O Carnaval na origem do romance

No livro Problemas da Poética de Dostoiévski, o teórico russo Mikhail Bakhtin recorre ao fenômeno do Carnaval para explicar uma das variantes do gênero romanesco que conduz ao escritor Dostoiévski.

Fyodor Dostoiévski e Mikhail Bakhtin: Reprodução
Retirado em: https://veja.abril.com.br/blog/diario-de-um-escritor/os-animais-sociais-de-fiodor-dostoievski-e-mikhail-bakhtin/

O Carnaval e o romance

Não há atores ou público nos dias de Carnaval, todos fazem parte do ritual. Todos são o ritual. É um momento de desvio da ordem habitual, revogação das leis e restrições que comandam a vida comum. Vive-se a vida pelo avesso. O elevado e o baixo, o sagrado e o profano, o sábio e o tolo: elementos opostos, antes fechados e afastados, são reunidos pelos símbolos barrocos do Carnaval. A profanação está no centro, uma lógica de aterrissagens da alta hierarquia e rebaixamento do sagrado.

Porém, comecemos pelo óbvio. O Carnaval não é, evidentemente, um fenômeno literário. Para o teórico russo Mikhail Bakhtin, é uma forma sincrética de espetáculo de caráter ritual, complexa e variada, que apresenta diversas variações dependendo da época, dos povos e festejos particulares.

A transposição dos símbolos do Carnaval para a linguagem literária é o que Bakhtin chama de carnavalização da literatura. É a partir desse movimento que podemos falar do Carnaval na origem do romance.

O Carnaval na linguagem literária

Para o teórico russo, a transposição do Carnaval para a linguagem literária é o que gestaria as particularidades do que ele chama de gêneros literários sério-cômicos. São eles: o diálogo socrático e a sátira menipeia.

Ambos fazem parte de uma raiz do romance que, mais tarde, resultaria na prosa do escritor russo Fiódor Dostoiévski. Obras marcadas pela presença de diferentes sentidos, pensamentos e vozes podem ser denominadas como uma variante dialógica do romance.

No entanto, a variante dialógica não seria a única. Para Bakhtin, o romance moderno também tem origens nas tradições da épica e da retórica, variantes que não teriam se contaminado pelo folclore carnavalesco, embora também possam confirmar a ideia de que o gênero do romance nasce sobretudo da mistura de línguas e aspectos da cultura popular e erudita.

A carnavalização como ousadia para novas formas

Em Problemas da Poética de Dostoiévski, Bakhtin define algumas particularidades para o campo de desenvolvimento do romance dialógico. O teórico concentra sua atenção no gênero literário da sátira menipeia ao discorrer sobre suas características elementares: o cômico, a mistura de gêneros e estilos, a paródia e o ponto de vista experimental do narrador. Hoje, são elementos identificados com facilidade em alguns romances canônicos ocidentais, como Os Demônios e Crime e Castigo, de Dostoiévski.

O discurso cômico, principalmente quando coberto de ironia, pode emancipar as palavras dos significados comuns, do clichê e das estruturas predeterminadas. Há autores que manifestam uma ironia à própria forma romanesca e, assim, conseguem corromper ideias unívocas e manifestar um gosto pela desordem, pelo desconjuntado.

Os romances que ousam oxigenar as formas tradicionais do gênero carregam um pouco da transfiguração, da inversão, da ousadia e da ausência de ordem carnavalesca, mesmo quando o Carnaval não aparece diretamente tematizado. Pensemos, por exemplo, em Dom Quixote, de Miguel Cervantes, Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez.

Memórias Póstumas de Brás Cubas

“Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…(capítulo 71)”

Ora para seduzir, ora para agredir, Brás Cubas dirige-se ao leitor em Memórias Posturas de Obras Cubas de forma obsessiva. Simula um desprezo pela opinião dos leitores, quando não tenta alcançá-los a todo custo. Às vezes lhes sugere que pulem de capítulo, outras vezes que façam uma revisão inteira do romance.

De certo modo, o leitor ideal Brás Cubas ainda não existia no século XIX. A pretensão de Brás Cubas é um leitor desacostumado à narrativa linear do romance tradicional. Um leitor autônomo, que não toma a voz do narrador como autoridade confiável e reconhece a impossibilidade de estabelecer sentido único e absoluto aos fatos narrados.

O livro torna-se enfadonho não por causa do narrador ou das histórias narradas, mas pela incapacidade do leitor.

” Vim… mas não; não alonguemos este capítulo. Às vezes, esqueço-me a escrever, e a pena vai comendo papel com grave prejuízo meu, que sou autor. Capítulos compridos quadram melhor a leitores pesadões; e nós não somos um público in-folio, mas in-12, pouco texto, larga margem, tipo elegante, corte dourado e vinhetas… principalmente vinhetas… Não, não nos alonguemos.” (cap. 22)

O defunto autor de Memórias Póstumas narra com abundância os acontecimentos da sua vida pregressa, fala bastante das pessoas com quem conviveu e de suas contribuições em vida, mas não deixa de se relevar como um agente criador, alguém que reordena os fatos de acordo com seu interesse e com uma preocupação obsessiva com o leitor.

A liberdade de criação, o desvio de ordens que comandam a vida comum (um defunto autor) e a necessidade de um leitor moderno, à frente da época que viveu Machado de Assis, colocariam Memórias Póstumas como um dos pontos-chave das renovações que passou o gênero romanesco através da carnavalização da literatura.

Conclusão

A forma romanesca, consolidada até o século XIX com as obras do realismo europeu, como Madame Bovary, de Gustave Flaubert, e Tratado da vida elegante, de Honoré de Balzac, foram por muito tempo, em parâmetros, exercícios perfeitos de estilo, ideários de um classicismo na era moderna.

Livros que expuseram as contradições da vida burguesa e, principalmente, representaram a vida como ela é a partir de um estilo narrativo direito e sem floreios. Nadando contra a maré, temos as obras excessivas, fragmentadas e satíricas. Elas parecem abandonar as prerrogativas do realismo/naturalismo e acabam criando linhagens únicas do romance pela carnavalização da literatura.

Referências:

BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. revista/5ª reimpressão. Tradução direta do russo, notas e prefácio de Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2018.

ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cuba. São Paulo: Editora Scipione,
2004.

Créditos Homo Literatus

O texto acima é de autoria de Raphael Alves, colaborador fixo do Homo Literatus. A revisão é de Evandro Konkel. A edição é de Nicole Ayres (editora assistente do Homo Literatus).

Raphael Alves
Graduado em Letras-bacharelado. Escreve por trabalho e diversão. A curiosidade um dia o matará; enquanto isso, escreve sobre a agonia e o prazer das últimas descobertas.
Raphael Alves
Graduado em Letras-bacharelado. Escreve por trabalho e diversão. A curiosidade um dia o matará; enquanto isso, escreve sobre a agonia e o prazer das últimas descobertas.
Revisão por
Evandro Konkel
Catarinense, apaixonado por educação e por leitura
Editoria por
Nicole Ayres
http://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
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