O Gênio e a Deusa, de Aldous Huxley – A joia esquecida

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“O Gênio e a Deusa parece ter ficado na sombra dos ‘mais conhecidos’, quando nada deve a eles – e é capaz de pregar uma boa surpresa por sua profundidade e tratamento”.

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Aldous Huxley

“O mal da ficção é que ela faz sentido demais. A realidade nunca faz sentido”.  Assim conta John Rivers no início de O Gênio e a Deusa, de Aldous Huxley, em sua avançada idade ao amigo escritor que o visita. Embora o nome deste não seja mencionado – e a nós, por extensão – é como se estivéssemos na velha sala da casa de Rivers com uma bebida bem servida para cada um, e ele dispara o aforismo. Nunca?, pergunta o visitante. Talvez para Deus; para nós humanos, nunca.
“A ficção tem unidade, tem estilo. A realidade não possui nem uma coisa nem outra. Em seu estado bruto, a existência é sempre um infernal emaranhado de coisas”, conta Rivers, e emenda referências culturais até indicar alguns livros na estante, dotados de tão pouco sentido que chegam a ser reais, inclusive a mais recente. ‘A Vida de Henry Martens’, se lê na lombada de um livro de sobrecapa azul brilhante. Rivers foi aluno dele, e descreve o livro como a ficção oficial ao invés da biografia oficial. Os fatos não eram tão simples para Rivers, o convidado, pergunta pela versão correta da vida de Martens. O público não a receberá, mas entre dois velhos amigos, vá lá, o anfitrião cede, mesmo preferindo confiar as filhas à Casanova do que os segredos a um romancista.
Um nome ressoa entre John Rivers e seu convidado: Helen. A qual ele diz ter aprendido “Que os mortos enterrem seus mortos. Se quisermos viver cada instante tal como ele se apresenta, temos de morrer para todos os outros instantes.” O amigo pergunta “se ela tivesse se casado comigo, teria eu aprendido? – Helen praticava o que sempre se absteve de pregar. Seria difícil deixar de aprender com ela”.
A tal Helen fica de lado quando John conta como conheceu os Martens. Ele era um mero estudante em seus vinte e oito anos, fadado a ser o único consolo da mãe luterana conservadora enviuvada, até ser aprovado em um exame cujo prêmio foi um estágio junto ao cientista Henry Martens; não sem relutância (e sem orações), esta mãe aprovou a saída do filho de casa. A chegada de Rivers na residência do então professor diz parte de suas experiências futuras: uma sala de estar com quatro pessoas, o casal Henry e Katy em aparente apatia ao mundo, os filhos Ruth e Timmy em suas ocupações – o rascunhar de poemas e uma construção de brinquedo, respectivamente. Cinco minutos diante da família sem ser notado ou assim sentir, Rivers é bem-vindo e aceito.
Aldous Huxley
Aldous Huxley

Fora dos estudos, a convivência prossegue de modo normal. Rivers fala do antigo cotidiano dos Martens, da adolescência conflituosa de Ruth, com seus poemas tão crus quanto viscerais acompanhados pela maquiagem forte; de como o professor Henry era um gênio em seu campo de átomos e mais infantil que o filho, tão acostumado a depender de outrem para pisar em domínios fora do próprio; de Timmy, o membro da família a dar menos trabalho; de Beulah, a empregada, um pequeno alicerce no lar graças ao serviço; e acima de todos, de Katy. Porque era o sustento, não no sentido material, mas em criar alguma conexão entre o professor e o mundo concreto. Ele tinha idade o suficiente para ser pai dela, e antes do casório Katy recusou alguns rapazes (ricos) por os achar um mais estúpido que o outro. Até conhecer Henry, desaposá-lo e tornar-se involuntariamente provedora dele. Mas nada parecia abalar Katy, mesmo algumas crises de Ruth não a incomodavam, nem o comportamento apático do marido, é como se estivesse noutra realidade onde o mundo ‘real’ fosse apenas uma passagem e seus percalços meras intempéries climáticas.
O convidado pergunta a John Rivers: “você era apaixonado por ela? – Perdidamente”. Se o livro tivesse voz física, seria possível identificar um misto de tristeza, saudade e admiração em Rivers. Ele conta a história de O Gênio e a Deusa em seus sessenta, vendo fatos de seus vinte e oito com melancolia. Pode ser interpretado como alguém cujo mundo foi expandido as pressas durante os meses com os Maartens, e vê essa mudança de forma impiedosa: era “bronco, tímido e profundamente provinciano”, em uma de suas autodescrições.
Porém, um fato perturbou a vida dos Martens: a mãe de Katy adoeceu, e a filha viajou em seu socorro. Sem suportar a ausência dela, Henry mergulha em enfermidades, mas Beulah, recorda Rivers, o advertiu de que era cena para forçar a esposa a retornar mais cedo, funcionou em ocasião semelhante. Ao conviver com o mestre avariado, John Rivers conhece alguns dos segredos da casa, desde livros suspeitos guardados no cofre a uma crise de amargura do patrão. Após uma longa batalha, Katy volta ao lar, mas a adorada patroa estava estranha, sem aparentar a energia de antes. Inclusive desaba em uma conversa a sós com Rivers, em uma das mais belas cenas escritas por Huxley:

