O grande romance de Simenon: a França de Vichy, um anti-herói formidável e a neve sempre suja

0
99

Enquanto o protagonista se revela, a neve vai ficando cada vez mais suja

Tio Simenon
Tio Simenon

Um escritor que ganhou lugar de destaque na minha biblioteca, junto a Robert Walser, Franz Kafka, Clarice Lispector e tantos outros, é o belga de língua francesa Georges Simenon! É óbvio que preciso falar sobre o seu  romance  La neige était sale (A neve estava suja, 1948), que terminei de ler no último dia 28 e é, sem sombras de dúvidas, um daqueles textos literários de leitura obrigatória pra qualquer um que queira ampliar os horizontes tanto nas temáticas “niilismo”, “existencialismo” e “psicologismo” na literatura, quanto naquelas referentes à segunda guerra mundial, e à ocupação nazista na França.

Assim, num primeiro momento, podemos dividir o romance simenoniano em duas partes, uma histórica, tendo em vista ser um dos mais fieis e, portanto, verossímeis relatos sobre a situação da França na guerra – que é pano de fundo de todo o romance –; e outra o desenrolar da vida de Frank Friedmaier, um jovem desencaminhado, cafetão, assassino, ladrão e, sobretudo, um dos personagens mais humanos e complexos da literatura moderna.

Sobre o pano de fundo: a França de Vichy

Certamente que o grande pano de fundo de todo o romance de Simenon é a França de Vichy, isto é, a França ocupada pela Alemanha nazista. O assunto é um dos mais interessantes do ponto de vista histórico, mas também um dos mais profundos na compreensão da ascensão da extrema direita no mundo do século XX, bem como do totalitarismo alemão, seu expansionismo e, sobretudo, da resistência a ele.

Nesse sentido o livro vem para contribuir com uma das polêmicas que ainda perpassam o tema, e que é, sem sombras de dúvidas aquela que tenta mensurar até que ponto existiu de fato uma resistência francesa ou tão somente uma resistência na França, como afirma o professor britânico Robert Gildea em seu novo livro Combatentes na sombra, que teve uma ótima análise publicada pelo El País ainda nesse mês de outubro.

Os relatos de Simenon, como muitas notícias atuais sobre o assunto, são certeiros e sua literatura restou totalmente confirmada pelo ensaio histórico de Gildea, sessenta e oito anos depois: até houve resistência na França, mas ela foi, sobretudo, estrangeira e aos farrapos, até a chegada dos aneveesteavasujaaliados na Normandia. A França que era o pano de fundo da vida de Frank era uma França cuja neve sempre estava suja, cujo céu sempre trazia um frio inverno e cujos corações estavam enegrecidos. A população, quando não colaborava diretamente com os nazistas (chamados, num arroubo eufemístico, apenas de “ocupantes”), entregando vizinhos, censurando transeuntes etc., simplesmente se calava.

Em uma passagem do livro (p. 34), o inspetor de polícia francês Kurt Hamling[1], chama de “terrorista” um rapaz preso pelos alemães no prédio de Frank e que era membro da resistência. Em várias outras passagens do livro, vemos o apartamento de Lotte, mãe de Frank, que era uma espécie de bordéu que atendia, sobretudo, a oficiais alemães. Ou o próprio “bar do Timo” (que penso como um personagem próprio) que atendia a vários nazistas de muito bom grado e cujo dono colaborava com os ocupantes para manter-se aberto à noite.

Seguindo o passo de alguns ensaios de resistência histórica, o romance do Simenon, ao contrário dos documentos oficiais da França, ainda traz personagens femininas que colaboraram direta ou indiretamente para a resistência, portanto, contra o nazismo, como a Anny (Anna Loeb), que supostamente entrara no bordéu dos Friedmaier para ouvir os oficiais nazistas, e tirar deles o máximo de informações.

