O futebol e suas pequenas histórias

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O futebol é como um conto moderno com duas histórias: uma aparente, outra secreta

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Em Formas breves, o argentino Ricardo Piglia escreve que o conto moderno possui como característica o relato de duas histórias: uma aparente, outra secreta. No futebol também é assim. A narrativa trágica e violenta do 7 a 1 não foi apenas um jogo atípico, desses que acontecem naqueles dias em que nada dá certo. Aquele acontecimento em pleno Mineirão foi a consequência de muitas histórias que vinham rolando por trás da cortina, embaixo do tapete, na surdina.

A seleção da CBF e sua comissão técnica arrogante e retrógrada, adepta a métodos futebolísticos ultrapassados; jogadores vaidosos que expunham-se a todo momento através das redes sociais, interessados na Copa do Mundo apenas como vitrine para serem contratados por melhores clubes no velho continente; e, claro, a cartolagem corrupta e criminosa que há muito tempo comanda o futebol brasileiro – a prisão de José Maria Marin, atual presidente da CBF, é um excelente retrato falado da penúria na qual se encontra nosso desorganizado futebol pentacampeão, que pulou do caderno de Esportes para as páginas policiais.

Na contramão, como um caminhão avassalador, vinha a Alemanha, que colocava em prática uma reestruturação de seu futebol que já durava quase quinze anos. A goleada imposta sobre os anfitriões e a conquista do título mundial foi apenas a cereja do bolo – ou, para utilizar um termo de Hemingway com relação às narrativas curtas, a ponta do iceberg.

A crônica esportiva, esse gênero que ultrapassa o muro do relato jornalístico para brincar no quintal do literário, dá conta de explicar acontecimentos lendários dos bastidores do futebol. Armando Nogueira (1927 – 2010) e Nelson Rodrigues (1912 – 1980) podem ser considerados os mestres que guiaram jornalistas contemporâneos como Juca Kfouri e José Trajano. Há ainda os que inverteram os papéis e de jogadores passaram à função de cronistas, demonstrando a mesma habilidade que possuíam para bater na bola com as palavras – aí, é impossível não se lembrar de Tostão.

Um jogo de futebol é repleto de pequenas histórias extraordinárias. Gabriel Xavier, atacante do Cruzeiro, foi dispensado do São Paulo no início da carreira por ser muito pequeno. O mundo girou até colocá-lo frente a frente com o clube que o refugou, batendo o pênalti que eliminou o time paulistano da Libertadores 2015. Breno, zagueiro do mesmo São Paulo, ficou detido na Alemanha por três anos após colocar fogo na própria casa.

Em 2007, ele surgiu como um raio e, com apenas 17 anos, foi vendido ao Bayern de Munique. De encontro ao sucesso, veio o alcoolismo, a depressão. Há cerca de três meses, reestreou pelo ex-clube, num clássico contra o Corinthians, depois de quatro anos sem jogar futebol.

Um conselheiro dum grande clube se encanta com a história do engraxate que está a polir seus sapatos. Insere o menino nas categorias de base. Algum tempo depois, aquele garoto, aclamado por torcida e imprensa, está na marca da cal para decidir um grande campeonato.

Apesar de ser a pátria das chuteiras, o Brasil possui pouca literatura que tenha como tema o futebol. Dessas poucas incursões, a que mais me marcou foi o conto “Abril, no Rio, em 1970”, presente no livro Feliz ano novo, de Rubem Fonseca. Um jovem amador está ansioso pelo jogo do dia seguinte, que será visto por um olheiro do Madureira. Querendo estar na melhor forma possível, nega sexo a sua amada (uma das eternas discussões do futebol: fazer sexo na véspera prejudica o rendimento durante a partida?). Termina com uma derrota vexatória no campo e mais solitário do que nunca.

O mundo do futebol é desprovido de justiça. Não é a balança quem apita o jogo, mas sim o momento, a bola na rede. E nem sempre o goleiro a deixa entrar.