O Legado de Humboldt, o profano e o etéreo na prosa de Saul Bellow

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Saul Bellow é um titã da prosa americana, embora ainda pouco conhecido no Brasil. Nasceu em Lachine, no Canadá, em 1915, mas muito novo radicou-se em Chicago. Morreu em Brookline na data de 5 de Abril de 2005. Vinte e nove anos antes, em 1976, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura.

Produziu catorze romances e novelas, além de numerosos volumes de contos; mas vamos nos deter em O Legado de Humboldt, livro publicado no ano em que o autor recebeu o Nobel.

Respire fundo e transpire, mas não ache que sua alma – se é que você acredita que ela existe – se conterá no corpo. O calhamaço de mais de quinhentas páginas não começa assim como pode se supor a partir da abertura deste parágrafo. Porém logo toma esta forma. Começa até bem comum, fluindo naturalmente, com a descrição logo em primeira pessoa, opção que permanece durante todo o livro, do impetuoso personagem Von Humboldt Fleisher. De carona, logo se conhece o narrador, Charles Citrine. São sete páginas que descrevem o comportamento de Humboldt no auge da fama em Manhattan, logo após ter publicado Baladas de Arlequim, um

O Legado de Humboldt, de Saul Bellow (Companhia das Letras, 2013)
O Legado de Humboldt, de Saul Bellow (Companhia das Letras, 2013)

livro de poemas, e a relação deste intelectual com Citrine, um estudante que viaja de Chicago para conhecê-lo. Na abertura, o narrador declara que tem inveja de Humboldt. Humboldt era tudo para ele, um “Escritor de vanguarda, o primeiro de uma nova geração, era bonito, leal, grande, sério, espirituoso, e também culto”. Imagine sete páginas em que um escultor golpeia a pedra até extrair a escultura. A escultura é então Humboldt, mas ao se olhar para o objeto vê-se também o artista, neste caso, Citrine, quem esculpe, uma coisa não existe sem a outra. Mas e depois das sete páginas? Depois? Bem, um salto de três décadas, uma inversão total, uma guinada. Pelas regrinhas baratas de construção de histórias, o primeiro ponto de virada acontece por volta dos vinte e cinco por cento do texto, mas num livro de quinhentas páginas isto equivaleria à página cento e vinte e cinco. Por que não burlar as regras? Estamos falando de Saul Bellow. E ele o fez. Três décadas depois, Charles Citrine recorda sobre o fim de Humboldt. Seu amigo havia o acusado de ter feito sucesso por causa dele, tinham se separado. O poeta entrou em depressão, tornou-se um maníaco, foi abandonado pela mulher, morreu de ataque cardíaco numa pensão. Mas e Charlie? Virou um sucesso após vender os direitos de adaptação de Von Trenck para o teatro, Broadway, posteriormente para o cinema. Depois escreveu biografias que se tornaram famosas. Tornou-se rico, muito conhecido. Pretende escrever um ensaio sobre o tédio, sua contribuição para a história intelectual humana. Separou-se da mulher, Denise, e agora tem uma mulher muito mais nova, Renata. Enquanto narra o livro, mesclando uma rememoração de sua vida e da de Humboldt, lida com as dificuldades em que está metido. Processado por Denise; arrependido de não ter se casado com Noemi Lutz; em dúvida se casa com Renata; ameaçado por Cantabile, um gângster de segunda linha de Chicago; e o maior dos questionamentos, como levar à frente aquilo que seu amigo que o renegou havia começado? De alguma forma se sente responsável por isso, como fica evidente no trecho da página 25:

“Eu disse que às vezes tenho uma sensação engraçada, como se tivesse sido selado e carimbado e me tivessem enviado pelo correio e que, num endereço importante, estavam à espera da minha chegada. Eu posso até conter informações incomuns. Mas isso não passa do silêncio de costume”.

***

Enquanto se lê O Legado de Humboldt é impossível não se admirar com a prosa de Bellow. Ele consegue misturar a superprodução da indústria cultural com um viés poético incrível, como se estivesse a comparar duas coisas semelhantes; talvez para ele fossem.

Separei este trecho da página 322, como exemplo:

“Inclinamo-nos para trás quando o 727 subiu mais e ouvimos o trem de aterrissagem ser recolhido. A lã escura das nuvens se interpuseram entre nós e as casas lá embaixo, as indústrias, o trânsito e os parques. O lago Michigan cintilou uma vez e tornou-se invisível[…]”.

Recordo-me de sentir uma necessidade incontrolável de reler o trecho assim que o li pela primeira vez. De repente, alguém havia dito que as nuvens eram “lã escura” e isto fazia completo sentido. E o lago Michigan “cintilou” e depois se tornou invisível. E isso por que ele queria dizer apenas que o avião estava decolando. Beleza e simplicidade, algo entre o etéreo e o profano.

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Em certo sentido, quero dizer que entendo Charles Citrine. Não sei se ficou claro, mas Citrine no momento em que narra o livro é extorquido por todos. Ele não parece um ser natural, um homem americano, interessado em ganhar dinheiro. Suas preocupações são mais profundas, embora ele enverede por um caminho um tanto místico – não meu predileto. Todos os personagens incríveis que Bellow cria no romance parecem emanar de Citrine. Se não fosse sua força imperiosa de atrair pessoas complicadas, nada das confusões que se sobrepõem à sua vida iam acontecer.

O Legado de Humboldt me fez pensar em muitas coisas – não somente sobre o legado que quero deixar, etc… algo dedutível a partir do título –, entre elas na ação diante da vida. O que quero fazer? Mais do que isso, o que estou fazendo para atingir o que quero fazer? E se o que quero fazer estiver ligado a mudar alguma coisa nos outros por apuro intelectual, o quando isto é perca de tempo. A beleza, a dor, a vida, um grande teatro de ilusões.

Vejam Humboldt, uma última vez, antes de ler o livro:

“Poeta, pensador, bebedor problemático, ingestor de pílulas, homem de gênio, maníaco-depressivo, maquinador requintado, história de sucesso, no passado escreveu poemas de grande argúcia e beleza. Mas o que tinha feito ultimamente? Fizera soar as grandes letras e melodias que trazia dentro de si? Não. Poemas não escritos estavam matando Humboldt. Ele havia se retirado para aquele lugar que às vezes lhe parecia a Arcádia e às vezes parecia o inferno. Ali Humboldt ouvia as coisas ruins que seus detratores – outros escritores e intelectuais – diziam sobre ele. Humboldt se tornou malicioso a respeito de si mesmo, mas parecia não escutar o que ele mesmo dizia sobre os outros, como os caluniava. Para esmiuçar e criar intrigas, ele era fantástico. Estava se tornando um dos grandes solitários da época. E nem pretendia ser solitário. Sua aspiração era ser uma criatura ativa, social. Seus planos e projetos revelavam isso”. (pg. 32).

O legado de Humboldt / Saul Bellow; tradução Rubens Figueiredo. – 1ª Ed. – São Paulo: Companhia das Letras.