O Brooklyn sombrio e violento de Hubert Selby Jr

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A violência dos personagens urbanos de Hubert Selby Jr

Hubert Selby Jr
Hubert Selby Jr

Hubert Selby Jr é um daqueles autores que não tem medo de falar, não é doce na hora de escrever, sem muitos enfeites, não tem uma lição de moral no final, suas histórias são reflexos do ambiente onde o autor está inserido. São repletas de pessoas sem caráter, de personagens urbanos como: prostitutas, gays, travestis, operários, marinheiros, arruaceiros e qualquer outro tipo de personagem das ruas que se possa imaginar.

Nascido no ano de 1928, no Brooklyn, largou a escola aos 15 anos e ingressou na Marinha Mercante. No mar, em 1947, foi diagnosticado com tuberculose, onde o médico lhe deu apenas um ano de vida. Sua tuberculose acarretou vários problemas, fazendo-o passar por vários tratamentos pesados e abuso de medicamentos, o que o levou ao vício em heroína. Em 1964, ele lança seu primeiro trabalho, Última Saída para o Brooklyn (1964). Escreveu mais seis livros ao longo da carreira e veio a falecer no ano de 2004. Dois de seus trabalhos foram adaptados para o cinema: Última Saída para o Brooklyn foi adaptado em 1989 e recebeu o título no Brasil de Noites Violentas no Brooklyn. Seu outro trabalho a receber uma adaptação foi Requiem for a Dream (1978). Adaptado no ano 2000, chegou ao Brasil com o título de Requiem Para um Sonho.

Em seu trabalho de estreia – Última Saída Para o Brooklyn – Selby Jr escancara, sem nenhum pudor, toda a violência contida nas ruas. As histórias contidas no seu primeiro livro são relatos brutais do que o ser humano pode ter de mais perverso, de mais sujo, de mais deturpado pela miséria. O livro é a reunião de várias histórias com o clima pesado das ruas, com personagens bastante humanos e sem valores. Os assuntos abordados no livro ainda são vistos hoje. A violência está no cotidiano e não há como negar: ainda há espancamento de homossexuais, ainda há assassinatos brutais, estupros. Tudo no livro é, de certa forma, muito visível em nossa realidade.

O autor escreve de maneira crua, utilizando a mesma linguagem dos guetos, as gírias. Devido à forma própria do ambiente em que ele retrata algo, para os tradutores muitas vezes fica complicado, pois é uma linguagem muito característica de um lugar. Ele não tem medo de colocar, de forma simples e cruel, o que há de mais doentio no ser humano, mostrando o nosso lado mais selvagem. Mas, claro, há suas passagens onde o lirismo é inegável, mesmo em meio a toda brutalidade Selby Jr é lírico à sua maneira.

Outro ponto é a escrita em si, não separando as falas dos personagens por aspas ou travessões, como é de costume, mas escrevendo tudo de forma direta, ultimasaidaparaobrooklyinseparando apenas por ponto ou vírgulas a fala de um personagem do outro, o que chega a causar um estranhamento à primeira vista – há passagens onde um parágrafo é muito longo, chegando a duas páginas do livro, detalhando cada ação mínima do personagem. Porém, com o passar da leitura, é possível se acostumar. Talvez a forma adotada tenha sido a melhor maneira para não atrapalhar seu fluxo na hora da escrita. Vale um destaque no lado religioso do autor, que coloca sempre uma passagem bíblica antes de cada história.

Última Saída Para o Brooklyn foi o único livro do autor traduzido para o português que vi até hoje, falaram que havia uma edição do Requiem Para um Sonho, mas ainda não encontrei. Creio que pela dificuldade da tradução, por ser uma linguagem bastante particular de um lugar, Selby Jr tenha sido deixado de lado pelas editoras brasileiras ou talvez ele não tenha caído no gosto do público quando foi lançando no Brasil. Apesar de uma leitura pesada, Hubert Selby Jr precisa ser lido, relido, redescoberto no país. Espero que no futuro tenham mais edições para o deleite dos apreciadores de sua literatura.