O futuro do conto no Brasil e o sucesso do selo Formas Breves – Entrevista com Carlos Henrique Schroeder

1
772
Carlos Henrique Schroeder
Carlos Henrique Schroeder, editor do selo Formas Breves

“[…] quem acha o gênero conto menor, é porque nunca leu bons contos: é simplesmente um leitor bunda-mole”.

O tom da entrevista é descontraído, mas nem por isso Carlos Henrique Schroeder deixa de falar algumas verdades sobre o conto. Organizador do Festival Nacional do Conto, o escritor é um dos maiores “militantes” do gênero no Brasil. Natural de Santa Catarina, conta com quase uma dezena de livros publicados, tendo como suas principais obras os romances A rosa verde (Editora da UFSC, 2005), Ensaio do Vazio (7 Letras, 2006), e o livro de contos As certezas e as palavras (Editora da Casa, 2010) – obra que lhe rendeu ainda em 2010 o Prêmio Clarice Lispector de Literatura, como melhor livro de contos do ano. Além disso, tem contos publicados em inúmeras coletâneas, como Geração Zero Zero (Língua Geral, 2011), organizada por Nelson de Oliveira; Como se não houvesse amanhã (Record, 2010), organizada por Henrique Rodrigues; entre outras.

“[…] um país que tem contistas vivos e em atividade como Dalton Trevisan, Luiz Vilela, Sérgio Sant’Anna e Rubem Fonseca, é obviamente o país do conto”.

Na entrevista, Carlos fala sobre sua ligação com o conto; a relação do gênero com o mercado editorial; dá indicações (teóricas e ficcionais) para quem deseja se aprofundar no assunto; e fala sobre o sucesso do selo Formas Breves.

***

Carlos, não é de hoje que você vem se envolvendo com a divulgação do gênero conto no Brasil. O próprio “Festival Nacional do Conto”, que já vai para a sua quarta edição, é uma iniciativa que conta com a sua organização. Da onde vem este seu interesse pelo conto?
CHS:
Eu sou sobretudo um contista e, passei minha adolescência sorvendo todos os contos do Maupassant, os maravilhosos contos russos, a contundência dos americanos… Ao invés de brincar, ficava com o nariz enfiado nos livros, provavelmente perdi experiências corpóreas interessantes mas ganhei uma consciência de contista: não sei se foi um bom negócio, pois agora me transformei nisso, um ativista do conto (neste momento é importante vocês me imaginarem com uma camiseta branca com um pequeno conto do Dalton Trevisan ou do Walser em letras pretas, certo?). Há pelo menos quinze anos estudo as narrativas breves, e cada vez mais me embrenho numa floresta escura, mas quero que mais gente entre comigo nela. Pesquiso com o intuito de tentar entender os mecanismos internos que movem alguém a mergulhar num dos gêneros literários mais contundentes e, também, desprezados. A ideia da Formas breves, assim como do Festival Nacional do Conto, é colocar o conto em pauta, mostrar que o Brasil deve parar com esse complexo de vira-latas, pois um país que tem contistas vivos e em atividade como Dalton Trevisan, Luiz Vilela, Sérgio Sant’Anna e Rubem Fonseca, é obviamente o país do conto. E os chefões do mercado editorial querem transformar o país num carrossel de romancistas. Que erro, que lástima.

Apesar de ser um dos gêneros mais populares do mundo, o conto parece enfrentar uma resistência em nosso país, concorda? Ou isso se apresenta apenas no plano comercial?
CHS:
Eu digo uma coisa (neste momento é importante vocês me imaginarem com o dedo em riste, certo?), para mim, quem acha o gênero conto menor, é porque nunca leu bons contos: é simplesmente um leitor bunda-mole. E editora que não publica contos também é bunda-mole (logo minha agente vai me proibir de dar entrevistas, pois ando quase como uma versão — calva e gorda, obviamente —, do Fogwill). As editoras, por exemplo, relutam em publicar livros de contos, e teve até uma poderosa ex-editora que disse ser um erro começar escrevendo contos. Quantos livros de contos são resenhados nos grandes jornais por ano? Quantos profissionais do livro já afirmaram que conto não vende? Ou seja, há uma pressão do mercado para sufocar o conto, pois é um gênero difícil de definir, de enquadrar, de enlatar, de moldar e pasteurizar, pois é isso que muitas editoras fazem. Mas o conto não vende porque quase ninguém publica, é isso! Pois como se explica que a coleção Formas breves colocou quase todos os seus contos como mais vendidos nas lojas virtuais? Simplesmente porque publicamos e divulgamos adequadamente, só isso.

Em A civilização do espetáculo, Mario Vargas Llosa afirma acreditar que o meio digital tornaria a leitura mais superficial, citando o exemplo do escritor Nicholas Carr – que mesmo sendo diplomado em literatura pela Harvard, após a imersão no meio digital, notou que não tinha mais a mesma absorção do conteúdo. Como você vê esta questão? O conto pode ser uma resposta positiva neste contexto?
CHS:
Ambos estão corretos, a internet nos tornou ainda mais dispersivos, eu li o livro do Carr, muito legal. E este é um caminho sem volta. A Amber Case inclusive diz que já somos ciborgues, pois não sabemos viver sem os dispositivos. Mas vejo um lado positivo nessa história, no que diz respeito ao livro digital: as barreiras físicas caíram, e qualquer um de qualquer cidade (grande parte das cidades pequenas brasileiras não tem livraria) pode comprar um e-book, basta ter acesso à internet. A circulação do livro ficou mais democrática, o que é bom para as pequenas e médias editoras independentes, pois dá para competir com as grandes na distribuição, algo impossível no físico.

