O escritor argentino Roberto Fontanarrosa e seus contos sobre futebol

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Muito querido do público argentino, após a morte, teve sua obra republicada pela Editora Planeta numa coleção intitulada: Biblioteca Fontanarrosa. Daí surge uma das mais incríveis antologias de conto sobre futebol da literatura mundial, a obra Púro Fútbol.

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Talvez Roberto Fontanarrosa esteja para os argentinos como um Luís Fernando Veríssimo que tivesse mais histórias sobre futebol. Apelidado carinhosamente de “El Negro”, Fontanarrosa foi escritor, desenhista e humorista, criador de personagens notáveis como “Boogie el aceitoso” – paródia de James Bond que acabou virando filme, considerado um clássico pelos europeus.

Nasceu (1944) e morreu (2007) em Rosario, cidade que alimentou sua centelha criativa, onde até perto de sua morte, disputou campeonatos de futebol amador. Foi autor de contos e romances memoráveis, que destacam certa mística do futebol, além de outros elementos, como a amizade e a garra. Sua origem rosarina também alimentou um dos temas mais fortes de seus contos futebolísticos, a rivalidade entre Newell’s All Boys e Rosario Central, entre “leprosos y canallas”, como as torcidas se denominam, sendo que Fontanarrosa se declara claramente torcedor do Rosario Central.

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Muito querido do público argentino, após a morte, teve sua obra republicada pela Editora Planeta numa coleção intitulada: Biblioteca Fontanarrosa. Daí surge uma das mais incríveis antologias de conto sobre futebol da literatura mundial, a obra Púro Fútbol. Os contos futebolísticos do escritor têm por característica o humor, o coloquialismo ou oralidade (que muitas das vezes lembram os narradores de rádio, mesmo quando não são o tema), sua capacidade incrível de escrever com o ouvido, além é claro dos argumentos mais disparatados, que produzem a sátira e o pastiche.

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Dentre estes contos, Los nombres possui uma magia que mescla a paixão pelo futebol e pelas letras, como se uma coisa não fosse diferente da outra. Apresento o começo do conto, o qual não me arrisco a traduzir, considerando que seria um crime conspurcar o ritmo e a musicalidade do texto (recomendo que se leia em voz alta, mesmo que não se esteja habituado ao espanhol):

“Porque también la cosa está en los nombres, en cómo suenen, en las palabras, pero más, más en los nombres porque se puede estas transmitiendo agarrado al micrófono con las dos manos, casi pegando el fierro a la boca, y la camisa abierta, transpirada y abierta, los auriculares ciñendo las orejas y las sienes como un dolor de cabeza y ahí valen  los nombres, tienen que venir de abajo, carraspeados, desde el fondo mismo del esternón, tienen que llegar como un jadeo, lastimarte, tienen que ser llenos, digamos macizos, nutridos, eso, nutridos. Tienen que llenar la boca, atragantarla, que se los pueda masticar, escupir, como puede ser digamos Marrapodi, viejo, Marrapodi, ¡volóoo Marrapodi y echó al corner” (pg. 15).

E o narrador do conto segue testando a sonoridade dos nomes, de acordo com uma lógica do futebol, citando como Camaratta também soa muito bom, enquanto Blazina mais parece nome de plástico, e um goleiro que se chamasse García produziria uma sensação deserta e adormecida na boca.

A genialidade de Fontanarrosa também se estende a outros contos, como o surpreendente Memorias de un wing derecho, que narra nada mais, nada menos, que a perspectiva do futebol de um boneco de pebolim (ou totó, dependendo em que parte do Brasil você vive). E este narrador, o boneco, com muito bom humor diz que fez mais de seis mil gols em vinte anos: “Yo solo… ¡Después me dicen de Pelé! O arman tanto despelote porque Maradona hizo cien. Cien yo hago en una temporada”. Enfim, o conto inspirou uma verdadeira realização cinematográfica, nas mãos do diretor argentino Juan José Campanella, chamada de Metegol (2013, no Brasil: Um time show de bola); que poderia muito bem se passar por uma animação produzida pela Pixar, mas com uma pegada portenha inconfundível.

metegol

Outro conto notável é ¡Qué lástima, Cattamarancio!, cujo narrador, Ortiz Costa, transmite pelo rádio uma partida entre River Plate e San Lorenzo, tendo como comentarista e parceiro, Cabrini. Construída apenas de diálogos, a história tem um clima nonsense, pois a todo momento, Ortiz Costa chama alguém diferente para participar da transmissão, desde um repórter à beira do campo, um jogador que se machuca e sai da partida, a Don Urbano Javier Uchoa, argentino que vive na União Soviética, até Santiago Collar, argentino que vive em Tonopah, Estados Unidos – ambos falando de uma guerra entre as duas potências que acaba de estourar, porém o narrador, que sugere a possibilidade de os dois presidentes conversarem nesta transmissão, pede que aguardem mais um pouco, pois na cobrança do escanteio pode sair o gol.

Roberto Fontanarrosa escreve histórias absurdas e incríveis sobre o futebol, como só um apaixonado poderia fazê-lo. Quem estiver mais acostumado com o espanhol, pode ouvir na voz de Alejandro Apo a narração de dez contos de El Negro. As obras deste escritor são um presente para quem ama a arte futebolística.

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