‘O décimo inferno’ do escritor argentino Mempo Giardinelli

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Amor, traição, inferno dantesco e sanguinolência, ao estilo Bonnie e Clyde, permeiam a obra O décimo inferno, do escritor argentino Mempo Giardinelli

Mempo Giardinelli
Mempo Giardinelli

Se Dante, um dia, com sua enorme ironia e inventividade, desenhou um inferno inteiro em formato de casca de sorvete (o velho cone com seus nove círculos) e deu a ele uma lógica – quanto mais profundo o círculo, maior a gravidade dos pecados e a intensidade do castigo –, dependurando às suas portas a célebre frase do Canto III (“deixai, ó vós, que entrais, toda a esperança!”), não imaginaria ele que, praticamente sete séculos depois (a novela é escrita em 1997), um argentino faria um anexo ao nono círculo, um puxadinho à brasileira, um décimo inferno!

É isso que faz Mempo Giardinelli (escritor e jornalista argentino nascido em 1947 na cidade de Resistência, Chaco e, sobretudo, ainda vivo!). Ele cria um décimo círculo no inferno para todas as almas hipócritas do Chaco argentino! E parece ser essa a palavra-chave do inferno giardinelliano: hipocrisia. O Chaco é uma região transfronteiriça, ou seja, uma região que abarca cidades, lugarejos e campos de Brasil, Argentina e Paraguai e é nessa terra de todos, nesse lugar de la amistad de los hermanos que brota, muitas vezes, a terra de ninguém, o Old West sem juiz nem lei em que brasileiros, paraguaios e argentinos se misturam numa mesma caldeira do diabo à Peyton Place.

Com seu calor infernal que frita os miolos e o juízo de qualquer um, o Chaco abriga em sua geografia uma cidade chamada Resistência (a mesma cidade natal do autor). Com suas famílias tradicionais, suas fofocas de pé de porta, sua integridade moral e seu cinturão de pobreza e miséria ao redor (daquelas que qualquer americano – do sul ou do norte – nunca mostraria), Resistência é nada mais, nada menos, que a Peyton Place do Chaco, isto é, a terra que mana hipocrisia, falsidade, corrupção, além de leite e mel (claro, pra não deixar o Moisés brochado) e será o cenário das barbaridades que emergem da pena do Giardinelli para os olhos tresloucados do leitor em chamas.

Tudo começou com uma declaração de amor. Naturalmente! O amor continua sendo o traço de insanidade que ainda nos é mais caro na civilização. Se a Divina Comédia também começa com um ato de amor (a busca por Beatriz), não poderia faltar ao Décimo inferno do Giardinelli esse toque de destempero dos sentidos e da razão. A ideia inicial é a mesma: um homem é capaz de entrar num inferno por amor? Diante desse questionamento, e sem mais delongas, Romero responde:

Eu sabia o tempo todo que era terrível o que estava fazendo, mas mesmo assim fiz. A partir do momento em que me atirei nesse peitoril do Inferno feito uma bola de boliche que vai ganhando velocidade e força à medida que desliza, não parei mais. Não me interessa quantos pinos iria derrubar. Eu só queria rolar (p. 13).

Uma declaração de amor de Romero à Griselda. Um amor impossível, diga-se de passagem. Griselda, a Gris, é casada há anos com o Antônio, uma espécie de corno manso (na tórrida expressão popular) que tem consciência das traições de sua mulher com o seu melhor amigo e sócio nos negócios, mas está pouco se importando com a titularidade da propriedade da Griselda. No entanto, os dois amantes, que antes eram membros dos mais ordeiros da cidade, resolvem apimentar a relação com a morte do Antônio.

É assim que em uma noite quente, após um belo jantar e algumas discussões de projetos de investimentos para o Mercosul, Romero covardemente por detrás, afunda o crânio de Antônio com uma pá. Mas Antônio não morre fácil, é daquelas pessoas duras de matar, daí Gris empresta uma faca brasileira, uma Tramontina descomunal para que o amante degole o pescoço de seu marido na sala de jantar. Os instantes da narrativa são tão intensos que, se o leitor estiver comendo, será capaz de vomitar! Não é como na bíblia, onde o escritor pudico evita de narrar os detalhes de como a cabeça do João Batista foi decapitada e servida numa bandeja, ou como as veias do pescoço do Golias se romperam diante da espada do Davi que o degolava – Giardinelli não nos poupa dos nuances. Feito o ato anti-heroico, a sala de jantar está mais banhada de sangue do que os campos de Waterloo e enquanto o casal do ano se arruma para sair numa fuga alucinante à Bonnie e Clyde, a campainha toca.

