Conto: O justiceiro

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Injustiças

Pega ladrão!, foi o que André ouviu. Quase sem saber o motivo, num gesto automático, começou a correr atrás de um homem que lhe parecia alto e forte, com musculatura saliente no trapézio. Não sabia o que ele havia surrupiado, mas quando o seu Astolfo, dono do mercadinho, gritou, iniciou a caçada, mesmo estando em dia de folga.

Já no início da corrida, percebeu que seu preparo físico não era o mesmo de quando entrou para a polícia. Naquela época, corria dez quilômetros diariamente. Na verdade, praticamente só corria. Acordava cedo, dormia tarde. Acreditava que a faculdade de Direito seria um excelente complemento para sua formação como policial. Mais tarde, perceberia que não era bem assim, que o mundo real estava com a balança da justiça desregulada, quebrada, esquecida.

O ladrão começava a ganhar terreno. André já sentia as primeiras gotas de suor escorrerem por sua face. O sol quente de um dia de verão contribuía para isso. O preparo físico do meliante parecia ser excelente. Desviava-se dos pedestres com extrema facilidade e exímia coordenação motora. A genética desses malditos drogados parecia ser concebida para o atletismo profissional de alto nível.

A grande maioria dos policiais não possui formação superior. André fora um aluno dedicado. Desde pequeno teve paixão pela leitura. Leu todos os clássicos. Dostoievski, Tchekhov, Maupassant, Flaubert, Shakespeare, Machado de Assis. Mas os seus preferidos eram os violentos, os escritores policiais. Poe, Hammett, Chandler, Christie, Ellroy. Foram eles que o levaram a escolher a carreira policial. Leu e decorou todos os trâmites dos códigos criminais. Sua habilidade com as palavras o levou rapidamente para o burocrático cargo de delegado.

Já havia corrido cinco quarteirões e não conseguia ganhar terreno sobre o vagabundo. Todos esses anos atrás de uma mesa renderam-lhe muitos e indesejáveis quilos a mais. Enquanto corria, sentia o peso gelatinoso da grande massa de gordura abdominal que possuía. Suas pernas já acusavam a falta de preparo para uma corrida em alta velocidade. Seus pulmões, surrados pelo tabaco e pela nicotina, não conseguiam processar o ar que recebiam. O coração esforçava-se como nunca, tentando desesperadamente bombear sangue para manter aquele imenso e maltratado corpo em pé.

Como delegado, ele imaginava que poderia colocar em prática tudo o que havia aprendido na faculdade. O problema é que o sistema não funciona conforme os trâmites da lei. Tudo é feito de acordo com o interesse de bandidos que agem em conjunto com policiais corruptos, que fazem vista grossa para bicheiros e traficantes em troca de comissões que engordam o magro salário pago pelo governo. Todos os policiais flagrados nesse tipo de esquema imploraram por perdão, dizendo que tinham mulher e filhos pra sustentar. É foda. O sistema judiciário da vida não era nada justo. André se deparou com um mundo injusto, no qual o dinheiro e a política imperam.

O robusto ladrão embicava por uma ruela. André viu o desgraçado entrar por ali, um sujeito moreno, de braços e pernas musculosos. Sabia que aquele trecho terminaria num beco sem saída. Seu alvo não teria escapatória. Enquanto corria, sacou a Colt Cobra 38 que sempre carregava. Mesmo com as técnicas de artes marciais que aprendera na academia de polícia, não tinha certeza se poderia render um homem daquele tamanho. Viu que seu alvo havia chegado ao fim daquele trecho, que dava em uma imensa parede de tijolos. Mãos na cabeça!, foi o que gritou quando se aproximou do bandido.

Teve uma surpresa, quando o sujeito se virou. Era um menino magricela, com o rosto manchado de quem nunca foi tratado com vermífugo, cabelos crespos e desgrenhados, sem camisa, costelas querendo saltar através da pele, trêmulo, faminto, de no máximo 20 anos. Pelo amor de Deus, doutor, eu tava com fome!, devolvo o pacote de bolacha se quiser, não me prende, por favor!

André teve um choque. O monstro que ele perseguia não era aquele garoto raquítico, vítima de injustiças que o código penal não podia combater. Olhou para aquele ser humano sem nome, maltratado por uma sociedade que não o enxergava. Um garoto esquecido por todos, para quem a vida provavelmente não daria chance alguma de estudar, trabalhar, constituir família e todas essas coisas que dizem ser de direito. A balança da justiça nunca penderia para aquele moleque amedrontado, com um pacote de biscoito recheado barato na mão. Decidiu que faria com que a justiça fosse feita.

Mirou, engatilhou e seu 38 explodiu um som metálico que eclodiu pela eternidade. A bala entrou abaixo do olho direito. O menino não esboçou nada que indicasse dor ou sofrimento. Caiu de costas, com feições que indicavam certo alívio de quem descansou de uma sofrida jornada. André acendeu um cigarro e, olhando a poça de sangue que começava a se formar no chão, ficou satisfeito, pois a justiça tinha sido feita. Ele havia enfiado as mãos na merda, feito o trabalho que a sociedade desejava que fosse feito.

Aquele menino nunca mais seria injustiçado.

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Ilustração exclusiva para o conto por Giovana Christ.