O caso Morel, de Rubem Fonseca

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O caso Morel prova que Rubem Fonseca ainda ocupa lugar importante na literatura brasileira contemporânea. Romance policial refinado e artístico, é impossível chegar à última página indiferente

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Lembro-me exatamente de quando conheci sua literatura: foi no ano de 2003, ao ler o conto Passeio noturno.

Aquela violência e agilidade narrativa despertaram um fanatismo comparado ao que sinto pelo São Paulo Futebol Clube e Quentin Tarantino. Em sua obra, Rubem Fonseca apresenta conhecimento enciclopédico sobre artes plásticas, música, literatura, cinema. Por conta disso, tive base para muitas conversas em mesas de bar, mesmo possuindo apenas conhecimento superficial sobre o assunto tratado. Ao longo do tempo, percebi que seus leitores o idolatram e o cercam da crítica: sua obra não possuiria mais a força de outrora.

Enfim, Rubem Fonseca completa 90 anos de vida no próximo dia 11. Para comemorar a data, retirei da estante seu primeiro romance, publicado originalmente em 1973, época em que era aclamado pelos críticos: O caso Morel.

Paul Morel é artista plástico de vanguarda acusado de um misterioso crime. Na prisão, resolve escrever um romance autobiográfico. Para ajudá-lo no processo de composição, pede auxílio a Vilela, escritor consagrado e ex-policial, que já protagonizara (ainda como tira) o conto A coleira do cão, pertencente ao volume homônimo publicado em 1965.

A história é contada da perspectiva do artista/criminoso/anti-herói. O foco narrativo transita entre a “realidade” e o texto de Morel. Conversando sobre o processo composicional do romance e lendo os escritos que chegam em suas mãos, Vilela tem seu lado investigador despertado, interessando-se cada vez mais pelo assassinato não solucionado. Não apenas isso: nota que trajetória e ideologia do artista são parecidas com as suas. Uma história real reconstruída com os nomes das personagens trocados, mulheres que fizeram parte da vida de Morel, relações violentas e libidinosas nas quais sentimento e rebeldia se confundem.

Vilela se enxerga em Morel: possui a mesma compulsão pela imoralidade. Escritor e artista se refletem, ambos insatisfeitos com sua arte. Sentem-se vazios, instigados a sempre serem originais, autênticos, profundos. Falham.

Os tiras de Rubem Fonseca são o que a escritora inglesa P. D. James chamava de “detetives do acaso”. É sem nenhum mérito que Matos e Vilela chegam perto de solucionar o crime. São homens com visão pessimista a respeito da vida, cansados, endurecidos pela profissão, marcados por suas passagens por um mundo repleto de misérias e violência. Possuem o existencialismo peculiar aos protagonistas falíveis.

Se suas histórias têm a mesma qualidade ou não, O caso Morel prova que Rubem Fonseca ainda ocupa lugar importante na literatura brasileira contemporânea. Romance policial refinado e artístico, é impossível chegar à última página indiferente.