Ora, imagina-se que o romance do Simenon, publicado em 1948, apenas dois anos após o fim da guerra e a queda do governo colaboracionista de Vichy, foi um verdadeiro tapa sem luva na “estória” oficial criada pelo general De Gaulle, de que o povo francês havia trabalhado unido para por fim ao nazismo. Em todo o livro, sente-se claramente aquele mesmo clima horrendo de colaboração que podemos ver em um filme como O pianista (Roman Polanski, 2002), que fala do colaboracionismo na Polônia ocupada.

Sobre as entranhas de Frank

A segunda parte de nossa divisão do livro é, sem dúvidas, aquela mais frondosa e relevante: as entranhas de Frank Friedmaier. Nessa parte que está no livro todo, podemos ver em uma clara alternância rítmica, de um lado a neve suja que estava, do outro lado um Frank cada vez mais sujo e que, igualmente, apenas estava. Quem era Frank? Um cafetão, assassino de idosas indefesas, aliciador de menores, um jovem de 19 anos que percorre as ruas de uma França suja, uma França que cede a uma potência estrangeira como uma meretriz. Essa é a sensação de Frank? Frank é, sobretudo, um niilista. Nada lhe tem valor. Assim que suas relações são marcadas pela frieza e pela total indiferença. Nada, nem mesmo a bebida que o embriaga todos os dias, tem tanto valor:

Não bebeu muito e, no entanto, as coisas se desenrolam como quando se está bêbado. Tudo é desfocado, confuso, apenas certos detalhes sobressaem com uma nitidez exagerada”. (p.62)

E enquanto a personalidade de Frank vai se delineando no livro, a neve vai ficando cada vez mais suja:

“sempre a neve suja, os montes de neve que parecem podres, com traços negros, incrustações de detritos. A poeira branca que às vezes se descola da casca do céu, em pequenos pacotes, como o gesso de um teto, não consegue cobrir aquela imundice”. (p.86)

E Frank é o Raskhólnikov de Fiódor Dostoiévsky, nos breves instantes antes de matar a velha; é o Jakob von Gunten de Robert Walser, em todo o momento em que destila a sua indiferença diante de tudo e é, ao mesmo tempo, o Josef K, de Franz Kafka, ao sentir-se suplantado e pisado por um sistema extremamente burocrático onde o ser perde a sua essência diante das inúmeras portas de gabinetes e dos coturnos que marcham nas ruas.

Frank é, sobretudo, o ser que se coisifica:

“Havia isso.

Havia Frank.

E havia isto e isto”. (p.145).

“Ele não é um mártir, nem um herói. Não é absolutamente nada” (p.173).

Todavia, malgrado tudo isso, Frank ainda é o ser que se atrai insanamente por Holst, o pai de Sissy, sem saber por quê. Que não se sente bem pelo mal feito a Sissy, ainda que sem saber. O ser que admira, como numa plena catarse artística, uma mulher pobre à janela, que mira da vidraça de sua cela nazista, todo início de manhã.

Frank, portanto, não é um personagem “do mal” ou “do bem”, um mocinho ou um vilão, como o telespectador brasileiro ainda está acostumado a ver nos teleatrasos das telenovelas, por exemplo. Frank é humano, habita nele um mal gigante e, talvez, um extremo bem. No entanto, é preciso sempre responder: quem é Frank? A sociedade pede, anseia por reduções das complexidades. A sociedade anseia por sua burrice. Poderíamos então responder: Frank é absolutamente nada, como tu e eu.

 

Referências

SIMENON, Georges. A neve estava suja. São Paulo: Cia das Letras, 2014.

ALTARES, Guillermo. A verdade sobre a Resistência Francesa: nem tão ampla e nem tão francesa. EL País/Cultura.

LA BAUME. Maia de. Exposição em Paris escancara colaboração francesa com nazismo. Folha de São Paulo. Ilustrada.

[1] note-se que vários personagens do livro, embora franceses, têm nomes de origem germânica – o que é o caso do próprio Frank e não podemos ignorar como, por exemplo, uma ironia.