O Homem e o seu Tempo, um romance que se passa na ditadura

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O homem e seu tempo é um livro essencial para aqueles que pedem por uma intervenção militar, o que facilmente poderia acabar em uma ditadura.

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“Era uma vez um homem e o seu tempo
Botas de sangue nas roupas de Lorca
Olho de frente a cara do presente e sei
Que vou ouvir a mesma história porca
Não há motivo para festa: Ora esta!
Eu não sei rir à toa!”
– Belchior

Em 2014 relembramos os 50 anos do golpe militar no Brasil. Cinco décadas se passaram e familiares de ativistas mortos nesse período obscuro ainda lutam pelo direito à verdade e à justiça. Entre tantos e necessários eventos sobre o período ditatorial brasileiro, chega agora em minhas mãos o romance O Homem e o seu Tempo (Chiado Editora), do escritor Yuri Pires. Yuri é pernambucano, inciou o curso de História na Universidade Federal de Pernambuco, foi vice-presidente da UNE e, atualmente, é estudante de Letras da USP.

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O Homem e o seu Tempo (Chiado Editora, 2014)

No livro O Homem e o seu Tempo, o tema está centrado nesse período de trevas e, sobretudo, no seu efeito devastador, principalmente para os irmãos Eduardo e Carlos. Os dois rapazes são filhos de Manoel e Lúcia, casal de ativistas da esquerda que, através da repressão militar, entram para a famosa e temerosa lista de “desaparecidos”. Em meio a separações e exílios, Eduardo migra para Portugal, vivendo com seu avô materno Pedro; Carlos, primeiramente, fica exilado em Cuba junto com seu tio Fábio e, em tempos de abertura, sobrinho e tio retornam à pátria.

O leitor dessa história acompanhará o percurso das personagens num período de 25 anos, isto é, de 1988 a 2013. A narrativa começa em Lisboa mostrando a vida de Eduardo, um jovem acadêmico e tímido que convive com os amigos Javier, Ernst, Antônio e também com as gajas Lígia e Pilar. Os rapazes dividem mesas de bar, batem papo, comungam sentimentos e aventuras. Entre vários assuntos debatidos, a política ganha destaque, principalmente, nas falas de Javier, melhor amigo de Eduardo. Quando o tema do grupo é a política, o brasileiro evita envolver-se na conversa, pois associa tal assunto com seu passado perturbador.

Quanto ao relacionamento dos irmãos, que não se conhecem pessoalmente, é notória a frieza e o distanciamento afetivo entre eles. E nem poderia ser diferente, diante da história de vida dos dois. Enquanto Eduardo não quer pensar no seu passado, devido ao sofrimento que tal passagem lhe causa, Carlos vive desse mesmo passado, numa busca perseverante pela memória.

O posicionamento antagônico dos irmãos se justifica, em parte, pelas figuras de Pedro e Fábio. Eduardo vivia com o avô Pedro, que perdera a filha para o regime. Estar em terra brasileira seria reviver toda a dor do desaparecimento. Para o bem ou para o mal, o jovem é influenciado pelo sentimento do avô. Já Carlos ficou com o tio Fábio, ativista político e sobrevivente das torturas e, por isso mesmo, seu engajamento é intenso.
Mas, então, em que momento o “lá” e o “cá” se encontram nessa história? No ano de 2013, Eduardo retorna ao Brasil a trabalho, e o encontro com o irmão e com o tio é imprescindível. Mesmo resistente, aos poucos Eduardo vai cedendo ao apelo dos dois familiares. Num dado momento de revolta e de inconformidade, ele diz não entender a escolha dos pais pela luta, tio Fábio explica-lhe o quanto homens e mulheres como Manoel e Lúcia foram importantes. Sobre Lúcia, Fábio diz:

“Se havia um mais forte de todos era a tua mãe. Não caia na conversa que deve ter escutado a vida inteira… tua mãe era firme como uma rocha, decidida, disciplinada, inteligentíssima e sensível, era a melhor de todos nós, e os melhores foram exatamente os que morreram e não os que ficaram.” (página 100)

E cada vez mais, Eduardo vai se envolvendo e compreendendo o posicionamento ideológico de seus pais. Ele vê passeatas, tem contato com a Comissão Nacional da Verdade, conhece Amélia Teles, a Amelinha, uma lutadora pela memória, justiça e verdade. Cabe lembrar ao leitor que Amélia Teles não é uma personagem fictícia; Amelinha, nos tempos sombrios, foi capturada e torturada pela Operação Bandeirante (Oban), uma organização formada por banqueiros, empresários da FIESP, militares e outros policiamentos, que agia para inibir as manifestações contrárias ao regime. Assim, Eduardo fica totalmente convencido da importância desse resgate histórico. Um instante bem decisivo é quando ele ouve o depoimento de um homem que conhecera Manoel numa prisão do Recife. Mário descreve:

“Estava com o corpo inteiro em carne viva, não conseguia abrir um dos olhos que estava completamente preto, sua barba estava com buracos em várias partes, e com cheiro de queimada- Eduardo apertava os punhos da cadeira em que estava- e no primeiro dia ele não falava nada, só gemia, acho que não conseguia dormir. No terceiro dias conversamos, e conversávamos sobre generalidades, pois não sabíamos se era possível confiar um no outro, por mais que fosse óbvio pelas nossas chagas, que não éramos amigos da ditadura- Mário limpava os óculos e buscava na lembrança os fatos.” (página 140)

Ainda nessa parte, o depoente cita que Manoel fora levado para São Paulo por Fleury. Para quem tem mais familiaridade com textos sobre a ditadura, sabe que Fleury realmente existiu. O delegado Sérgio Paranhos Fleury era coordenador do Esquadrão da Morte. Tal delegado era conhecido por ser um torturador brutal, que fazia uso do pau- de- arara, choques elétricos e outros tipos de torturas.
Por fim, sem adentrar nas minúcias, sem revelar outras passagens significativas da trama, digo que o livro do Yuri é uma ótima surpresa, um bem-vindo lançamento editorial de 2015 no Brasil. O Homem e o seu Tempo é mais uma voz , entre tantas, que só deseja a liberdade, o direito, a justiça e a verdade. Essa voz sempre precisa ser ouvida e multiplicada. Como diz o Yuri lá no fim do livro: “às vezes, o caminho mais curto entre o começo e o fim de uma história é uma curva para trás.” Jamais poderemos esquecer. Ditadura nunca mais!

 

Referências bibliográficas:

ARNS, Paulo Evaristo. Brasil: Nunca Mais. 1ª edição, Editora Vozes, São Paulo, 1985.

GORENDER, Jacob. Combate nas Trevas- A esquerda brasileira: das ilusões perdias à luta armada. 1ª edição, Editora Ática, 1987.

PIRES, Yuri. O Homem e o seu Tempo. 1ª edição, Chiado Editora, Lisboa, 2014