no Instituto Dasein. Instagram profile: @akkari.psi
Paula Akkari
Psicóloga, graduada pela PUC-SP e Mestranda em Psicologia Social nessa mesma instituição. Pós-graduanda no Instituto Dasein. Instagram profile: @akkari.psi
Revisão por
Evandro Konkel
Catarinense, apaixonado por educação e por leitura
Editoria por
Mario Filipe Cavalcanti
http://editora.cepe.com.br/autor/mario-filipe-cavalcanti
Editor-chefe do Homo Literatus, é recifense de nascimento, paulistano de contemporaneidade, Bacharel em Direito pela UFPE e advogado em Propriedade Intelectual e Privacidade, escritor com ênfase em contos, Prêmio Pernambuco de Literatura. Mestrando em Ciências da Comunicação pela USP, algumas coisas mais e, sobretudo, absolutamente nada.
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