O escritor defenestrado

Fui convidado pelo Vilto Reis a escrever para o site Homo Literatus. Combinamos uma coluna de pequenas crônicas, duas vezes ao mês. A coluna terá como título O ESCRITOR DEFENESTRADO. A primeira vez que li a palavra defenestração foi numa crônica de Luís Fernando Veríssimo. Não lembro o título da crônica. Defenestração é atirar pela janela, jogar pela janela. Eu, quando adolescente, no final de tarde, sentava na janela da sala da casa de meus pais e ficava a olhar um terreno baldio e a ouvir clássicos da MPB. Via o terreno baldio cheio de vegetação, lixo, os telhados de uma vila de casas que ficava do outro lado, o céu, gatos, e junto à música, tinha muitos sentimentos felizes. Cresci, me tornei escritor e fui defenestrado da janela.

Como escritor crescidinho, fiz 41 anos dia 24 de setembro passado. Pensei então que seria bom estrear minha coluna no Homo Literatus com duas crônicas sobre minha maturidade. A primeira escrevi em Picos quando fiz 40 anos. A segunda, bem menor – lembrando as micro crônicas que saiam na Ilustrada, da Folha de S. Paulo –, escrevi em São Paulo, quando fiz 41:

Crônica para o meu aniversário 40

Semanas no Picos Hotel trabalhando num policial para uma editora x e contendo a fruição de escrever sobre a sensação de finitude que se abate sobre mim. Hoje completo 40 anos de idade. A vida começa mesmo nesta idade? A sensação de que nada é perene me espreita. Tentei não escrever sobre a vida, mas estou sozinho demais neste quarto de hotel. O programa sobre o fim do mundo no canal Nat Geo parece ser real de fato. Fora do hotel o calor é insuportável e os correios e os bancos entraram em greve anunciando uma pane no sistema social. Fiz de tudo para não escrever sobre a vida, comprei um monte de filme pornô e quando a vontade de escrever vem enfio um dos filmes no notebook. Mas não dá mais, hoje sou um quarentão e sei que escrever um conto ou fazer uma canção não resolveria minha solidão de hotel, minha solidão de mundo. O que restou foi ser rápido como a vida nesta crônica. Parece mesmo que estamos no fim dos tempos. Tudo está de ponta cabeça. Recebo centenas de parabéns numa rede social por conta de meu aniversário, mas ninguém de carne e osso bate à porta do meu quarto de hotel com um bolo cantando parabéns, mandando soprar as velinhas e fazer um pedido. Tudo é virtual. Percebem o final dos tempos: recebo centenas de felicitações e estou sozinho. No apartamento de cima está hospedada uma moça jovem, gorda, e também solitária. Antes que o mundo acabe, o melhor presente que meu dou, é dividir uma pizza com ela.



Crônica para o meu aniversário 41

Exatamente hoje quando completo 41 anos, resolvi sair no centro de São Paulo usando suspensórios. Parei para um café, e umas mocinhas na mesa ao lado, me olhavam e davam risinhos. Descobri por que poetas e palhaços usam suspensórios.



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Cláudio Portella
É escritor, poeta, crítico literário e jornalista cultural. Autor dos livros Bingo! (2003), Melhores Poemas Patativa do Assaré (2006; 1ª reimpressão, 2011; Edição em ebook, 2013), Crack (2009), fodaleza.com (2009), As Vísceras (2010), Cego Aderaldo (2010), o livro dos epigramas & outros poemas (2011), Net (2011), Os papéis que meus pais jogaram fora (2013) e Cego Aderaldo: a vasta visão de um cantador (2013). Colabora em importantes publicações do Brasil e do exterior. Ganhou o concurso de conto da UBENY - União Brasileira de Escritores em Nova York.
Cláudio Portella
É escritor, poeta, crítico literário e jornalista cultural. Autor dos livros Bingo! (2003), Melhores Poemas Patativa do Assaré (2006; 1ª reimpressão, 2011; Edição em ebook, 2013), Crack (2009), fodaleza.com (2009), As Vísceras (2010), Cego Aderaldo (2010), o livro dos epigramas & outros poemas (2011), Net (2011), Os papéis que meus pais jogaram fora (2013) e Cego Aderaldo: a vasta visão de um cantador (2013). Colabora em importantes publicações do Brasil e do exterior. Ganhou o concurso de conto da UBENY - União Brasileira de Escritores em Nova York.
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