O fim da eternidade: nas ondas gravitacionais da ficção de Asimov

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Em seu livro O fim da eternidade, Isaac Asimov elevou a capacidade de prever o futuro à soma infinita, criando Séculos Ocultos, visitados em cápsulas capazes de viajar no tempo apenas com a energia solar

Asimov
Imagem: autoria desconhecida

O anúncio de grandes descobertas científicas sempre instiga a curiosidade sobre o que há de mais obscuro no universo. Que tal, então, enxergar além do tempo com O Bom Doutor, uma obra que acaba de completar 60 anos? O enredo do livro mais parece uma previsão e é tão atual quanto a descoberta dos fenômenos das ondulações dos tecidos do universo recém-anunciada por cientistas.

O escritor Isaac Asimov tem uma data imprecisa de nascimento. Teria nascido entre 4 de outubro de 1919 e 2 de janeiro de 1920. Será por isso que o autor soube tão bem retratar a indefinição dos nossos tempos e a ânsia por conquistas futuras da humanidade? Chamá-lo de visionário é apenas um dos mais óbvios adjetivos para alguém que não apenas enxergou além de seu tempo, mas conseguiu imprimir em seus textos uma poética e leveza praticamente insólitas, ao retratar os possíveis e até equivocados avanços da humanidade. Em O fim da eternidade, obra publicada pela primeira vez em 1955, Asimov elevou essa capacidade de prever o futuro à soma infinita, criando Séculos Ocultos, visitados em cápsulas capazes de viajar no tempo apenas com a energia solar, ainda que de um Sol passível de extinção em períodos em que a raça humana se defronta com a incapacidade de saber se também será extinta ou não. O livro completou 60 anos com a incrível capacidade de parecer ter sido lançado ontem e, é claro, essa é mais uma característica que salta das obras de Asimov.

De origem russa e de família judia, a imprecisão da data de nascimento do escritor se deu por dificuldades de registros de nascimento naquela época, mas também pelas diferenças de calendário utilizado pelas tradições judaicas (os calendários hebraico e juliano eram utilizados pelos judeus e pela Igreja Ortodoxa no período). Ficou conhecido pelos fãs como O Bom Doutor. Tinha no currículo conhecimentos de bioquímica e medicina, fatores evidentes nas descrições dos personagens de seus livros. Outra evidência: os profundos conhecimentos de Matemática e Física, cujas cenas e descrições das histórias fazem encantar até os que têm aversão aos números.

Em O fim da eternidade, Asimov celebra todos esses conhecimentos e atinge um grau de maestria e sofisticação com a mesma simplicidade de um cálculo matemático elegante. A obra nasceu de um conto que totalizava exatas 25 mil palavras. Mas a grandeza do texto e a receptividade fizeram com que Asimov ampliasse a história e a transformasse em romance. Mais do que isso. O livro é um thriller de suspense, mistério, ficção científica, é claro, viagem no tempo, informática, história da Matemática e da Física, e sobre a incrível capacidade de criação de nós humanos.

A engenhosidade da trama nasceu de um anúncio publicitário. Asimov teria visto em uma revista algo em formato de cogumelo (era o desenho do gêiser Old Faithful), o que o fez pensar no efeito explosivo de uma bomba atômica. Literalmente, essa foi a “explosão” para mais uma das ideias recorrentes do autor, que sempre questionou os percursos utilizados pelo homem em suas descobertas científicas.

O livro trata dos “Eternos”, que fazem parte de uma organização responsável por cuidar da “Eternidade”. Personagens cujos atributos vão de “Técnicos”, “Computadores”, “Observadores”, e o mais sofisticado de todos, os Eternos, são designados para garantir que, em qualquer século, seja de 0 a 150.000, a humanidade seja capaz de cuidar de si mesma e evitar a própria extinção. Mas até que ponto essa inferência é positiva ou prejudicial?, questiona o enredo, em uma vastidão que abrange 50 bilhões de pessoas, em “Realidades” paralelas e análogas. “O que eram 50 bilhões para ele? Havia apenas uma. Uma pessoa.”, diz a si mesmo o protagonista da trama, Andrew Harlan, um dos Eternos de comportamento aparentemente “impecável”. Para cuidar de tudo isso, computação mecânica não era suficiente. O maior “Computaplex” já construído, operado pelos mais inteligentes e experientes Computadores Seniores vivos… dava conta dos cálculos”, descreve o autor com humor e ironia indeléveis.

A mesma elegância se dá na descrição do Século 482: “O 482 não lhe era um Século confortável. Não era austero e conformista como seu próprio tempo-natal. Era uma época sem a ética nem os princípios aos quais estava acostumado. Era hedonista, materialista, matriarcal.”

E a poesia vai em um crescente até que chega a dor.

“Consegue entender que, ao afastar as armadilhas e suas vicissitudes que perseguem o homem, a Eternidade não deixa que ele encontre suas próprias soluções, boas e amargas, soluções reais que chegam quando a dificuldade é enfrentada, não evitada? […] Vocês riem da ignorância dos ‘Tempistas, que conhecem apenas uma Realidade. Nós rimos da ignorância dos Eternos, que acham que exitem muitas Realidades, mas apenas uma de cada vez.”

A visão arguta e ácida dos nossos tempos, com tons filosóficos, também está no texto:

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O fim da eternidade (Editora Aleph, 2007)

“Haveria o desejo instintivo por parte de seres inteligentes em expandir-se, de alcançar as estrelas, de abandonar a prisão da gravidade? Seria esse desejo o que forçava o homem a desenvolver viagens interplanetárias dezenas de vezes, que o forçava a viajar eternamente a mundos inóspitos de um sistema solar em que apenas a Terra era habitável? Seria o fracasso final, o conhecimento de que a humanidade precisava voltar à sua prisão domiciliar, o que causava os desajustes contra os quais a Eternidade lutava continuamente?”

A ficção científica nunca esteve tão na moda. Seja nos enredos de cinema, revival de HQs e, principalmente, nos notíciários, isto quando é tão fácil transmitir, ao redor do globo, cada detalhe de descobertas científicas. No enredo de Asimov, no livro O fim da eternidade, nós somos os “Primitivos”. Mas que tal voltar à origem? Asimov, sem dúvida, é a fonte básica. Ou o Estado Básico, como ele mesmo definiu na obra.