O Inventário das Coisas Ausentes, de Carola Saavedra – formas de não-saberes

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Na calculada fragmentação de O inventário das coisas ausentes, um encontro de formas narrativas guia a leitura, e deixa para quem lê a interpretação das entrelinhas

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Carola Saavedra

Fragmentos de vidas colecionados, dezessete diários entregues como um gesto inconfesso de quem diz “descubra-me a partir disso”, uma ambição em estágio larval de desenvolvimento, talvez resulte em um livro. Mudanças nem sempre sutis de ambiente, pessoas saindo de seus locais originais não significam novos e pacíficos destinos. Item descrito: O inventário das coisas ausentes.

Esta prosa de Carola Saavedra é repartida em duas partes: o Caderno de anotações e a Ficção. No Caderno, os blocos de anotações paragrafais contam da personagem que conhece Nina, a moça que foi criada por um pai com uma crença inabalável na ciência, comparável à do avô dela na religião. Parte do pensamento do pai se vê na ideia de ensinar a filha a jogar xadrez aos cinco anos, não para fazer dela uma potência intelectual, mas para desenvolver o pensamento lógico. Há alguns singelos fatos da infância dela contados, mas quando o protagonista a encontra, ela já tem 23 anos.

“Em que momento, distraídos, nos tornamos outras pessoas?” (p.22).

Há anotações sobre o livro. Ou de algo parecido com isso, meros esboços, mas: deve ser feito. O aspirante tateia no escuro até encontrar palavras menos imprecisas, aquele personagem é péssimo, saem uma ou duas frases, um mulher chamada Nina terá espaço na história, o livro avança.

O homem que conheceu Nina (a real, não a do livro em processo) passa a conviver com ela em um relacionamento. Inominado. Nenhum dos dois menciona um namoro, desconversam, ela é apenas uma amiga, da que não questiona sobre a família dele nem dorme na casa dele. Até aí tudo bem. O problema é quando ela deixa dezessete diários, inventariando os últimos cinco anos de vida dela, para ele e afirma que precisa viajar. Um dia volta, como se a partida dela fosse uma ida até a padaria.

“Leio o texto como se fosse parte de um romance. Talvez seja isso, e quando o amor acaba resta apenas a ficção” (p.65).

Resta o espanto pelo súbito espaço vazio, acompanhado por memórias confusas. Parcelas dos passados das personagens são contadas em paralelo, diminuindo ausências da história principal – mas não de suas personagens. Na segunda parte do livro, batizada Ficção, temos relatos de alguns não-saberes:

“Ele o espera no escritório, primeira à direita, ela diz. Como se eu não soubesse onde fica o escritório. Ela encosta o corpo junto à parede, cruza os braços. Talvez tenha medo de mim. Talvez me odeie. O ódio e o medo fazem a gente dizer qualquer coisa. Como se eu não houvesse nascido e me criado naquela casa. Como se eu não soubesse. O que ela sabe de mim. Nada” (p. 71).

É como se as personagens coabitassem o mesmo espaço e nada soubessem uma da outra. As coisas ausentes passam a integrar essas convivências, e o reconhecimento delas pelas personagens pouco ou nada muda seus desencontros e abandonos.

inventarioTambém neste quesito temático, o presente livro carrega uma herança dos romances anteriores de Carola Saavedra. Há um pouco do polifônico Toda terça (2007), com o desacerto de vozes não tão diferentes entre si, mas que não se afinam; de Paisagem com dromedário (2008), as memórias narradas pausadas por breves descrições dos exteriores, cada capítulo uma gravação e um momento; e de Flores azuis (2010), onde o desencontro do protagonista após um divórcio é contado após as leituras dele de cartas que não eram para ele, mas entregues em sua nova casa e ele as abre sem imaginar o quanto se envolveria. Na calculada fragmentação de O inventário das coisas ausentes, um encontro de formas narrativas guia a leitura, e deixa para quem lê a interpretação das entrelinhas presentes.

Referência

SAAVEDRA, Carola. O Inventário das Coisas Ausentes. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.