O Corvo: um livro colaborativo comemora os 170 anos d’O Corvo de Allan Poe com novos autores

0
743

Livro colaborativo apresenta 60 releituras do Nunca Mais de Allan Poe

"Nunca mais"
“Nunca mais”

Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore—

What this grim, ungainly, ghastly, gaunt, and ominous bird of yore

Meant in croaking “Nevermore.”

É com tal trecho de O Corvo, poema mais famoso de Edgar Allan Poe, que o livro colaborativo lançado pela editora Empíreo – O Corvo: um livro Colaborativo – introduz o leitor aos contos de sessenta novos e consagrados autores, além das ilustrações de quinze artistas que, 170 anos depois, ainda têm muito a acrescentar sobre o tema imortal: nevermore, nevermore, a morte de um amor que nunca volta. Foi em ocasião do aniversário dos versos célebres que a Empíreo decidiu promover uma empreitada inusitada: convidar novos escritores do país inteiro a se inspirar na poesia e montar suas próprias versões da história, com a única regra de que haveria de existir um personagem chamado Edgar em cada conto ou poema. A seleção de autores já contava com nomes conhecidos como Rubens Francisco Lucchetti, Cláudia Lemes, Salomão Larêdo e André Vianco. Para que o projeto tomasse forma, no entanto, era necessário que se arrecadasse a marca de 25 mil reais no financiamento coletivo. 500 inscrições depois, cerca de 300 contribuições e um acirrado processo de seleção, 60 escritores e 15 ilustradores tiveram suas obras publicadas numa edição graficamente impecável, de dar orgulho ao mais sorumbático Poe.

A Empíreo não é novata no que se refere à interessante alternativa do financiamento coletivo. Já havia lançado Desnamorados, livro também colaborativo que buscava explorar a multiplicidade das faces do amor através ravenda perspectiva de diversos autores. Para tanto, a editora garantiu que seus contribuintes tivessem um retorno e tanto: além do capricho com que foram produzidos os livros—Desnamorados foi impresso em capa dura—diversas recompensas estavam disponíveis para quem quisesse colaborar. Em plenos tempos de fim de Cosac Naify, Filipe Larêdo, editor da Empíreo, discorre: “o mercado editorial tradicional enfrenta um momento de dificuldade, o qual só será superado com bastante criatividade. No nosso caso essa criatividade envolve financiamentos coletivos.(…) A edição trilíngue de O Corvo, toda ilustrada pela Lupe Vasconcelos, só foi possível por conta do financiamento coletivo. Essa é a prova mais clara de que se nos unirmos (autores, leitores e editoras), conseguimos lindos resultados”. Lançado juntamente ao livro colaborativo, uma edição de luxo do poema clássico, com as respectivas traduções em português (de Machado de Assis e Fernando Pessoa) e francês (de Baudelaire), demonstra o cuidado com que o projeto foi desenvolvido.

Larêdo, além de ter criado a Empíreo, já trabalhou na Globo Livros e é coordenador editorial na Novo Século. Usa sua experiência para ministrar cursos na sede da própria editora, e, junto a Lupe Vasconcelos, ofereceu cursos de edição e ilustração para os contribuintes do financiamento. Entre outras recompensas, era possível adquirir uma tatuagem de Victor Octaviano, responsável pela capa do livro e famoso pelas tatuagens aquareladas. O retorno marca a causa do sucesso da empreitada, demonstrando que a alternativa do crowdfunding funciona uma vez que o compromisso seja honrado por ambas as partes.

Mas o corvo não voa apenas até aí. No lançamento do livro, que ocorreu na Unibes Cultural em SP, no dia 14 de dezembro, foi anunciado que a produtora Inspiratorium produziria um longa-metragem baseado em 4 contos do livro, que permanecem não divulgados. Nas próximas semanas, diz Larêdo, o suspense irá acabar. Até lá, vale admirar o livro e suas sessenta releituras do Nunca Mais de Allan Poe. É bom lembrar que editora não descarta outros livros colaborativos no futuro.

“Aqui na Empíreo costumamos dizer que ‘somos uma editora de livros apaixonantes’. E isso significa que cada pessoa envolvida no processo de edição e publicação precisa estar apaixonado. Só assim conseguimos transportar para os livros esse sentimento de forma verdadeira”. E isso fica óbvio para quem confere o trabalho da editora.

Nevermore, nevermore, será que Allan Poe sabia que o nunca também é para sempre?