“O Grande Gatsby” no cinema: adaptações de um romance inadaptável

O desafio do cinema ao tentar reproduzir a obra de F. Scott Fitzgerald.

MFarrow_V_11nov08_rex_1280Uma adaptação cinematográfica importante para nós, amantes da literatura, acaba de se tornar quarentona. Estamos falando da versão do diretor Jack Clayton, roteirizada por Francis Ford Copolla, para o clássico O Grande Gatsby, escrito pelo cultuado Scott Fitzgerald.

Essa adaptação tem importância por algumas razões. A primeira delas é a falta de versões para esse que é um clássico da literatura americana. Antes dela, só foram feitas uma versão muda, em 1925, e uma versão de 1949, um tanto esquecida. Mais recentemente – e falaremos um pouco mais disso adiante – pudemos ver também a controversa tentativa de Baz Lurhmann em dar conta dessa empreitada. Além disso, alguns nomes estelares da época estavam envolvidos no projeto: Mia Farrow fez a socialite Daisy, Robert Redford encarnou o perturbado Gatsby, o próprio Copolla, vindo de prêmios e mais prêmios pelos dois primeiros “O poderoso chefão”, escreveu o roteiro… O problema é que, mesmo com todas essas credenciais prontas a garantir um filme marcante, o resultado final acaba decepcionando.

Eu sei que chega a ser sacanagem comparar o livro com o filme, de verdade. Mas, minha gente, não há como fugir aqui. Isso porque a comparação é justamente o que deixa claro quais são os pontos fortes e fracos da adaptação. Como qualidade, é possível apontar, sem dúvida, a reconstrução da época. Os cenários são bem montados, o visual das personagens é incrível e todo o aparato de construção do luxuoso período dos anos 20 pré-crise é muito bem feito. Da mesma forma, a estrutura narrativa é mantida na sua essência, o que garante a essa versão a fama de ser a mais fiel à obra.

E, de fato, ela parece ser. Mas é aqui que a fidelidade começa a se tornar uma questão. Primeiro porque alonga o filme desnecessariamente. Com duas horas e vinte, a película acaba se arrastando, e o que funciona no livro passa a não funcionar na tela. Em segundo lugar, porque, trazendo em muitos pontos o texto de Fitzgerald, deixa evidente o erro de escalação dos atores para os papéis principais. Mia Farrow – me perdoem a dureza – soa quase sempre como uma louca, esbugalhando os olhos a todo instante, fazendo pausas incômodas antes das frases e irritando, muito mais do que comovendo, nos momentos em que se debulha em lágrimas. Redford, para tristeza geral, pouco consegue passar emoção com seu Gatsby. A amizade com Nick Carraway, por exemplo, que é um dos pontos que motivam a narração da história, tenta existir nas falas sem, no entanto, existir na expressão corporal dos atores. O estreante Sam Waterston é um Nick apático, assim como o próprio Gatsby, um sujeito que, no livro, sob a sua aparente calma, é um violento apaixonado, um indivíduo atormentado pela rejeição sofrida no passado, um obcecado pela amada e pela sociedade que o exclui. Nenhum desses aspectos, infelizmente, é bem explorado pela película.

Nesse ponto, aliás, vale a pena dar uma olhada na versão de Baz Lurhmann. Embora o tom impresso ao filme seja sofrível para os amantes da obra, já que a melancolia elegante de Fitzgerald acaba dando lugar à histeria circense do diretor australiano, é fato que Leonardo DiCaprio faz um trabalho incrível como Gatsby. O intérprete consegue revelar as diferentes facetas do personagem com sua habitual competência – e eu juro que não digo isso só porque sou #teamLeo e quero muito que ele fature o seu Oscar. Da mesma forma, temos uma Carey Mulligan muito mais em contato com os arrependimentos e tristezas da fútil Daisy, sem a necessidade de cair na caricatura, e temos um eficiente Nick, representado pelo cativante Tobey Maguire, que passa ao espectador o necessário deslumbramento perante a figura enigmática de Gatsby e a doce inocência de um sujeito mediano arrastado para o mundo cruel e vazio da aristocracia americana da época. Pena que todas essas interpretações tenham sido afogadas por uma mar de computação gráfica.

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Fico aqui pensando que a obra talvez seja inadaptável para as telas. O texto é bonito demais, sensível demais para ser traduzido visualmente. Uma das partes, para mim, mais marcantes é a descrição do sorriso de Gatsby quando Nick o encontra pela primeira vez, antes mesmo de conhecer a identidade daquele homem. Deixo abaixo uma tradução, com o original no fim do texto, para que vocês possam sentir um pouco do belíssimo estilo do autor.

Sorriu compreensivamente – muito mais do que compreensivamente. Era um desses sorrisos raros que têm em si algo de segurança eterna, um desses sorrisos com que a gente talvez depare quatro ou cinco vezes na vida. Um sorriso que, por um momento, encarava – ou parecia encarar – todo o mundo eterno, e que depois se concentrava na gente com irresistível expressão de parcialidade a nosso favor. Um sorriso que compreendia a gente até o ponto em que a gente queria ser compreendido, que acreditava na gente como a gente gostaria de acreditar, assegurando-nos que tinha da gente exatamente a impressão que a gente, na melhor das hipóteses, esperava causar.*

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Como ficar indiferente diante desse trecho? Ou ainda: como representar esse sorriso nos lábios de alguém? Ele é basicamente inapreensível. Por isso, minha recomendação é: assistam sim à versão de 1974, principalmente para verificar o que é uma boa reconstrução de época no cinema, antes da nossa mania atual de encher uma história de efeitos mirabolantes; assistam também à versão de Baz Lurhmann, aproveitando o vigor que os atores, em especial Di Caprio, colocam em suas interpretações. Mas, pelo amor de tudo o que é mais sagrado, não deixem de ler a obra. Só aí vocês perceberão o quanto o “fator Fitzgerald” faz a diferença.

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*He smiled understandingly – much more than understandingly. It was one of those rare smiles with a quality of eternal reassurance in it, that you may come across four or five times in life. It faced – or seemed to face  the whole eternal world for an instant, and then concentrated on you with an irresistible prejudice in your favor. It understood you just as far as you wanted to be understood, believed in you as you would like to believe in yourself, and assured you that it had precisely the impression of you that, at your best, you hoped to convey.

Carolina Prospero Autor

Professora de Literatura e Redação. Formada em Letras pela Unicamp, fez lá também o seu mestrado, no qual trabalhou com a obra da musa-mor Clarice Lispector. Escreve de vez em quando, muito menos do que gostaria. Adora livros, séries e o seu gato Dante.