A partir daí um cenário sangrento se delineará deixando o leitor completamente aturdido. É que embora o intento originário do casal pancada tenha sido a morte do Antônio com clara motivação passional, outras mortes viriam quase como num efeito dominó e eles não conseguiriam mais parar. A transformação de seres humanos em “bonecos” se daria como que numa continuação da alucinação e excitação que os tomava naquela noite. Em todo caso, vê-se que “os outros” para Romero e Gris passaram a ser como objetos que deveriam ser derrubados como pinos por uma bola de boliche, tão logo se atravessassem em sua frente. Eles tinham um desígnio. Eles eram um desígnio. Mal a mal, Romero tenta justificar-se falando sobre o que deixava a todos loucos em Resistência:

Nunca acontece nada, até que um dia acontece de tudo. O calor nos deixa enlouquecidos , e esta é a única explicação para as coisas que acontecem, quando acontecem. (p. 14).

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Bonnie e Clyde | Fonte: acervo do site do FBI

Falando em Bonnie e Clyde, é indubitável a influência da história desse jovem casal texano de assassinos na novela de Mempo Giardinelli. E não é de menos, vez que o casal nitroglicerina pura ganhou o imaginário do público de tal forma que virou mote artístico: são vários os filmes, músicas e livros escritos baseando-se em Bonnie e Clyde que, entre 1931 e 1934, saíram numa fuga incansável matando indiscriminadamente quem atravancasse o seu caminho, cometendo ainda vários roubos até que, em 1934, após a segunda escapada exitosa de emboscadas feitas pela polícia, caíram numa armadilha e foram alvejados com mais de cinquenta tiros.

Mas acontece que talvez o fator chamativo da história de Bonnie e Clyde não seja nem mesmo a sua coragem e vida fora da lei. Bonnie e Clyde foram alunos regulares até onde puderam e tiveram seus pais falidos nos negócios familiares em uma época de recessão econômica, do grande crack da Bolsa de NY, etc. Clyde havia largado o colégio para se dedicar a pequenos furtos, a ganhar a vida mais fácil. Bonnie até mesmo escrevia poesias (numa de suas fugas, a polícia botou mão em seu caderno)! E, de repente, eles estavam na selva e na selva em que estavam não havia futuro para jovens pobres e trabalhadores. Diante disso, entraram de cabeça no mundo do crime, de cabeça e com gosto. Parece que a vida que haviam escolhido, na quadrilha de Clyde e Bonnie, era romântica e feliz o suficiente para que nela continuassem. Aquilo era coisa de filme.

E é esse tipo de felicidade ao estilo Bonnie e Clyde, amparada numa liberdade sem limites, que Giardinelli parece fazer despertar em Gris e Romero:

Passei a vida usando máscaras, sempre forçada a agradar os outros, e nunca fiz o que me dava na telha pelo simples prazer de fazer. […] Passei a vida toda tratando de que todos fossem felizes, logo eu, a panaca que nunca teve a menor ideia do que era a felicidade. (p. 49).

E eu também aprendi a ser educado, é claro, mas veja bem, sempre fui um homem reto, nunca sacaneei ninguém, era um perfeito babaca. E então cansei, foi só isso. (p. 57).

E não há qualquer remorso! Em suas mentes eles haviam apenas escolhido um caminho diferente desse meu, teu e nosso de fazer as coisas certas:

E vi que o outro caminho é outro e simplesmente isso: outro caminho, outra coisa, algo diferente que a gente também pode querer, tem direito de desejar e de conseguir. (p. 51).

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Décimo Inferno e Luna caliente (Record, 2003)

A segunda parte da novela é a fuga do casal pancada. E é nessa fuga que, pensando sobre a vida, Romero faz uma crítica mordaz à Argentina banhada na ditadura militar onde a hipocrisia reinava, onde ninguém seria capaz de matar outra pessoa, mas sacanearia facilmente, trairia facilmente, mentiria facilmente, tudo isso por trás de um véu de civilidade. É pra esses seres que seria o décimo inferno, já que para homicidas como Romero e Gris já haveria um lugar no oitavo círculo dantesco.

***

A novela do Mempo Giardinelli ao estilo pulp fiction não apenas conta o caso de amor, sangue, ódio e inferno do casal Romero e Gris, os Bonnie e Clyde de Resistência (a Peyton Place do Chaco), mas nos traz uma séria de reflexões sobre o que é o ato criminoso, quais são suas motivações, o que é a vida na civilização e, sobretudo, o que o paraíso do capitalismo vencedor da guerra fria nos relega. Vale muito a leitura!

 

 

Referências:

ALIGUIERI, Dante. A divina comédia. Tradução: J.P. Xavier Pinheiro. São Paulo: Martin Claret, 2011.

BONNIE E CLYDE. Disponível em: <http://histatual.blogspot.com.br/2012/06/bonnie-e-clyde.html>.

BONNIE E CLYDE. Disponível em: <http://blogfamigerados.blogspot.com.br/2013/06/folieadeux.html>.

GIARDINELLI, Mempo. O décimo inferno e Lua Caliente. Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht. Rio de Janeiro: Record, 2003.