“ ‘Não chore’, continuei a murmurar e, em lugar de carinho interditos, do prenome que eu não ousava pronunciar, pousei uma mão tímida em seu ombro e desajeitadamente dei-lhe umas palmadinhas. ‘Perdoe-me’, disse ela. E em voz entrecortada: ‘Prometo que amanhã me portarei melhor’. Depois de um novo paroxismo de choro, tornou a falar: ‘Desde antes do meu casamento, nunca chorei assim’.
Só mais tarde comecei a compreender o pleno significado daquela última frase. Uma esposa que se permitia chorar nunca o faria pelo pobre Henry. A crônica fraqueza dele a impelira a uma inquebrantável fortaleza. Mas mesmo a fortaleza mais estóica tem seus limites. Naquela noite, Katy atingira o seu ápice. Ela sofrera uma derrota que, num certo sentido, lhe era grata. As circunstâncias tinham sido demais para ela. Mas, em compensação, fora-lhe concedida uma trégua em sua responsabilidade, fora-lhe permitido, ainda que por uns breves minutos, conceder-se o luxo, para ela inédito, das lágrimas.” (p.73)

E Rivers termina de contar de seu tempo com os Martens, encerrado de forma abrupta. Se casou, se tornou pai e avô, embora aparente desencanto. Mas ainda assim confia a ficção oficial dos fatos ao amigo romancista, e nós também, mesmo sem nomear ouvintes.
O Gênio e a Deusa foi a penúltima das doze ficções de Aldous Huxley, escrita em sua última década de vida, e tem grandes particularidades: contada em primeira pessoa, em retrospectiva, curtíssima – a média de uma ficção de Huxley era 300 páginas, com poucas personagens (nem uma dúzia, perto da vizinhança de Contraponto e Sem Olhos em Gaza), direta e com menos digressões e referências a outras formas de cultura em comparação aos seus outros romances.
ogenioeadeusaHá marcas fortíssimas de Huxley, como a sátira ao intelectual tão velho quanto seu tema de estudo e um completo bebê perante o mundo real – Aldous era considerado intelectual mas nem sempre frequentava tais círculos, e conviveu com muitos assim chamados; diálogos semelhantes a embates de ideias, sem forçar o leitor a um lado ‘certo ou errado’, mas como convivência entre mentes opostas; e alguma sutil ironia, embora neste livro ela não apareça tanto. Aldous Huxley ficou conhecido principalmente por Admirável Mundo Novo, uma magnífica máquina de gerar interpretações devido a seus temas sombrios; Portas da Percepção, relato de suas experiências com a mescalina – livro tão suspeito quanto sua origem; além de Contraponto e Sem Olhos em Gaza, cada qual com seus méritos. Porém, O Gênio e a Deusa parece ter ficado na sombra dos ‘mais conhecidos’, quando nada deve a eles – e é capaz de pregar uma boa surpresa por sua profundidade e tratamento.
O Gênio e a Deusa
Aldous Huxley
Publicado em 1955
109 páginas
Civilização Brasileira