Como foi o surgimento do selo Formas Breves e quais as ambições para o futuro?
CHS: O Tiago Ferro da E-galáxia me convidou para dirigir uma coleção, eu sugeri que fosse uma de contos, e com periodicidade programada. Foi dessa maneira que eu e o Tiago pensamos a Formas breves, com algumas perguntas: que tal uma coleção em que qualquer pessoa com acesso à internet pudesse comprar um conto e ler em qualquer lugar? E com um preço simbólico, tipo R$ 2,00, o preço de um picolé? Este é o princípio da Formas breves: portabilidade, qualidade e preço baixo. E toda segunda colocamos no ar um conto novo, nas principais lojas virtuais do país, como Amazon, Apple, Saraiva, Cultura, Google Play e Iba, e por sete vezes chegamos no Top 10 de vendas da loja da Apple, na categoria ficção, na frente de best-seller’s melosos: isso foi demais. Somos um projeto independente, de uma editora independente, sem patrocínios ou subsídios do governo, e publicamos o que queremos: o que importa é a qualidade. É claro que devemos o sucesso do projeto aos autores, que além dos contos sensacionais, também suam a camisa, divulgando nas redes sociais, para seus contatos. Nossa ambição? Por enquanto a única ambição é manter a coleção a todo vapor.

1975057_666401220092852_186262041_n   10003531_669647859768188_2998134090673567563_nLivros lançados pelo selo Formas Breves no top 10 de vendas da loja da Apple

Quinze anos pesquisando sobre o conto, dá para acumular uma bagagem de referências, não? Saindo do convencional, quais contistas você indica para quem está se iniciando neste gênero? E, até mesmo, quais textos teóricos são suas indicações?
CHS: Acho que todo contista iniciante deve ler “Os contistas” do Moacyr Scliar, um conto genial e engraçado, que tenta mapear as dúvidas teóricas e metafísicas dos contistas, e cataloga vários tipos de contistas, um conto muito divertido. Está no livro “Contos reunidos”, mas também saiu numa edição da Paz & Terra, de bolso. E o jovem contista não pode deixar de ler os clássicos, contos de Maupassant, Edgar Allan Poe, Tchekóv, Hemingway (acho melhor contista do que romancista), Virginia Woolf, Borges, Kafka, Julio Cortázar, Salinger, Carver, Samuel Rawett, Dalton Trevisan, Bolaño… E falando em Bolaño, tem um dele que eu gosto muito, justamente por ter dois personagens contistas, o nome é  “Sensini”, e pode ser lido aqui.
Ah, e já ia me esquecendo, aí vai uma dica de ouro: a Nova Fronteira está reeditando a “Mar de histórias: Antologia do conto mundial”, que foi publicada em 10 volumes, coordenados por Paulo Rónai e Aurélio Buarque de Holanda, entre 1943 e os anos 1990. Uma viagem desde os primórdios do conto até 1925, com contos da literatura húngara, nórdica, chinesa, indiana, japonesa, polonesa, holandesa e autores como Voltaire, Gógol, Flaubert, Conrad, Chesterton e muitos outros. Vale a pena comprar tudo, os dez volumes, pois é uma aula! Eu tenho muito material teórico e histórico sobre o conto, mas vou indicar algumas coisas interessantes que estão na internet, para que os leitores possam ter acesso, então aí vai:
Uma história do conto, de Guillermo Cabrera Infante
Tentativas sobre o conto, de Elvira Vigna
Alguns aspectos do conto, de Julio Cortázar
Conto (não conto), de Sérgio Sant’Anna
Teses sobre o conto, de Ricardo Piglia
Velhas teses sobre o conto, de Pedro Juan Gutierréz

Agora vamos falar do Carlos contista, como funciona o seu processo criativo?
CHS: Para cada conto há um processo diferente, às vezes eu tenho o conto todo desenhado na cabeça e vou desvelando, outras vezes tenho apenas uma imagem e me deixo levar. O que eu gosto mesmo é de me desafiar, construir narradores improváveis, como vocês podem ver no meu último livro, que pode ser lido e baixado gratuitamente aqui.

Falamos do Formas Breves e do Carlos Henrique Schroeder escritor, mas queremos saber, alguma previsão de publicação de um conto seu no selo?
CHS: Não tenho nenhum conto inédito para a coleção, e também não sei se seria ético, ando reticente…
E estou envolvido agora com a divulgação da novela “As fantasias eletivas”, que a Record lançará em agosto. Essa tem uma história interessante, pois é o desdobramento de um conto. Há alguns anos eu escrevi um conto sobre recepcionistas de hotel, que está no “As certezas e as palavras”. Mas eu sempre senti que não havia exorcizado o assunto, eu continuava querendo acertar as contas com aquela história tão pessoal (já fui recepcionista de hotel). Então ao redor deste conto surgiram diversas imagens, possibilidades, outras histórias, e quando eu vi tinha uma novela nas mãos, que dialoga com fotografia e poesia, e que se passa em Balneário Camboriú, uma praia de Santa Catarina.