O drama basco (e humano) em Pátria, de Fernando Aramburu

Um romance que se passa em uma cidade no País Basco pode ser muito mais abrangente do que se espera, como Fernando Aramburu nos mostra.

Fernando Aramburu. Foto: Jorge Amaral/Global Imagens

O País Basco e o ETA

Se pedirmos para alguém apontar o País Basco em um mapa, é bem provável que muitas pessoas não saibam onde pousar o dedo. Mais difícil ainda seria pedir para localizar a cidade de San Sebástian (ou Donostia, em basco) entre as muitas cidades da Espanha. Mas uma coisa é certa: bastam três letras para que as pessoas (ou ao menos os mais velhos) arregalem os olhos com um ar de entendidos: ETA – acrônimo para “Pátria Basca e Liberdade” na língua euskadi, uma organização terrorista que pregava o separatismo da região conhecida por País Basco, sobre a Espanha e a França.

O calhamaço de muitas páginas passou como um tufão pelas calles da região, com a sua publicação em 2016. O que não é de se espantar se pensarmos que os últimos atentados do ETA aconteceram há menos de 20 anos. Como Borja Hermoso definiu, no El Pais, Pátria é “algo mais que um livro. Talvez um espelho desconfortável da sociedade basca após anos de certa ruína moral diante dos crimes” do ETA – ou ainda a prova tangível que as feridas do povo basco não estão exangues.

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Mas Pátria é muito maior que a sua trama política. Ler este livro não é apenas compreender a vida de uma nação sem Estado e o terrorismo da esquerda abertzale – palavra em basco para patriota – às suas ruas. Querer reduzir este livro a somente um romance político é desmerecer a sua dimensão simbólica. Pátria toca naquilo que é a tragédia do homem, independentemente de sua nacionalidade ou opinião política, usando de plano de fundo uma cidade em meio ao crescimento do nacionalismo basco.

A literatura universal

O que um romance sobre o terrorismo no País Basco, a muitos quilômetros da sua realidade, pode dizer sobre a sua vida? Por incrível que pareça, muito. O conceito de literatura universal, uma literatura que ultrapassa os interesses, as temáticas e as fronteiras nacionais, não surgiu nos nossos dias. O primeiro a cunhar a expressão Weltliteratur teria sido o escritor Johann Wolfgang von Goethe.

Goethe, ele próprio um viajante e o que chamaríamos hoje de “cosmopolita”, cunhou o termo ao ler uma história que se passava na corte chinesa. Ele teria contado a seu secretário, Eckermann, sobre a leitura, que teria respondido desconfiado:

“Uma novela chinesa? ”, eu disse. “Deve ser certamente muito estranha” – “Não tanto quanto se imagina”, disse Goethe.

O escritor alemão tinha uma visão diferente sobre aquela literatura vinda do Oriente. Para ele, era claro que, nessa história, “as pessoas pensam, agem e sentem quase o mesmo como nós, e logo se sente como uma delas”. Com esta novela, Goethe proclamava que “a época da literatura universal é agora”. Não deveria se pensar o romance apenas como estrangeiro, mas como a representação do homem.

O contexto histórico do escritor, que coincidia com o nascimento dos nacionalismos, explica muito a reflexão de Goethe. Mas, a partir de então, estava cunhado um conceito que seria inescusável para o proveito da literatura.

O estilo de Pátria

O termo faz mais sentido à luz de Pátria quando sabemos que o próprio Fernando Aramburu é um homem que vive fora da sua pátria basca. Hoje, ele é professor na Alemanha, talvez o que o obrigue, naturalmente, a abordar temáticas que ultrapassem fronteiras.

Neste sentido, Pátria não pode ser visto apenas como um romance sobre o País Basco. A trama principal serve como o fio que conduz a muitos outros temas que independem da língua e do país em que se está. Mas discorrer sobre este livro é entregar um pouco da surpresa que é virar cada página.

Isso ocorre justamente pela estrutura da obra. Os capítulos curtos, que tornam a leitura mais dinâmica, não seguem uma sequência linear, somados aos diálogos que vão fluindo ao longo do texto. De início, isso pode ser um pouco complexo ao leitor, mas logo se funde à trama e contribui, definitivamente, para a tensão e o magnetismo que a obra atrai.

Não se pode deixar de citar o estilo fluido de Aramburu. A prosa prende o leitor, incluindo alguns termos na língua basca – que, a princípio, são estranhos, mas que logo passam a ser naturais com o teor da obra.

Enfim, a política

Apesar de toda a dimensão humana que a obra apresenta, a política e os atentados do ETA são o fio condutor e principal temática. Tentei, neste texto, esquivar-me ao máximo ao tocar este assunto por uma razão simples: ninguém a descreve melhor que o próprio Aramburu.

Como disse Vargas Llosa, em um artigo no El Pais, “apenas Pátria, o romance de Fernando Aramburu, me fez viver, de dentro, não como testemunha distante, mas como um assassino e uma vítima a mais, os anos de sangue e horror que a Espanha sofreu com o terrorismo do ETA.”

Tentei ao máximo não envolver as questões ideológicas do romance e, contraditoriamente, não aprofundar na descrição da narrativa para que, ao lê-lo, se possa ter a mesma experiência desbravante que tive ao fim de cada capítulo: o interesse que foi surgindo a cada página.

Ao final, nota-se que Pátria é um romance que atrai não pela excepcionalidade dos seus personagens, como discorreu Vargas Llosa, mas por entender que são pessoas comuns postas em uma situação extraordinária.

Referências

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/02/opinion/1486035878_421520.html

https://www.projekt-gutenberg.org/eckerman/gesprche/gsp1075.html

https://elpais.com/cultura/2017/02/11/actualidad/1486803840_485642.html

ARAMBURU, Fernando. Pátria, Intrinseca, 2019.

Há uma série na HBO adaptando o livro, mas ainda se recomenda a leitura da obra.

Créditos HL

Esse texto é de Eduardo Reitz. Ele teve revisão de Evandro Konkel e edição de Nicole Ayres, editora assistente do Homo Literatus.

Eduardo Reitz
Graduando em Jornalismo, escreveu para o blog Pasch-Net, braço do Goethe Institut, e teve um conto selecionado no concurso "Ich habe einen Traum", do Ministério de Relações Exteriores da Alemanha. Acredita que o jornalismo vai muito além do lide e que a literatura não acaba com o fechar do livro.
Eduardo Reitz
Graduando em Jornalismo, escreveu para o blog Pasch-Net, braço do Goethe Institut, e teve um conto selecionado no concurso "Ich habe einen Traum", do Ministério de Relações Exteriores da Alemanha. Acredita que o jornalismo vai muito além do lide e que a literatura não acaba com o fechar do livro.
Revisão por
Evandro Konkel
Catarinense, apaixonado por educação e por leitura
Editoria por
Nicole Ayres
http://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
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